1. Palavras de Retomada.

Havendo estabelecido os princípios para encaminhar uma adequada resposta à hipótese objetora inicial, e havendo estabelecido firmemente que a alma, princípio da vida, é imaterial, Tomás reexaminará agora os argumentos objetores iniciais.

2. O primeiro argumento objetor.

O primeiro objetor afirma que cabe à alma mover o corpo. Mas tudo aquilo que é capaz de mover outra coisa tem que ser, em si mesmo, algo móvel, porque nada pode dar movimento se não estiver se movendo também. O argumento lembra que podem existir motores imóveis, ou seja, entes capazes de fazer algo se mover, mas permanecendo imóvel, como Aristóteles ensinava que Deus fazia. Mas, neste caso, como o motor é imóvel, ele não sofre nenhum tipo de modificação ao transmitir movimento àquilo que é movido. Assim, o movimento que ele transmite tem que ser absolutamente uniforme, regular e eterno, como é o caso do movimento dos astros do céu – ao mover alguma coisa sem mover-se, o motor imóvel não altera a maneira pela qual transmite o movimento. Mas, prossegue o argumento, sabemos que os entes que possuem alma, como as plantas e animais, movem-se de modo irregular e inconstante. Assim, a alma, como motor, não pode ser imóvel. Mas, se ela não é imóvel, ela se move. Mas tudo o que se move é material, porque nada que é imaterial muda de lugar. Logo, o argumento conclui que a alma é corporal, isto é, ela seria material em si mesma.

Em sua resposta, Tomás admite que podem existir, de fato, motores imóveis. Tudo aquilo que se move é movido por outra coisa, que, por sua vez, é movido por outra coisa, e assim por diante. Mas a cadeia do movimento não pode seguir até o infinito. É preciso, pois, admitir um primeiro ente capaz de mover sem ser movido. De fato, o movimento implica passar do repouso (que é apenas a potencialidade para o movimento) ao movimento, que é o ato de deslocar-se. Mas nada poderia deslocar outra coisa se não tivesse, por sua vez, deslocando-se. No entanto, para evitar o regresso ao infinito, deve-se admitir algo que, sem mover-se, sem modificar-se, é capaz de mover as outras coisas. É claro, porém, que este primeiro motor somente pode mover outra coisa de modo uniforme e constante, porque, uma vez que ele próprio não se modifica, também o movimento que transmite não pode modificar-se. Logo, a alma não pode ser um motor imóvel, e nisto o argumento está certo.

A resposta de Tomás.

Sendo tudo o que se move movido por outro, e como não se pode continuar assim até o infinito, necessário é dizer-se que nem todo motor é movido. Pois, ser movido sendo o passar da potência para o ato, o motor dá o que tem ao móvel, atualizando-o. Mas, como o demonstra o Filósofo, há um certo motor absolutamente imóvel, não movido nem por si nem por acidente; e tal motor pode mover o movido sempre uniformemente.

Mas a falha no raciocínio do argumento é que ele imagina o corpo e a alma como se fossem duas coisas distintas, e eles não são. Eles são a mesma coisa, o mesmo ente. São dois elementos de um mesmo ente que se move. Assim, a alma, como elemento imaterial, é o princípio do movimento do ser vivo, simplesmente por ser o princípio da vida, e estar vivo é mover-se. A alma, no entanto, apesar de ser imaterial, podemos dizer que ela se move com o ente que ela compõe, mas isto acontece de modo acidental: embora imaterial, e portanto não ocupando, por si mesmo, lugar no espaço, a alma é a estrutura de um ser corporal. Assim, quando este ser se desloca, ela se desloca junto com ele, simplesmente por ter identidade com ele. Por isto, a alma é um motor acidentalmente móvel, sem ser material. E assim a alma, como causadora de movimento, ou seja, como motor, é capaz de provocar movimentos não uniformes no corpo – porque é um motor acidentalmente móvel.

De fato, além do motor imóvel, que é divino, e do motor acidentalmente móvel, que é a alma do ser vivo, todos os motores móveis são corporais. Assim, os motores móveis são substancialmente móveis, porque são sempre físicos. Os primeiros filósofos, ainda com pouca penetração na estrutura do universo, conheciam apenas os motores móveis deste tipo, ou seja, os motores móveis corporais. E como observavam que os seres vivos eram móveis, imaginaram que aquilo que os movia, ou seja, a alma, devia ser alguma espécie de corpo, também. A este mesmo erro chegou este primeiro argumento. Tomás o corrige.

3. O segundo argumento objetor.

O segundo argumento parte da ideia, muito presente na filosofia clássica, de que, para ver alguma coisa, é preciso ser semelhante a ela. Assim, coisas materiais enxergam coisas materiais, coisas espirituais veem coisas espirituais e o ser divino vê Deus. Mas a alma traz em si a capacidade de conhecer as coisas do mundo material, porque é a sede da inteligência humana. Ora, se ela consegue ver e conhecer o mundo material, ela deve ser material também.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás traz toda a complexidade da bela teoria do conhecimento que ele utiliza, desenvolve e defende.

Aqui, temos uma sutileza: embora, de fato, a alma não seja, em si mesmo, um ente, mas apenas um elemento do ente material que é o ser humano, no entanto o conhecimento intelectual é uma faculdade estritamente espiritual da alma. Conhecemos o mundo material por meio das informações que nos chegam pelos nossos órgãos dos sentidos, que são materiais, mas o próprio conhecimento é imaterial. Portanto, é da natureza da alma conhecer. Mas isto significa que, para conhecer as coisas materiais, ela deve ser material também?

A resposta de Tomás não vai esgotar o assunto, porque somente num momento posterior estudaremos mais profundamente o próprio conhecimento humano. Por agora, interessa ressalta que Tomás classifica a alma humana dentre as realidades que “conhecem as coisas primeiro em potência, depois em ato”. Isto quer dizer que a alma humana é marcada pelo fato de que ela é capaz de aprender, de relacionar-se com o mundo material e, com isto, ganhar conhecimento. Este fato é peculiar aos seres humanos. Aprender não é um processo comum a todas as realidades espirituais, é específica do ser humano. Deus não precisa aprender. Os anjos não aprendem, porque são criados com todo o conhecimento que precisam ter. Assim, só o ser humano, dentre os seres espirituais, é capaz de aprendizado, isto é, de passar da potência ao ato quanto ao conhecimento.

Assim, diz Tomás, aquelas naturezas que são capazes de aprender não precisam ser semelhantes, em ato, àquilo que é objeto da sua aprendizagem. E ele dá como exemplo o olho: o objeto próprio da sensibilidade do olho é a cor. Mas a cor somente se manifesta na luz. Mas o olho não precisa ser luminoso em si mesmo, quer dizer, não precisa ser de luz para ter a capacidade de ver na luz. Quando ele é atingido pela luz, ele atualiza sua capacidade de ver, torna-a efetiva, e assim a própria luz torna-se o meio pelo qual ele conhece as cores. Algo análogo ocorre com a alma humana: sua capacidade de conhecer o mundo material é apenas potencial. De tal modo que ela precisa de um meio material para interagir com ele e conhecê-lo. Mas este meio não precisa ser da própria natureza da alma. A alma é apenas um elemento do ser humano, um elemento com capacidade potencial para conhecer, mas a efetivação desta capacidade depende de condições que estão fora dela mesma – embora não estejam fora do ser que ela estrutura, que é o ser humano. Em suma, a natureza da alma não precisa ser material para que ela tenha a capacidade de conhecer, de aprender com o mundo material. Mas sem o corpo, que é material, essa capacidade da alma não se atualizará. Voltaremos a este tema num momento posterior.

4. O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor é físico, mesmo. Para que uma coisa mova outra, é preciso que as duas coisas entrem em contato. Como eu poderia, por exemplo, mover uma pedra sem encostar nela? Mas esta ideia de contato é sempre física, diz o argumento, e implica um corpo tocando e fazendo pressão em outro corpo. Deste modo, o argumento conclui que a alma, para ser motor do corpo, tem que ser algo físico, e sua concretude física tem que ser própria, diversa daquela do corpo, de tal modo que ela tem que ser corporal para ser motor do corpo, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, aqui, a objeção vê a alma e o corpo como duas coisas distintas, e como se uma delas empurrasse a outra de alguma maneira, para movê-la. Mas não é assim. Não se trata de duas coisas, mas de uma mesma coisa, o ser humano, cuja composição envolve uma dimensão material e uma dimensão espiritual. E, de fato, a alma rege o corpo e, neste sentido, rege seus movimentos. Voluntários ou não. Portanto, podemos afirmar que a alma é motor, porque é, em última instância, a origem dos movimentos humanos.

Há dois sentidos, portanto, em que podemos dizer que um movimento se origina em algo e se realiza em outro: o sentido material, em que o empuxo é físico, e que depende, portanto, de um contato físico para ser transmitido, e o sentido de origem, de poder, de autoria, mesmo. Neste caso, a autoria do movimento, sua origem, está na alma, mas trata-se de uma relação interna de poder no âmbito do próprio ente vivo: a alma, sendo estrutura e princípio da vida, tem o poder de mover o ente, não por uma relação externa de contato físico, mas por uma relação interna de poder, de origem, que determina que o controle que a alma tem sobre o corpo se expresse como o movimento do ente.

5. Conclusão.

Estudamos, então, a natureza desta estrutura imaterial que compõe o ser humano e explica sua condição de vivente, que se chama alma. No próximo artigo estudaremos a relação entre a duração da alma e a duração do próprio ser humano. Ou seja, veremos se a alma é uma estrutura subsistente num ser mortal.