1. Retomando.

Colocados os termos do debate, Tomás passa a oferecer sua própria resposta sintetizadora, em que registra, mais uma vez, a posição de Santo Agostinho, sobre este tema, é diferente da posição dos demais Padres da Igreja e intérpretes deste trecho. Passamos a estudá-la.

2. A resposta sintetizadora.

Em sua resposta, Tomás vai resgatar a posição de Santo Agostinho sobre este relato de criação do Gênesis, que vai de 1, 1 até 2, 4. De fato, Agostinho acredita que este relato não implica admitir nenhuma sucessividade no agir divino. A operação divina é, segundo Agostinho, toda simultânea, ou seja, toda a criação é feita num único instante, num átimo. Mas o relato fala de uma “sucessão de dias”, considerando a maneira pela qual os anjos foram instruídos sobre a ação criadora de Deus.

Mas esta não é a posição da maioria dos Padres da Igreja. Eles entendem que a narração da criação em sete dias implica o reconhecimento de que a operação criadora de Deus envolve, de fato, uma sucessão de eventos.

Há, pois, uma diferença radical entre essas posições.

A posição de Santo Agostinho.

Agostinho defende, em sua leitura, que a palavra “dia”, neste primeiro relato bíblico de criação, não faz referência a uma sucessão de operações divinas, mas ao conhecimento que os anjos adquirem, quanto a estas operações, relativamente às coisas criadas. É preciso, aqui, ressaltar que a sucessão não ocorre, para Agostinho, nem na atuação criativa de Deus, nem sequer na mente angélica, que é capaz de conhecer simultaneamente muitas coisas, especialmente quando atinge a bem-aventurança e passa a conhecer tudo no Verbo, que é o aperfeiçoamento e a consumação do conhecimento angélico. Assim, para Agostinho, a sucessão de dias não diz respeito a uma sucessão no agir divino (que ele não admite), nem sequer diz respeito a uma sucessão de conhecimentos na mente dos anjos. Ela diz respeito, isto sim, à própria ordem natural das coisas, isto é, ao fato de que o mundo é rico, diverso e hierárquico em sua estrutura de ser. Assim, como Deus não faz nada sem imprimir o respectivo conhecimento na mente dos anjos (e por isto os anjos não precisam aprender nada, pois já têm, em suas mentes, todo o conhecimento que precisam ter sobre a criação), eles têm o conhecimento sobre a obra divina, pela ordem de importância: no primeiro dia eles conhecem a primeira ordem divina, no segundo dia, conhecem a segunda e assim por diante. É por isto, diz Agostinho, que cada obra corresponde a um dia: cada obra corresponde à impressão, por Deus, do correlato conhecimento nas mentes dos anjos.

E por que o uso da palavra “dia”? Agostinho nos diz que o conhecimento angélico pode ser chamado de “dia” em sentido próprio, porque a verdadeira luz do conhecimento está nas mentes divinas, quando recebem de Deus este conhecimento. O conhecimento espiritual é, na verdade, a primeira e verdadeira luz! E assim, esta impressão, por Deus, do conhecimento da criação na mente dos anjos, iluminando-os, na ordem da importância da criação, é o sentido próprio das noções de “dia” e de “luz”, que depois são usados em sentido analógico para descrever os fenômenos físicos da alternância entre a claridade e a escuridão, que ocorrem no tempo. No mundo material, estas noções são, portanto, derivadas do sentido próprio que têm no mundo espiritual.

A posição dos outros Padres e Doutores da Igreja.

Havendo registrado, assim, a profunda e belíssima interpretação de Santo Agostinho, Tomás nos informa que os demais Padres da Igreja e doutos teólogos que examinaram este texto chegaram a conclusão diversa, no sentido de que a sucessão de dias significa de fato a sucessão das obras de Deus, embora não necessariamente entendam tratar-se de intervalos de 24 horas. Mas a posição mais comum é a de que houve sucessão de obras e de tempo.

Na prática, porém, a posição de Agostinho não difere daquela externada pelos demais intérpretes, quanto à própria estrutura da criação. Embora Agostinho veja simultaneidade ali onde os outros enxergam sucessividade, a visão que têm da estruturação da criação é fundamentalmente a mesma, com duas pequenas diferenças:

1. O relato de criação começa fazendo menção a “terra” e a “água” (versículo 2), embora registrando que elas eram informes e vazias. Para Agostinho, esta menção se refere à própria matéria-prima, totalmente desprovida de qualquer determinação, tal como a viam os antigos filósofos gregos (ou buscam os modernos físicos na chamada “partícula fundamental”). Assim, a obra dos dias consistiria no fato de que as formas são impostas à matéria-prima, determinando-a. Mas para os outros intérpretes, a menção aí é aos elementos “terra” e “água”, já devidamente especificados como elementos, mas ainda não distintos em coisas individuais. Ou seja, para eles, a menção aí não é à matéria-prima em sentido absoluto, mas aos elementos “terra” e “água” como entrarão na composição das coisas que serão especificadas em seguida – vale dizer, aos elementos, que hoje conhecemos como aqueles constantes da “tabela periódica”, mas eles acreditavam que eram apenas quatro.

2. A outra grande diferença diz respeito ao modo de compreender a criação dos seres vivos. De fato, a maioria dos intérpretes lê a criação dos seres vivos de modo fixista, isto é, Deus haveria criado todos os seres vivos exatamente do modo que são hoje, e todos existem de fato desde os sete dias da criação; isto é, todos os seres vivos foram criados no início, como efetivamente existentes, atuais mesmo, e apenas se reproduziram até hoje, isto é, não sofreram nenhuma transformação desde então. Santo Agostinho, por sua vez, acredita que Deus criou alguns seres vivos de modo efetivo, atual, e outros tantos virtualmente, como que contidos em semente naqueles que foram criados. Vale dizer, a criação foi de fato concluída nos sete dias, mas não completamente efetivada. Esta é, aliás, uma leitura surpreendentemente moderna, que permite compreender que a possibilidade de sucessão evolutiva das espécies estava contida na criação inicial e de modo algum é contrária à fé.

Comparando, agora, a visão de Agostinho com a visão dos outros intérpretes, vê-se que, embora ele veja simultaneidade ali onde os outros veem sucessão, no entanto, o modo pelo qual as coisas são produzidas é similar, nas duas visões. Nelas, a estrutura inicia-se com a matéria em forma bruta, estruturando-se nos elementos fundamentais dos quais o universo é constituído, e é estruturado a partir daí. Em ambos os modos de ver, os seres vivos (plantas e animais em ato) são acrescidos posteriormente ao universo, que inicialmente se estrutura e se define como inanimado.

Aqui, Tomás vai nos dar mais uma explicação: falar que o universo se estrutura, e que inicialmente era assim ou assado, não tem o mesmo significado para Agostinho e para os outros intérpretes. De fato, Agostinho entende que a sucessão é apenas estrutural, lógica, e não temporal. Para os demais, é temporal mesmo.

Assim, diferentemente de Agostinho, os demais intérpretes entendem que:

1. Houve um tempo em que, embora a criação já tivesse sido retirada do nada por Deus, ainda não havia a luz, pensam estes intérpretes.

2. Houve um tempo, pensam eles, em que não havia um firmamento estruturado.

3. Houve um tempo em que as águas cobriram toda a face do planeta.

4. Houve um tempo em que não havia astros no céu.

De todas estas coisas Agostinho discorda, pois não vê sucessão cronológica em nenhum ponto da criação. Neste ponto, aliás, ele já não parece tão moderno aos nossos olhos: sabemos, hoje, pelos modelos científicos, que, de fato, a estruturação do universo deu-se no tempo. Da matéria indefinida foram se formando as estruturas cósmicas, os sistemas galácticos, os planetas, os continentes e a vida. Assim, para nós, os outros intérpretes soam mais adequados, embora, quanto à evolução da vida, a interpretação de Agostinho seja bem adequada para os nossos tempos.

3. Encerramento provisório.

Mas Tomás tem a intuição de que, com os elementos de que dispunha em seu tempo, não poderia resolver esta desavença. Então ele respeitará ambas as tradições de interpretação, e responderá as objeções iniciais com atenção aos dois modelos. Veremos suas respostas às objeções iniciais no próximo texto.