1. Palavras introdutórias.

Que alguma espécie de sobrevivência humana existia, isto intuíram todos os povos e religiões. É certo que sempre houve alguns, como os antigos hebreus e mesmo os saduceus, que reduziam esta sobrevivência a uma espécie de sombra existencial nas profundezas da terra, um sono ou mesmo uma penumbra indistinta. Outros povos imaginavam algum tipo de “retorno ao absoluto”, uma absorção ou incorporação no todo de Deus. Pouquíssimos defenderam a aniquilação completa do ser humano após a morte, salvo algumas correntes cientificistas, declaradamente ateias. Neste artigo, o debate é justamente este: é certo que se morre, e a degradação do corpo pode ser muito bem observada e documentada. Mas existe algum indício de que a alma humana, ou seja, a estrutura imaterial do ser humano, pode sobreviver de algum modo? Ela pode manter-se como algo que subsiste, mesmo quando o corpo se degrada pela morte?

Discussão importantíssima. De fato, a alma não é uma coisa, não é um ente por direito próprio. Subsistir é algo próprio das substâncias, não de suas partes ou de seus acidentes. E a substância “ser humano” é subsistente, mas corruptível: conhece a morte. Em que sentido poderíamos admitir, então, que a alma, sem ser substância, pudesse ser subsistente? Neste caso, teríamos que admitir que ela sobrevive à morte do ser humano que ela forma. Há elementos de razão que permitam afirmar isto?

Além disso, haveria uma outra consequência: sendo algo simples (porque é imaterial), se a alma subsiste por si mesma, seria também imperecível. Mas estamos nos adiantando a tantos debates que ainda serão feitos.

Vamos ao debate presente, interessantíssimo.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida é a de que o ser humano perece completamente com a morte, e por isto não há nenhum tipo de sobrevivência, nem mesmo daquela parte do ser humano que é imaterial, vale dizer, sua alma. Em suma, a hipótese é a de que a alma humana não é subsistente.

Ora, para que algo seja subsistente, especialmente algo de natureza imaterial como a alma humana, dois requisitos fazem-se necessários. Primeiro, que a alma fosse, por si mesma, um ente. Só os entes são substâncias, e, de regra, só as substâncias podem ser imperecíveis por si mesmas. Os acidentes e os elementos de outra substância corrompem-se, quando a própria substância se corrompe. Ora, a alma não é uma substância. Ela é apenas um elemento componente de uma substância corruptível pela morte, que é o ser humano. Assim, aparentemente ela não atende a este requisito.

Por outro lado, uma coisa subsistente, mesmo se faz parte de outra, deve ter alguma operação autônoma, capaz de subsistir por si mesma, ainda que a coisa da qual faz parte venha a perecer. Será que a alma humana tem alguma operação assim, que seja autônoma com relação ao corpo? Esta também é uma das boas discussões que se travarão aqui.

Há três argumentos no sentido desta hipótese polêmica inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento lembra que só se pode falar da subsistência de um ente. Vale dizer, para dizer que uma coisa é subsistente, eu teria que afirmar que a sua substância subsiste, é indestrutível, permanece, não perece. Mas a alma, como se sabe, não é uma substância, mas apenas um elemento da substância que é o ser humano. E o ser humano somente subsiste até a morte, que é o evento que marca o fim de sua existência. Logo, a alma humana, não sendo um ente, mas apenas um elemento de um ente perecível, não é, ela própria, subsistente.

O segundo argumento diz que as coisas imperecíveis, ou seja, aquelas que subsistem na existência mesmo quando fazem parte de alguma coisa perecível, são aquelas capazes de algum tipo de operação autônoma. Mas a alma humana não tem operações autônomas: é o ser humano que as tem. Assim, dizer, por exemplo, que a alma humana sente ou intelige de modo autônomo seria equivalente a afirmar que ela pode cozinhar, costurar ou edificar uma casa autonomamente. Quem sente ou intelige não é a alma, mas o próprio ser humano da qual ela é estrutura. Ora, se ela não é sujeito de atividades autônomas, tampouco será sujeito de algum tipo de sobrevivência autônoma.

Por fim, o terceiro argumento ainda segue na linha das operações autônomas. Poderíamos observar que a atividade de conhecimento, típica do ser humano, seria uma atividade espiritual, e portanto constituir-se-ia como uma operação com autonomia com relação ao corpo. De fato, os anjos conhecem, inteligem, e não têm corpo. Mas, nos seres humanos, a operação de inteligir depende dos sentidos, para receber as informações, da memória, para reuni-las e da imaginação, para formar aquela representação sensível que a filosofia do conhecimento clássica chama de “fantasma”, que permitirá à inteligência humana aprender. Ora, tanto os órgãos do sentido, quanto a memória e a imaginação, são órgãos estritamente relacionados com o corpo, e por isto não se pode dizer que a operação de inteligir, no ser humano, seja uma atividade autônoma da alma. Portanto, se nem sequer a mais espiritual das atividades, que é a de inteligir, pode dar-se na alma humana de forma autônoma, conclui o argumento, não podemos admitir que a alma humana seja subsistente.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai citar Santo Agostinho, que, com uma certa influência platônica, parece considerar a alma humana como uma substância em si mesma – o que, como sabemos, ela não é. No entanto, como veremos da resposta de Tomás, ela é subsistente, isto é, sobrevive à destruição do corpo. Mais uma vez, estamos nos adiantando ao argumento. O que Agostinho vai defender é que a alma tem, em si mesma, a natureza de uma substância espiritual, imaterial, e por isto é subsistente. Agostinho diz que aqueles estudiosos que percebem que a natureza da alma humana é ser substancial sem ser material sabem que estão em erro aqueles que acham que ela é corporal. É que estes não conseguem conceber nenhuma natureza substancial que não seja física, e por isto imaginam que a alma humana é corpórea. Assim, o argumento sed contra defende que a alma humana não somente é algo imaterial, mas também é uma substância por direito próprio,, e por isto é subsistente, mesmo se o corpo é eliminado pela morte.

5. Palavras de encerramento.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.