1. Introdução.
Neste último artigo deste Tratado sobre a Criação, a linguagem usada pelo primeiro relato da criação estará sob intenso ataque. É um artigo peculiar, sem uma resposta sintetizadora separada e sem argumento sed contra. Os ataques serão de toda natureza: desde críticas a uma suposta falta de simetria entre os dias, até mesmo observações sobre supostas falhas, no relato, quanto à teologia trinitária, ou seja, ao tratamento que este relato dá ao Filho e ao Espírito Santo na criação. Ora, temos que lembrar sempre que o escritor deste primeiro relato não recebeu nenhuma revelação da natureza trinitária de Deus, revelação que só veio com Jesus, séculos depois. Assim, algumas críticas serão, simplesmente, anacrônicas, no sentido de que querem ler, retroativamente, aspectos da revelação que não estavam dados na época da redação deste relato. São sete argumentos, respondidos de modo um tanto longo, e assim faremos três textos sobre este artigo, encerrando mais um Tratado na Suma.
2. A hipótese controvertida.
Será que as palavras, ou seja, será que a linguagem escolhida pelo primeiro relato da criação é adequada, não somente no sentido estilístico (simetria, elegância, coesão), mas também no sentido de descrever adequadamente os eventos e transmitir a visão teológica apropriada sobre eles? A hipótese controvertida é a de que a linguagem não é adequada. São sete os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial. Mas, uma vez que neste artigo não há resposta sintetizadora nem argumento sed contra, usaremos uma metodologia diferente para enfrentá-lo: transcreveremos o argumento objetor e, logo em seguida, a respectiva resposta de Tomás, de modo a tornar mais direto e ágil o debate. É certo que esta metodologia não funcionaria nos outros artigos, mas aqui ela parece bem adequada. Vamos aos argumentos, com as respectivas respostas.
3. O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor aferra-se na circunstância de que a narração da criação, nos textos atinentes aos “dias”, sempre repete o bordão “Deus disse” para introduzir uma obra. Ora, o que Deus “diz” é a sua Palavra, ou seja, o Verbo de Deus, pelo qual ele cria tudo. Mas o primeiro versículo do Gênesis (Gn 1, 1), em que se narra que “no princípio Deus criou o céu e a terra” não há nenhuma alusão a alguma fala de Deus, isto é, a narração falha em deixar de evidenciar o fato de que a criação do céu e da terra se dá pela palavra de Deus, através dela e nela. Logo, Gn 1, 1 deveria ter a seguinte redação: “no princípio, Deus disse e o céu e a terra foram criados”.
A resposta de Tomás.
Tomás vai responder esta objeção em dois tempos; primeiro, registrará a posição de Santo Agostinho e, depois, a posição comum, que engloba a maior parte dos Padres da Igreja. Trata-se, é claro, de uma leitura acomodatícia do relato bíblico, já que, à época de sua redação, a Trindade ainda não estava revelada. Assim, é sempre necessário ter todo o cuidado, quando se procura ler, no texto das Escrituras, aquilo que o autor humano não podia colocar ali. Em todo caso, uma vez que a inspiração do texto tem Deus como fonte, não é surpreendente perceber que os traços da Trindade podem ser facilmente encontrados neste relato.
Segundo Agostinho, a criação passa por dois estágios. Ambos são marcados pelo Verbo de Deus, segunda pessoa da Trindade, na qual e pela qual tudo foi feito. Mas são marcados de modo diferente. O primeiro estágio, descrito em Gn 1, 1, é a criação da própria matéria-prima, ainda indistinta e informe. Neste primeiro estágio, o Verbo de Deus é o princípio no qual tudo é criado. É por isto, diz Agostinho, que a narração começa afirmando (Gn 1, 1): “no princípio Deus criou o céu e a terra”. O “princípio”, aí, é o próprio Verbo de Deus. É a segunda pessoa da Trindade, a Palavra, que se faz presente no texto como princípio da criação.
O segundo estágio, iniciando-se em Gn 1, 3 até 2, 4, é marcado pela distinção das coisas, que se dá pela estruturação dos grandes espaços (céus, águas e terra) e pela ornamentação destes espaços (astros, animais e seres humanos). Ou seja, a matéria-prima vai adquirindo sua forma. Ora, pode-se fazer, aqui, uma analogia entre o obrar divino, dando forma à criação, com o procedimento de um artesão, que impõe suas ideias aos materiais com que trabalha: o artesão forma, em si, a imagem, ou seja, ele imagina como será sua obra e, depois, à luz dessa concepção mental, ele atua no material, produzindo nele a sua arte, que é a expressão de sua ideia. As ideias divinas, ou seja, a imagem que Deus tem de si mesmo e de tudo o que ele faz, constituem a pessoa do Filho; o Filho é a palavra de Deus concebida nele. É por isto que, no início de cada dia, o texto registra que Deus “diz” aquilo que será criado; como que para exprimir que toda criação tem sua fonte na Palavra, no Verbo que é a segunda pessoa da Trindade. Assim, o verbo aparece no primeiro versículo como princípio, e, em seguida, no início de cada dia, ele comparece como palavra, ou seja, como ideia que se imprimirá nas coisas que são formadas naquele dia. É assim que Santo Agostinho explica a falta de simetria entre o primeiro versículo do relato da criação, em que se narra a criação do céu e da terra, e os versículos que marcam o início de cada dia da criação: é que o Filho aparece retratado neles, mas sob razões diferentes.
Outros intérpretes, porém, não seguem o pensamento de Agostinho na interpretação deste texto. Para eles, a diferença de redação não se dá por causa da diferença de alusão ao Filho. Eles creem que tudo já foi criado, desde o começo (Gn 1, 1), sob a forma dos elementos fundamentais da natureza (que, na época deles, eram quatro, fogo, água, terra e ar, já que ainda não havia sido descoberta a tabela periódica tal como a conhecemos hoje). Ocorre que, na primeira instituição dos elementos (Gn 1, 1) não haveria sentido em narrar uma ordem de Deus, ou seja, não faria sentido dizer que ele determinou “faça-se isto ou aquilo”, simplesmente porque nada precede o agir de Deus retratado em Gn 1, 1. Se nada precede este agir, então não haveria sentido em descrever Deus dando ordens ao nada para que algo seja feito. Mas, a partir desta instituição originária, o relato passa a narrar que, na obra dos “dias”, Deus ordenou e as coisas foram sendo feitas, porque já havia, aí, algo que podia obedecer às ordens divinas. A interpretação aqui, portanto, é mais literária e menos trinitária.
4. O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que há, no relato, logo no início, a memória da criação do céu e da terra, mas não há registro da criação da água – e não há dúvida de que a água é uma criatura, também. Assim, o argumento conclui que o relato é omisso e insuficiente.
A resposta de Tomás.
Mais uma vez Tomás vai dividir sua resposta entre a interpretação de Santo Agostinho e a interpretação dos outros exegetas que se debruçaram sobre este texto.
A interpretação de Santo Agostinho diz simplesmente que não se pode ler, neste primeiro versículo da Bíblia, algo como um relato literal da criação física do céu e da terra. Na verdade, diz Agostinho, quando o autor sagrado menciona o “céu”, aqui, ele quer se referir a toda a realidade espiritual criada, isto é, ao mundo dos anjos, que Deus tira do nada neste primeiro momento, mas ainda não organiza, não estrutura; é, portanto, ainda uma realidade informe e não especificada. Quando ele menciona a terra, refere-se ao universo material, também retirado do nada mas ainda não estruturado, isto é, ainda constituído apenas pela matéria-prima. Assim sendo, a criação da água está incluída aí, mas a água somente será estruturada num passo posterior.
Já para São Basílio a intenção do relato é como que fotografar os dois extremos da criação, naquilo que ela tem de mais rarefeito, etéreo, e elevado, que se inclui na noção de “céu”, por um lado, e naquilo que ela tem de mais concreto, pesado, determinado e sólido, que estaria incluído na noção de “terra”, pelo outro lado. Todas as coisas que se colocam entre estes extremos, para Basílio, estão implicitamente incluídas no relato – é o caso da água.
Por fim, uma terceira corrente interpretativa defende que, na linguagem bíblica, a palavra “terra” costuma incluir, em sua significação, os quatro elementos materiais; em defesa de sua interpretação, eles citam o salmo 148, versículos 7 e 8. Ali, depois de determinar que a terra louve o Senhor, o texto acrescenta: “fogo e granizo, neve e neblina; vendaval proceloso dócil às suas ordens; 9.montanhas e colinas, árvores frutíferas, árvores silvestres”. Isto indica que a noção bíblica de “terra” não corresponde, simplesmente, à noção filosófica da “terra” como um dos quatro elementos, mas refere-se ao conjunto das coisas materiais.
Por isto, Tomás conclui que a água, mesmo não sendo citada explicitamente, não foi omitida do relato.
5. Palavras de fechamento.
Examinaremos as outras objeções, com suas respectivas respostas, nos próximos textos.
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