1. Primeiras palavras.

A alma, definitivamente, não é uma coisa. Ela é uma estrutura, ou seja, ela se explica como aquilo que torna um ser humano aquilo que ele é. Pensemos num texto, escrito numa folha de papel. Do ponto de vista material, tudo ali se apresenta como papel e tinta; poderíamos, por exemplo, pesar a folha de papel em que o texto foi escrito e moê-la, e o resultado teria a mesma quantidade de matéria que a folha de papel impressa tinha, antes de ser moída. Mas algo se perdeu, no processo de moagem: o significado do texto, que não pode ser medido e pesado como uma coisa material, mas existe. Este sentido, este significado, está para a matéria do papel impresso de uma forma análoga àquela com a qual a alma se relaciona com o corpo.

Mas a alma não é alguma coisa sem extensão que se relaciona com um corpo extenso: esta é a visão de Descartes, e não é a visão de Tomás. Para Descartes, a alma é uma realidade distinta sem extensão, caracterizada por pensar; o corpo, por sua vez, seria a realidade extensa, dimensional, mas incapaz de pensar. Este dualismo leva a um impasse: como se dá a relação entre estas coisas tão distintas?

Esta aporia não existe no pensamento de Tomás, porque, vale a pena repetir, ele não concebe a alma e o corpo como duas coisas, mas como dois elementos distintos da mesma coisa, isto é, como a relação entre um papel escrito e o significado da escrita. Mas é esta estrutura que vamos examinar ao logo deste Tratado, que se inicia, logo, com este debate fundamental: a alma é alguma coisa que se explica pelo mundo material, isto é, ela é, em si mesmo, algo corporal?

É preciso sempre reafirmar que não vamos debater, aqui, se a alma humana está sempre relacionada a um corpo. Este debate seria desnecessário: é óbvio que a alma humana é a alma de um ente corpóreo, que é o próprio ser humano. O debate, aqui, é outro: trata-se de saber se a alma, como elemento estrutural do ser humano, é, ela mesmo, algo de corpóreo, ou se ela é imaterial; esta discussão, portanto, é bastante fundamental. Vamos a ela.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é justamente a de que a alma é algo de físico, de material, e portanto é corpórea em si mesma. Trata-se, pois, de negar a imaterialidade deste elemento estruturante do ser humano, reduzindo o próprio ser humano a algo que pode ser explicado apenas fisicamente. Ou seja, reduzindo a estrutura humana ao mais crasso materialismo – tese, no entanto, que Tomás não teme debater, e o faz com mais profundidade do que muitos materialistas que andam por aí.

Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento parte da ideia aristotélica de que tudo o que é movido, é movido por outra coisa. Ora, prossegue o argumento, aquilo que é movido, no ser humano, é o corpo, e aquilo que move (que Aristóteles chama de “motor”) é a alma.

Se a alma é o motor do corpo, daí decorrem, diz o argumento, duas alternativas seriam possíveis: ou a alma move-se, transforma-se junto com o corpo, ou ela é um motor imóvel. Neste caso, duas alternativas se apresentam:

1. A primeira alternativa é a de que a alma, sendo motor, é, ela própria, algo móvel. Se nada pode dar aquilo que não tem, ela deve, portanto, mover-se, para poder dar movimento a outra coisa. Por exemplo, para que alguma coisa aqueça outra coisa, é preciso que ela própria esteja quente. Ou seja, para mover o corpo, causando-lhe a mudança, o deslocamento, é preciso que o próprio motor esteja movendo-se também. Mas tudo o que se move precisa ser corpóreo, isto é, precisa ter dimensões e estar inserido num lugar mensurável. Assim, a alma deve ter atributos de materialidade, para ser motor do corpo.

2. A segunda alternativa é a de que a alma fosse um motor imóvel. Se a alma é algo que é capaz de transformar sem ser transformada, ou seja, de mover sem ser movida, então ela não seria capaz de dar ao corpo movimentos que não fossem regulares, eternos, uniformes e constantes. De fato, se ela própria não puder ser movida quando move, isto significa que nada poderia alterar a maneira pela qual ela move, porque qualquer alteração implicaria movê-la também (mover no sentido de modificar, mesmo). É por isto que no livro VIII, parte 6, da Física, Aristóteles diz que todo motor imóvel somente transmite movimento contínuo e uniforme às coisas que ele move – uma vez que ele próprio é imutável, o movimento que ele causa também deve necessariamente ser. Mas, como observamos, todo ser vivo move-se de maneiras erráticas, irregulares, não uniformes e descontínuas. Logo, conclui, a alma não pode ser um motor imóvel.

Mas, se ela é móvel, tem que ser material, o que leva à conclusão da primeira alternativa acima. Daí o argumento conclui que a alma deve ser material.

O segundo argumento.

O segundo argumento também usa os princípios da filosofia grega antiga para tentar provar que a alma é, em si mesma, corpórea. A antiga filosofia dizia: “somente o semelhante pode ver o semelhante”. É por isto que não vemos os anjos ou Deus; não somos semelhantes a eles. Mas as almas podem ver e conhecer as coisas materiais, diz o argumento. Logo, conclui, as almas devem ser corpóreas em si mesmas.

O terceiro argumento.

Toda modificação, toda transmissão de impulso, todo movimento que resulta da aplicação do poder de impulsionamento de um motor sobre aquilo que é movido pressupõe que eles estejam em contato, ou seja, que eles se toquem fisicamente. Ora, para que duas coisas se toquem, é preciso que ambas sejam coisas físicas. Logo, conclui o argumento, a alma é, em si mesma, material, isto é, corpórea.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho. Para Agostinho, a alma é descrita como algo “simples”, em comparação com o corpo. E isto se dá porque o corpo tem extensão, tem massa, pode ser dividido, medido, pesado; a alma, por outro lado, não tem extensão, não é divisível, não pode ser cortada, medida, pesada. Logo, conclui o argumento, a alma é algo imaterial.

5. Palavras de encerramento.

No próximo texto, veremos a resposta sintetizadora de Tomás.