1. Primeiras considerações.
Chegamos na parte propriamente antropológica da Suma.
Não podemos imaginar que Tomás é algum tipo de espiritualista. Ele não é. Ele tem muita consciência de que a natureza humana é uma natureza animal, de um animal espiritual – vale dizer, um ser essencialmente corpóreo, mas com uma constituição que supera a corporeidade. E, em sua complexidade, o ser humano tem elementos que são distintos, mas não são separados, nem autônomos: a dimensão material do corpo e a dimensão espiritual da alma.
Assim, segundo seu projeto, Tomás se propõe a fazer antropologia teológica, e não algum tipo de antropologia filosófica ou cultural. Assim, avaliará o ser humano a partir da consideração de que ele é estruturado com um tipo especialíssimo de forma, exclusiva no mundo animal: uma forma que lhe permite entrar em comunhão com Deus. Se “alma” (anima) é o nome da forma dos animais, de onde, aliás, vem seu nome, a alma humana, por comportar em si esta capacidade de buscar Deus e de entrar em comunhão com ele, recebe o nome especialíssimo de alma espiritual. É com os olhos na Revelação que Tomás examina, então, a nossa própria estrutura humana. Ou, como diz a Gaudium et Spes, Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, “o mistério do ser humano só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo Encarnado”. Ou seja, ao encarnar-se, Jesus não somente revela Deus aos seres humanos. Ele também revela-nos o nosso próprio mistério: revela o ser humano a si mesmo. É, então, a partir da Revelação, sob o olhar da razão, que Tomás tratará do ser humano.
2. A estrutura do tratado antropológico da Suma.
Nesta apresentação, Tomás nos adverte que sua intenção é estudar o ser humano a partir desta capacidade de entrar em relação com Deus, ou seja, a partir da constatação de que ele é um animal espiritual. Não é, então, a dimensão corporal que interessa fundamentalmente aqui. O corpo compõe integralmente o ser humano, mas ele representa, basicamente, a capacidade que o ser humano tem de relacionar-se com as demais criaturas, humanas ou não. Não é simplesmente o corpo que nos capacita à relação com Deus, e por isto, o corpo não é o primeiro interesse do teólogo, senão na medida que se relaciona com a alma espiritual, vale dizer, na medida que participa de qualquer maneira da relação do ser humano com Deus.
Assim, o tratado examinará o ser humano, em primeiro lugar, quanto à sua alma espiritual, em si mesma, em suas capacidades e em sua operação.
Num segundo momento, o Tratado Antropológico examinará as origens do ser humano. Como estamos vendo, esta primeira parte da Suma trata de Deus e de como as coisas surgem a partir dele; as partes seguintes tratarão de como as coisas, em especial os seres humanos, retornam a ele. Por isto, é muito oportuno ver, aqui, como os primeiros seres humanos foram produzidos por Deus e como se perpetuam, como espécie animal.
3. Esta questão.
Esta primeira questão, portanto, estudará a alma humana em si mesma, isto é, o que ela é em si mesma. A próxima questão examinará a sua relação com aquele todo substancial que é a pessoa humana.
Serão sete artigos interessantíssimos. É preciso, sempre, ler Tomás com respeito, com todo respeito devido a esta bela Catedral que ele construiu. Mas lembrando que não estamos nalgum tipo de museu, senão num edifício vivo, no qual se reflete a riqueza de nossa fé, tal como sintetizada por um dos maiores pensadores que já viveu. Mas Tomás não é dono da fé, mas testemunha dela. Assim, devemos lê-lo com o mesmo espírito com que ele leu a Tradição cristã que o precede: o espírito de uma fé encarnada, que não ignora tudo o que ocorreu desde o tempo dele até os nossos dias. Não tenhamos medo de dialogar com Tomás: ele é nosso irmão, não algum monstro sagrado e distante.
O Tratado é longo e riquíssimo, vamos a ele sem delongas.
2 Pingback