1. Retomando.
Vistos os termos da resposta sintetizadora de Tomás, na qual ele registra as peculiaridades da interpretação de Santo Agostinho, comparada àquela dos demais intérpretes, quanto ao primeiro relato de criação do Gênesis.
Agora, usando os princípios ali estabelecidos (e respeitando as peculiaridades de cada tradição de interpretação que Tomás recebeu) ele volta a enfrentar os argumentos objetores iniciais. É o que veremos a seguir.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento resgata Gênesis 2, 4b, trecho no qual, após relatar toda a criação, o narrador parece recomeçar tudo, dizendo que “esta foi a origem do céu e da terra, no dia em que o Senhor Deus fez a terra e o céu”, e, no versículo 5, começa a narrar a origem dos vegetais. Com isto, o argumento conclui que o céu e a terra foram criados no mesmo dia que os vegetais, e portanto não há, na verdade, distinção entre os dias da criação – são todos um só dia.
A resposta de Tomás é a de que, de fato, os vegetais foram criados no mesmo dia em que Deus criou o céu e a terra, mas não em ato; apenas em potência, isto é, como capacidade de vir-a-ser. Segundo Agostinho, a criação se deu toda no mesmo instante, e a narração em dias é apenas para estabelecer uma hierarquia entre as coisas criadas; assim, não haveria dificuldade, para ele, em admitir que elas foram criadas ao mesmo tempo, mas não no mesmo dia, e fazer uma leitura harmonizadora entre estes dois textos. Para os demais intérpretes, as condições para a criação de todas as coisas já estavam dadas quando Deus criou o céu e a terra, antes mesmo do relato dos dias; mas apenas no terceiro dia os vegetais teriam surgido em ato.
Hoje, a interpretação crítica da Bíblia costuma defender que há um novo relato da criação que se inicia em 2, 4b e vai até o versículo 25. De fato, enquanto Deus é chamado de Elohim no primeiro relato, e há uma organização ritual, quase litúrgica, dos eventos 9o que fez atribuir esta narração a uma fonte sacerdotal) aqui ele é chamado de Javé, o que levou os intérpretes a chamar esta fonte bíblica de javista. O relato parece ser mais antigo do que o primeiro relato, e suas intenções teológicas são diversas, complementares mesmo. Assim, do mesmo modo que Tomás registra as tradições interpretativas que encontrou (a de Santo Agostinho e a dos outros intérpretes) e respeita as duas, mesmo sendo contraditórias entre si, os antigos escritores bíblicos também tinham materiais tradicionais provenientes de diversas fontes respeitáveis, e os compilaram. Fala-se em, pelo menos, mais duas fontes para os livros do Pentateuco: a fonte eloísta e a fonte deuteronômica. Mas não nos aprofundaremos nisto, porque foge ao nosso objetivo. O certo é que um biblista católico, com todos os cuidados, pode usar livremente estas teorias em seus próprios esforços de interpretação, conforme o documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja”, da Pontifícia Comissão Bíblica, disponível no site do Vaticano.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento também vai fazer uma citação bíblica relativa à criação. Trata-se de Eclesiástico 18, 1: “o eterno criou tudo, sem exceção”. Desta citação, o argumento extrai a ideia de que a criação ocorre de modo simultâneo, e não sucessivo, negando a consistência do primeiro relato da criação e defendendo que há apenas um “dia”, isto é, um único instante criativo de Deus.
Em resposta, Tomás afirmará que não há contradição, aí, senão aparente: Deus criou todas as coisas, quanto à sua substância, simultaneamente. Mas apenas as distinguiu e ornou de modo sucessivo, conforme a interpretação mais difundida.
Aqui, vemos que a Bíblia não é um só livro, mas uma coleção de livros escritos ao longo de milênios, por autores diversos, em lugares e circunstâncias diversas. Assim, temas teológicos como a criação, que é um tema importantíssimo para a tradição bíblica, aparecem em diversos livros, com diversos enfoques, não todos literalmente coerentes entre si. Não podemos imaginar que houvesse uma homogeneidade aqui. É de se esperar, mesmo, que não haja. Mas não se pode interpretar um versículo da Bíblia isoladamente, senão submetendo-o à analogia da fé, isto é, “por ‘analogia da fé’ entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação”, diz o Catecismo da Igreja Católica, § 114.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento afirma que Deus não criou nada no sétimo dia. Ora, se ele não criou nada, não poderia tampouco existir um “sétimo dia”, porque este dia também é uma criação. Assim, o argumento conclui que o relato dos dias é contraditório.
Mas Tomás vai explicar que a Bíblia tanto conhece a noção de “criação” quanto a de “propagação das coisas criadas”. Assim, do mesmo modo que, por reprodução, os seres vivos, criados por Deus, propagam-se, também a passagem do tempo, caracterizada pela alternância entre a luz e a escuridão, que havia sido estabelecida por Deus já no primeiro dia da criação, é capaz de propagar-se (propaga-se até hoje). Assim, o sétimo dia traz a marca da propagação, simbolizada pela bênção de Deus.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor traz uma obervação curiosa; Deus não precisa esforçar-se para criar, ele fala e a coisa se faz. Logo, em cada obra, ele falou e assim se fez, no mesmo instante. Logo, se houvesse uma sucessão de dias, haveria um instante em cada dia em que algo ocorreria, e o resto do dia ficaria ocioso, até que um novo dia chegasse para que Deus, em mais um instante apenas, criasse outra coisa. Seria, segundo o argumento, uma estrutura muito ruim, e por isto ele conclui que o relato é inadequado.
Tomás responde apenas que o relato divide a criação em “dias” não porque Deus fosse impotente para criar num instante, ou que a sua operação de criar demandasse tempo ou esforço; mas para ressaltar que as coisas não foram separadas, estruturadas e ornadas simultaneamente, mas que há uma ordem ontológica e mesmo cronológica entre elas. Assim, a menção a “dias” quer ressaltar que o universo passou por diversos estágios até chegar a ser o que é hoje. Cada dia, diz Tomás, acrescenta um novo estado de perfeição ao mundo. Bela leitura de uma criação dinâmica.
O argumento sed contra.
Tomás vai responder, agora, ao argumento sed contra, que é algo que ele não faz sempre. O argumento sed contra simplesmente relata que, uma vez que a Bíblia, neste primeiro relato de criação, menciona que depois de um dia vem outro dia e assim por diante, devemos entender que a criação deu-se em sete intervalos correspondentes a sete dias de 24 horas.
Mas não necessariamente é assim, diz Tomás. A interpretação de Santo Agostinho, já explicada na resposta sintetizadora, demonstra que não se pode simplesmente imaginar que a leitura literal este trecho bíblico nos obrigue a defender que houve sete dias de 24 horas na criação. Como santo Agostinho nos ensina tão bem, a menção a “dias”, aqui, pode simplesmente referir-se à ordem das coisas, ao seu lugar na estrutura da criação.
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