1. Retomando.

Como vimos no texto anterior, o debate aqui envolve saber se as palavras, ou seja, a linguagem escolhida pelo primeiro relato da criação é adequada, não somente no sentido estilístico (simetria, elegância, coesão), mas também no sentido de descrever adequadamente os eventos e transmitir a visão teológica apropriada sobre eles. Vimos, no texto anterior, os dois primeiros argumentos objetores e, uma vez que neste artigo não há resposta sintetizadora, já examinamos também as respectivas respostas de Tomás a estes argumentos. Veremos, agora, o terceiro e o quarto argumentos objetores, com suas respectivas respostas.

2. O terceiro argumento objetor.

]Aqui, o que está em questão é a repetição, no texto, da afirmação de que Deus contempla suas obras e declara que elas são “boas”, ou “muito boas” (versículos 4, 10, 12, 18, 21, 25 e 31 do primeiro capítulo do Gênesis). No entanto, diz o argumento, a simetria, aqui, não é perfeita, porque esta declaração não se repete nem no início da criação (relativamente à criação genérica do céu e da terra narrada no versículo 1) nem na descrição do segundo dia, versículos 6 a 8. Assim, o argumento conclui que a narração é inconvenientemente estruturada.

A resposta de Tomás.

No primeiro versículo, diz Tomás, narra-se o fato de Deus ter tirado a sua criação do nada, embora sem estruturar e distinguir ainda as coisas. Neste primeiro trecho do relato, não se repete, de fato, a expressão “e Deus viu que era bom”. Mas há uma outra forma de expressar esta mesma ideia, que é equivalente; e, para compreender esta outra forma de expressar, diz Tomás, precisamos lembrar que o Espírito Santo é amor. Isto, inclusive, independentemente do fato de que o antigo escritor bíblico não tinha a revelação completa da Trindade; ainda assim, a menção ao Espírito de Deus, no Antigo Testamento, sempre esteve vinculada ao bem, ao amor de Deus derramando-se na criação.

E o que significa o amor de Deus, em relação com a criatura? Significa duas coisas, diz Tomás, citando Santo Agostinho: 1) Deus quer que a coisa exista e 2) Deus quer que ela perdure, isto é, que permaneça existindo e opere. Assim, quando vemos alguma coisa que existe e que perdura, podemos ter certeza de que Deus a ama.

Assim, quando o versículo 2 diz que o Espírito de Deus pairava sobre as águas, e retomando a leitura de Santo Agostinho, o relato quer dizer simplesmente que o amor de Deus se alegra com a existência da criação, ainda neste primeiro momento em que ela era informe e não estruturada. Já vimos que a menção à água, neste segundo versículo, quer significar a existência da matéria-prima, ainda informe; o Espírito de Deus expressa, portanto, o amor de Deus pela existência do primeiro estágio da criação; seria análogo ao olhar de encantamento com que um escultor contempla o bloco de mármore com que fará sua escultura; poderíamos dizer, nesse caso, que o espírito do escultor como que sobrepaira o mármore, matéria-prima da sua escultura futura.

No caso da obra de distinção e ornamentação, realizadas a partir do primeiro dia da criação, a expressão “e Deus viu que era bom” expressa o segundo momento do amor divino, o amor que faz perdurar o que foi criado. Aqui, descreve-se a plenitude da satisfação do artífice com a sua obra já plenificada, como se o escultor olhasse para sua estátua esculpida no mármore e dissesse: “ficou bom!” São, portanto, duas expressões diferentes para expressar duas dimensões distintas do amor divino pelas suas criaturas.

Em ambos os casos, diz Tomás, podemos enxergar claramente os indícios da Trindade, embora só indiretamente revelados. Na obra inicial da criação, que retira a matéria-prima informe do nada, vemos o Pai como o Deus criador, o Filho como o Princípio do qual se criou e o Espírito Santo como amor que sobrepaira as águas, ou seja, a matéria ainda informe do início.

Na obra de estruturação e ornamentação da criação, insinuam-se os indícios da Trindade no Pai que profere as palavras que criam, no Filho que é a Palavra proferida e no Espírito Santo como o repouso do amor de Deus sobre sua obra consumada e perdurando. Assim, a Trindade está presente em todo o processo criador descrito neste primeiro relato.

Quanto ao fato de que a expressão “e Deus viu que era bom” não é repetida apenas no segundo dia, Tomás nos explicará que há três razões, dadas pelo Rabbi Moisés, intérprete judaico da Bíblia, para que as coisas sejam assim.

1) A primeira razão é que a obra do segundo dia, que é a separação das águas, só se conclui no terceiro dia. Assim, quando se diz, no terceiro dia, que Deus “viu que era bom”, isto envolve também as obras do segundo dia.

2) A segunda razão é que as obras do segundo dia são apenas estruturantes, mas ainda não são evidentes para o povo que era o destinatário do relato. Assim, somente quando a estrutura se torna manifesta ao povo, no terceiro dia, é que há o registro da expressão divina sobre a bondade da obra.

3) A terceira razão seria a de que a estrutura do firmamento não é uma estrutura sólida, permanente, mas é fluida e instável, formada por ventos e nuvens que não representam a estrutura fixa da criação e, por isto, não pode ainda ser celebrada por Deus como boa senão no terceiro dia, quando, com o surgimento do solo enxuto, a estrutura torna-se menos transitória.

Tomás registra, por fim, que há intérpretes que fazem uma leitura numerológica deste fato: o número dois, que registra a ordem deste dia, representa um afastamento da unidade, que é a própria essência de Deus. Assim, ele não profere nenhuma expressão de bondade neste dia. É uma razão frágil, mas Tomás a conhece e faz questão de mencioná-la.

3. O quarto argumento objetor.

Este argumento ainda se debruça sobre o segundo versículo, que registra que o “Espírito de Deus pairava sobre as águas”. Ora, diz o argumento, o Espírito de Deus não é outra coisa senão o próprio Deus. Mas Deus não é móvel nem pode ser localizado aqui ou ali. Logo, conclui o argumento, a narração é inadequada, ao relatar que o Espírito de Deus movia-se sobre as águas.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, Tomás registrará diversas interpretações sobre este texto.

Em primeiro lugar, ele lembra que o estudioso judeu Rabbi Moisés, seguindo Platão, entende, neste trecho, que a menção ao espírito do Senhor é simplesmente uma descrição da existência de ventos sobre as águas; para ele, as Escrituras chamam os ventos de “Espírito do Senhor” porque atribuem o movimento do ar, que os forma, a algum sopro divino.

Mas a interpretação cristã não caminha por aí. Na verdade, os Padres da Igreja sempre enxergaram aí uma menção à terceira Pessoa da Trindade, que flui sobre a criação ainda informe, como lembra Agostinho. Ora, a criação não pode ser a causa do amor de Deus, como se ela fosse alguma coisa de que ele precisasse e não tivesse, e por isso a amasse, quando ela surge. Quando um objeto causa o amor de algum sujeito, isto se dá porque o objeto tem alguma coisa que falta ao sujeito, e, vendo nele aquilo de que carece, o sujeito a deseja. Mas em Deus nada falta, e assim ele não pode amar a criação com um amor de desejo, como se carecesse de alguma coisa que há nela. Por isto, logo no início, quando ela ainda está informe, ele estende sobre ela o seu Espírito Santo, impregnando-a do poder do seu amor e, por isto, tornando-a amável para ele por estar, ela mesma, impregnada do poder do seu amor que se estendeu a ela.

Há uma outra interpretação, cuja fonte é São Basílio, que vê neste “pairar” do Espírito Santo algo como uma vivificação, uma dinamização das águas, tornando-a capaz de aninhar toda a vida (que depende da água de um modo ou de outro), de modo análogo àquele pelo qual as aves aquecem seus ovos, fazendo-os eclodir.

Por fim, outros intérpretes ressaltam, aqui, que esta relação entre a água e o Espírito prefigura o batismo, que será instituído por Jesus como condição indispensável para entrar na vida eterna.

4. Palavras de conclusão.

No próximo texto, veremos os argumentos objetores de número cinco, seis e sete, com as respectivas respostas de Tomás.