1. Retomando.

Vimos na resposta sintetizadora de Tomás, a caminhada da filosofia grega clássica, desde os pré-socráticos, que não conseguiam conceber a imaterialidade dos princípios, até Platão, que remete toda relação de conhecimento (sensível ou intelectual) para a imaterialidade, até Aristóteles, que consegue distinguir o conhecimento sensível, relacionado aos órgãos do sentido e estritamente material, do conhecimento intelectual, que é abstrato, e portanto imaterial. Disto Tomás conclui que a alma humana, diferentemente da alma animal, é algo subsistente.

Munidos, então, destes princípios, enfrentaremos, com Tomás, as objeções iniciais.

2. O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o ser humano é um animal. Portanto, ele pertence ao gênero animal, do mesmo modo que todos os outros animais da face da terra (cães, leões, macacos, etc.). Assim, temos uma alma animal; e se a alma animal do ser humano é subsistente, não haveria motivo para que todos os outros animais não fossem também dotados de almas subsistentes. Por isto, a alma de todos os animais é subsistente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que nós, humanos, somos do gênero dos animais. Somos animais. É esta a nossa natureza. Mas somos animais de uma espécie muito especial, diferente de todas as outras: somos animais racionais. Ou, poderíamos dizer com mais precisão, somos animais espirituais. Portanto, há uma diferença formal entre nós e todos os outros animais. Ora, dizer que há uma diferença formal, na metafísica clássica, significa dizer que nossa estrutura, nossa forma, difere daquelas dos outros animais. Mas a forma dos seres vivos, como sabemos, chama-se alma. Assim, nossa alma mesma difere da alma dos outros animais (que não são, como nós, racionais, mas irracionais).

Tomás vai nos lembrar que as diferenças formais determinam as diferenças nas espécies, mas nem sempre determinam diferenças na classificação dos gêneros. Por isto, nossa alma é do mesmo gênero daquela dos outros animais, mas não é da mesma espécie. A nossa, intelectual, é subsistente. A deles, apenas sensível, mas irracional, não é.

3. O segundo argumento objetor.

O objeto dos sentidos é chamado de “sensível”, ou seja, é aquilo que é portador de informação sensível capaz de ser captada pelos órgãos dos sentidos, diz o argumento. O objeto da inteligência é o chamado “inteligível”, isto é, aquilo que é portador de informação inteligível capaz de ser abstraída e absorvida pela inteligência, prossegue. Ora, o argumento faz, então, uma analogia de proporção: o dado sensível está para os sentidos como o dado inteligível está para a inteligência. E prossegue, lembrando que, no artigo anterior, ficou estabelecido que o intelecto não depende do corpo para abstrair e aprender aquilo que é inteligível. Logo, o argumento aduz, tampouco os sentidos dependeriam do corpo para captar e guardar os dados sensíveis que recebe. E, por fim, conclui: se os animais em geral têm alma sensível e nós temos almas intelectivas, e há proporção entre os modos de conhecer, então a mesma razão que nos leva a deduzir que as nossas almas são subsistentes devem levar-nos a concluir que a deles também é.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás vai surpreender pela simplicidade e capacidade de observação. Sua resposta é retirada do cotidiano, e é muito fácil de seguir; ele vai partir da ideia de que as atividades que envolvem nosso corpo sempre nos cansam, mas as atividades que são estritamente espirituais não nos cansam. Podemos, por exemplo, deitar numa rede confortável e ler um belo livro por horas, perdendo-nos em entretenimento e contemplação, sem cansaço; na verdade, até descansamos, quando fazemos isto. Mas se nos envolvemos numa atividade corporal, como uma caminhada ou corrida, logo nos cansamos. Além disso, na atividade espiritual, a intensidade não sobrecarrega: quanto mais belo o objeto da nossa contemplação, por exemplo, mais nos entretemos. Mas com as atividades corporais a intensidade sobrecarrega: levantar um objeto muito pesado é mais cansativo do que levantar algo leve.

Assim, percebemos que a atividade dos órgãos dos sentidos é de natureza material: ela pode nos cansar, e a intensidade do objeto nos cansa, nos sobrecarrega. Imaginemos olhar um belo raio de luz; é agradável. Mas olhar diretamente a fonte da luz, que é o sol, pode destruir nossos olhos. O mesmo com a audição: um ruído muito alto pode nos atordoar e até nos ensurdecer. Depois de ouvir um ruído muito alto ou olhar para uma luz muito intensa, passamos a ter dificuldade em ouvir algo muito sutil e de pouca intensidade, ou de ver sob pouca luz. O mesmo poderíamos dizer do tato, do olfato e do paladar.

Mas com os objetos da inteligência isto não ocorre. Quando conseguimos inteligir algo muito complexo, muito profundo, isto nos dá grande deleite, e facilita o acesso da nossa inteligência às coisas menos profundas. Ser exposto a inteligíveis complexos, ou a conhecimentos muito intensos, torna nossa inteligência mais afiada, mais penetrante. É o efeito contrário àquele causado nos sentidos pelos objetos sensíveis muito intensos. Isto demonstra a diferença de natureza entre a inteligência e a sensibilidade.

Nem se argumente que inteligir também cansa, como naqueles momentos em que ficamos exaustos de estudar. Este cansaço não está na inteligência, mas no fato de que nossa inteligência depende do nosso corpo para receber as informações que os órgãos recebem do mundo exterior. Assim, é o esforço corporal para nutrir a inteligência que nos cansa, não o exercício da própria inteligência. A prova disso é que, mesmo quando estamos cansados de estudar ou pesquisar, escolhemos algum tipo de entretenimento espiritual para nos descansar, como contemplar uma obra de arte, ouvir uma bela música, ler um livro de romance ou mesmo assistir a um filme. Se o cansaço fosse espiritual, certamente envolver-se com entretenimentos que demandam o espírito não seria o caminho para descansar.

Disto tudo, Tomás pode concluir que a natureza da alma sensitiva é muito diferente da natureza da alma espiritual, e por isto há fundamento para defender que a alma espiritual é subsistente, mas a sensitiva, não.

4. O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a característica da alma subsistente é ser capaz de alguma operação independente do corpo. Mas, defende o argumento, a alma de qualquer animal, racional ou irracional, uma vez que é o princípio da vida, é também o princípio do movimento físico. Ora, diz o argumento, a iniciativa de mover-se é da alma, e independe do corpo, em qualquer animal, racional ou irracional. Logo, todo animal tem, pelo menos, uma atividade da alma que é independente do corpo: a atividade de originar, de iniciar o movimento físico do animal. Ora, se todas as almas de todos os animais têm esta operação independente, então todas são subsistentes, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não é bem assim, diz Tomás, como profundo observador da natureza que é. O movimento dos animais, de todos os animais, tem uma origem complexa, que envolve corpo e alma em profunda relação, e nenhum dos dois opera com independência, relativamente ao outro. Todo movimento deliberado de qualquer animal dá-se sempre como resposta a um estímulo qualquer, que desperta o apetite (apetite, aqui, no sentido amplo de inclinação, como a inclinação sexual, a inclinação de defesa, a inclinação de alimentar-se, e assim por diante). Mas os estímulos são sempre recebidos pelos órgãos corporais, que provocam modificações na própria estrutura biológica do animal (como o medo, o desejo, a ira, a fome e assim por diante) e levam a que o animal reaja; esta reação é uma resposta que tem origem na inclinação instintiva de fugir ou buscar, inscrita na própria estrutura do animal (e, portanto, em sua alma) no sentido de que esta reação demanda a movimentação do animal inteiro, tornando-o capaz de responder instintivamente àquele estímulo, fugindo dele ou perseguindo-o. Portanto, mover-se, ou mesmo impulsionar o movimento, não é algo que o animal realize como pura iniciativa de sua alma, sem o envolvimento do corpo no próprio desencadeamento do comportamento. Cabe ao corpo receber os estímulos que provocarão o movimento, e a alma organizar a respectiva resposta. Por isto, o desencadear do movimento físico do animal não pode ser considerado um exemplo de atividade independente realizada pela alma dos irracionais, e não prova sua subsistência.

5. Conclusões.

Após estes textos, não deixamos de sentir alguma tristeza em perceber que nossos amados animaizinhos não sobreviverão à morte física, como nós, humanos. Mas não podemos nos esquecer que, após a renovação escatológica que ocorrerá com o retorno do Filho do Homem, toda a natureza, que hoje geme e chora, será renovada em plena harmonia, conforme Romanos 8, 20-21, a criação foi sujeita, pelo pecado humano, a ser efêmera; todavia, com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Temos a esperança de que isto inclua, de algum modo, os animais nesta renovação, mas isto é um mistério de Deus, e, em todo caso, não é isto que Tomás ensina. É apenas um desejo da minha parte.