1. Retomando.
O corpo e a alma não são duas coisas. São elementos de uma coisa só, o ser humano. Assim, poderíamos dizer que a alma é, de fato, corporal; ela existe no corpo e para o corpo. É certo que os antigos tinham já a noção de que a alma humana subsiste, isto é, a estrutura humana não se destrói pela morte. Mas, sem dúvida, sentimos aqui a influência platônica que chega aos nossos dias. Temos a tendência a conceber a alma como uma coisa, como uma substância por direito próprio, que sobrevive à morte como uma nuvenzinha voando por aí. Isto decorre, também, do fato de que nossa imaginação não consegue conceber a subsistência de algo puramente imaterial, e tendemos a imaginá-la por analogia a alguma coisa material.
O dualismo é sempre uma tentação, e não somente para o cristianismo: o fato de que somos criaturas híbridas, seres materiais com acesso indireto à dimensão espiritual, é muito fácil imaginar que somos duas coisas, ou que somos completamente uma delas e só acidentalmente a outra. É por isto que os materialistas defendem que somos substancialmente materiais, e nossa mente é apenas um fenômeno, uma aparência útil, mas sem consistência. Por outro lado os espiritualistas imaginam que somos substancialmente espíritos (como se fôssemos da mesma natureza dos anjos) e acidentalmente ocupamos corpos, às vezes. Ambos são reducionistas.
E é esta a importância do presente artigo. A alma humana é corporal? Sim, ela é, se imaginamos que ela é a estrutura do próprio corpo. Portanto, a alma humana é apenas um elemento de uma coisa que é corporal. Neste sentido, a resposta à hipótese controvertida, neste artigo, poderia ser positiva, se fosse bem elaborada: sim, a alma humana é corporal, porque ela existe no corpo e para o corpo. Mas a pergunta colocada pela hipótese controvertida, aqui, é outra: a alma seria, independentemente do corpo, também uma realidade corporal, material. Vemos reflexos disto ainda hoje: há pouco tempo, a imprensa noticiou uma experiência pela qual alguns pesquisadores resolveram pesar o ser humano logo antes e logo depois da morte, para identificar o momento da perda da alma (ou comprovar sua inexistência). Como era de se esperar, a morte não provocou, por si mesma, nenhuma alteração de massa nos que morreram.
Eis a importância de rever os debates de Tomás sobre o assunto. Vamos a ele.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O problema central, no presente artigo, diz Tomás, é descobrir a natureza da alma.
Para descobrir a natureza da alma, ensina Tomás, precisamos perceber que ela é o princípio da vida.
Esta é uma descoberta que parte de um simples olhar para o mundo: ao contemplá-lo, percebemos que há coisas que se apresentam como corpos inanimados, passivos, inertes, e outros como corpos animados, ativos, dinâmicos. Estas coisas animadas são aquelas que estão vivas. E a alma é justamente o princípio que as faz serem vivas.
A dupla operação da vida.
E o que é, exatamente, ser vivo? É ser capaz de perceber os estímulos e reagir a eles, modificando-se de algum modo. Por exemplo, a semente, na presença de terra e água, brota e vira uma planta. O animal faminto, na presença de alimento, ataca-o e come. O ser humano, contemplando o universo, é capaz de comover-se e chorar de emoção. A vida, então, nas coisas materiais, pode ser descrita como uma dupla operação imanente de conhecer e modificar-se em razão deste conhecimento. O princípio que torna alguma coisa capaz deste dupla operação chama-se alma, e está presente (embora de maneiras diferentes) em vegetais e animais.
A posição dos antigos filósofos.
Na filosofia primitiva, chamada de pré-socrática, havia uma busca para explicar o cosmos a partir da matéria; os antigos filósofos não haviam percebido a imaterialidade das estruturas, e imaginavam que apenas o que era corporal podia ser real. Por isto, buscavam algum elemento material que pudesse ser identificado como o princípio da vida, ou seja, como aquilo que, como definimos acima, chamamos exatamente de alma. Alguns imaginavam que o dinamismo da vida poderia ser explicado pela ação da água como elemento estrutural dos corpos; outros, como ação do fogo, ou mesmo de partículas microscópicas que se combinariam de diversas maneiras, e assim por diante. Vale dizer, para estes pensadores, a alma deveria ser material.
A explicação de Tomás.
Mas aquilo que é princípio da vida dos seres materiais não pode ser algo material, diz Tomás. Há várias maneiras de explicar isto, mas ele usará, em sua resposta, apenas um argumento, cujo raciocínio, diz ele, será suficiente para demonstrar que o princípio da vida, nos seres vivos, não pode ser material.
A primeira coisa a fazer, diz Tomás, é distinguir entre instrumento e princípio. O instrumento pode ser o princípio de alguma operação, como os olhos são princípio da visão. Sem olhos, não é possível ver. Assim, seríamos tentados a apontar nos olhos a própria razão da visão. No entanto, é preciso perceber que não são os olhos que veem, mas sou eu que vejo através deles. O mesmo se pode dizer de todos os órgãos dos sentidos, ou mesmo do órgão do pensamento que é o cérebro. Eles são instrumentos da operação que realizam, e instrumentos indispensáveis dela. Mas não explicam a própria operação, que não é uma operação deles, mas daquele ente como um todo. Não é o meu cérebro que pensa, o pensamento é meu.
Mesmo o coração, que era considerado, pelos antigos, como a sede da vida, e sem o qual nossa vida não seria possível, não pode ser, ele mesmo, o princípio da vida do ente animado como um todo. Se o coração fosse o princípio da vida, como explicar o fato de que o olho, que não é coração, também seja vivo? Como a vida do coração se transmitiria para as estruturas materiais que não são ele mesmo?
Ora, ver é uma função do olho. O pé não vê. Neste sentido podemos dizer que a visão tem o olho como princípio. Mas a vida é algo que todas as estruturas materiais de um ser vivo exibem, e por isto não podemos dizer que a vida tem o coração, ou mesmo outro componente material do corpo, como princípio. A menos que admitíssemos que, se a vida está em todo o corpo, então todo o corpo, toda estrutura corporal, é princípio da vida simplesmente por fazer parte do corpo vivo.
Mas se o corpo, ou seja, a estrutura material do ser vivo, fosse, por si mesmo, princípio da vida, o princípio da vida seria a própria matéria. Neste caso, teríamos que admitir que todo corpo é, por si mesmo, vivo, e portanto teríamos que admitir que não temos como explicar a diferença percebida entre as coisas animadas e as coisas materiais inanimadas. Se a matéria, como corpo, é princípio da vida por si mesma, então não poderiam existir coisas inanimadas. E, de fato, algumas teorias tentam sair deste paradoxo afirmando que, no fundo, o próprio cosmos é um ser vivo, e que, portanto, as coisas não animadas não são indivíduos em si mesmas, mas são apenas parte de uma grande coisa viva que seria o universo como um todo. Mas isto elimina toda a individualidade das coisas e se transforma num panvitalismo, ou mesmo num panteísmo que nega qualquer individualidade entre as coisas: haveria apenas uma grande coisa viva que é o universo, e o resto é apenas ilusão de separação. Esta doutrina é evidentemente falsa, porque, se ela fosse verdadeira, eu não precisaria estar aqui escrevendo sobre a Suma, nem você estaria lendo: a Suma seria parte de nós, Tomás seria, no fundo, nós mesmos e tudo seria tudo. Não precisaríamos escrever e estudar, porque seríamos apenas parte do mesmo único ser que contém em si todo o conhecimento e toda a informação, e a relação seria apenas uma ilusão. Mas não é, tanto que continuamos a ter necessidade de estudar, de nos relacionar, para saber. A alteridade, não só entre nós e os outros, mas entre nós e o universo e, principalmente, entre nós e Deus, é real. Logo, o panvitalismo é falso.
O princípio da vida é imaterial.
É claro, portanto, que o fato de que um ente é animado e outro não é, (ou mesmo o fato de que, no ente animado, a vida cabe a ele como ente, e não a alguma parte dele), que o princípio que explica a sua vida não pode ser material, mas deve ser um modo de estruturar a própria matéria. Àquilo que é organização da matéria, que faz com que este determinado corpo seja isto e não aquilo, chamamos de forma. A matéria é potência para o ser, vale dizer, a matéria, por si mesma, não é algo, mas apenas é um “poder ser”. A matéria é o princípio do poder ser, da potencialidade. A forma (que é absolutamente imaterial) é que faz com que algo seja o que é: a forma é o princípio que dá ato ao ente. Que o faz ser o que é, aqui e agora, como distinto de tudo mais e como inteligível em si mesmo. Nos seres animados, portanto, é a forma que determina que eles sejam vivos. E a forma que estrutura os seres vivos é denominada de “alma”.
De maneira analógica, nas coisas quentes, é o calor, como qualidade energética, que determina sua temperatura, e não a matéria do próprio corpo quente. O calor é a estrutura (acidental) que qualifica um corpo como quente. A alma é a estrutura (essencial) que explica a vida nos corpos animados. Ela não é, em si mesma, um ente. É apenas um componente indissociável da estrutura de um ente material. Mas, por natureza, em si mesma é imaterial.
3. Palavras de encerramento.
No próximo texto, a partir deste alicerce maravilhoso lançado por Tomás, veremos a maneira pela qual ele enfrenta os argumentos objetores iniciais.
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