1. Introdução.

Há muitas filosofias e muitas religiões que creem e defendem que a alma, sozinha, é a própria substância humana. O ser humano seria, então, um tipo especial de anjo. Quer dizer, um ser cuja substância completa é ser um espírito, mas que eventualmente pode relacionar-se com a matéria, como que “vestindo-a”. A matéria seria, assim, uma espécie de embalagem ou moradia. Dentre os que defendem isto estão os reencarnacionistas em geral. Embora nem sempre cheguem a dar-se conta de que defender a possibilidade de reencarnação pressupõe admitir que o corpo humano não integra a identidade substancial da pessoa humana: mesmo adotando um outro corpo, aquele indivíduo continuaria sendo a mesma pessoa. Ora, se algum elemento pode ser trocado no indivíduo sem perda da identidade, então esse elemento não integra sua substância. O que equivale a dizer que estes creem que a substância humana é integral e completamente espiritual.

Por outro lado, parece difícil compreender que a alma humana é subsistente sem ser substancial. Morto o ser humano, algo nele sobrevive, que leva sua identidade mas não a inteireza do seu ser, que sobrevive de modo pessoal mas já não é uma pessoa. Defender a imortalidade e perenidade da alma humana e, ao mesmo tempo, perceber que a substância humana, ou seja, o ser humano em sua completude estrutural, é sempre e necessariamente um composto deste corpo e desta alma sempre nos pareceu, e sempre nos parecerá, inusitado. Mas é o que somos, e só isto consegue explicar racionalmente a estrutura humana. É por isto que o presente artigo é tão importante. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida aqui proposta, para promover o debate, é a de que o ser humano é um ente pleno apenas e somente pela sua alma. A alma é o ser humano. A relação com o corpo seria, portanto, um mero acidente num ente que é essencialmente alma, completo e perfeito como ser espiritual. São dois os argumentos objetores iniciais.

3. O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que São Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios, faz uma distinção entre o “homem interior” e o “homem exterior“. De fato, 2Cor 4, 16 diz: “É por isso que não desfalecemos. Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia.

Ora, prossegue o argumento, o que seria este “homem interior” senão a alma? De acordo com o argumento, portanto, o corpo seria apenas uma aparência, o “homem exterior” que perece e passa, mas a alma, “homem interior“, representa a verdadeira essência humana, ou seja, o ser humano é substancialmente e plenamente constituído apenas pela sua alma, conclui o argumento.

4. O segundo argumento objetor.

A filosofia clássica, por sua metafísica, conhece o conceito de substância primeira, ou seja, os entes substanciais em sua existência concreta (este cão, aquela árvore, etc.) e substância segunda, que é universal (a espécie canina, as árvores em geral, etc.). Cada alma humana é, então, substância primeira, existindo concretamente de modo imperecível, mesmo quando a morte destruiu o respectivo corpo. Ora, se ela é substância primeira, ela é um indivíduo, vale dizer, uma substância individual de natureza racional. Ora, esta é exatamente a definição clássica de pessoa. E, sendo alma humana e não anjo ou mesmo animal irracional, a alma humana é pessoa humana, integralmente. Deste raciocínio o argumento conclui que a alma, por si mesma, é o ser humano em sua perfeição e integridade.

5. O argumento sed contra.

O argumento contrário resgata um trecho da Cidade de Deus, de Santo Agostinho, no qual ele cita elogiosamente Varrão, que ensinava que o ser humano não é só alma, nem só corpo, mas simultaneamente, alma e corpo.

6. Encerrando.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.