Será que a enumeração de sete dias para a criação é suficiente? Primeira parte, questão 74, artigo 1, parte 3 de 3.

1. Retomando.

Estabelecidos os princípios para a solução do debate, Tomás revisitará os argumentos iniciais.

2. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor parte da ideia de que as atividades de criação não são menos importantes do que as atividades de estruturação e distinção, por um lado, e de ornamentação, por outro. Ora, diz o argumento, se há três dias dedicados à obra de distinção estrutural e três dias dedicados à obra de ornamentação, deveria haver três dias dedicados à obra de criação, em primeiro lugar, pelo que o relato não andou bem, ao dividir a criação em apenas sete dias, conclui.

Tomás nos lembrará que, neste tema, mais uma vez, a posição de Santo Agostinho é um pouco diferente da posição da maioria dos Padres da Igreja.

Santo Agostinho, como registra Tomás, defende que a criação consiste em fazer surgir, de modo indistinto, a matéria-prima informe e a realidade espiritual informe. Ora, para Santo Agostinho o próprio fato de serem informes e indistintas faz com que estas realidades estejam fora do tempo, porque o tempo consiste numa certa distinção; torna diverso aquilo que vem antes daquilo que vem depois. Assim, a criação, em sentido estrito, diz Agostinho, não está contida nos dias, mas antes de qualquer tempo, de qualquer sucessão.

Já os outros Santos Padres da Igreja defendem que a obra de criação é instantânea, enquanto as obras de distinção (estruturação) e povoamento (ou ornamentação) implicam mudanças, e portanto ocorrem no tempo. Assim, a criação em si, ou seja, o retirar do nada o substrato espiritual e material da criação é uma ação indivisível, instantânea e prévia de Deus, e por isto não pode ser mensurada pela sucessão dos dias. Mas a obra de distinção e ornamentação é sucessiva e mensurável, e por isto está no tempo. E, assim, com base no pensamento patrístico, Tomás defende a adequação do relato bíblico.

No segundo argumento objetor, a linha de raciocínio diz respeito aos quatro elementos, que eram tidos, então, como a estrutura fundamental do mundo – água, terra, ar e fogo. Mas o ar e o fogo eram tidos como elementos muito mais nobres que a água e a terra, porque o ar e o fogo tendem para cima, enquanto a água e a terra tendem para baixo. Ora, sendo assim, não haveria motivo para que o relato bíblico dedicasse um dia só à separação da água e outro só à separação da terra, mas não dedicasse nenhum dia ao ar ou ao fogo. Disto, o argumento conclui que o relato é inadequado.

Tomás, em sua resposta, lembra que a intenção do escritor bíblico (que ele, como todos em seu tempo, acreditava ter sido o próprio Moisés, pessoalmente) era ser compreendido pelo povo. Ora, prossegue Tomás, no tempo de Moisés a população em geral não tinha a noção de que o ar e o fogo eram elementos distintos da estrutura das coisas, e por isto o relato bíblico não os nomeia expressamente. Mas estão incluídos, diz Tomás, quando o relato trata da separação entre as águas inferiores e as superiores (pressupondo a existência da atmosfera) e quando trata da luz e das trevas, bem como dos astros do céu, pressupondo a luminosidade do fogo. Assim, o relato é adequado, conclui mais uma vez Tomás.

O terceiro argumento objetor, por sua vez, parte da ideia de que os peixes e as aves são muito diferentes entre si, e os animais irracionais distam ainda mais do ser humano do que dos outros animais irracionais. Mas o relato coloca a criação de peixes e aves no mesmo dia, assim como a criação dos animais terrestres e dos seres humanos. Para o argumento, seria mais adequado que houvesse um dia para os peixes, um dia para as aves, um dia para os animais terrestres e outro ainda para os seres humanos.

Tomás discorda. Ele explica que, segundo o esquema utilizado para construir esta narração, e que divide os seis dias em dois grupos de três dias, relaciona as divisões com a estruturação dos espaços (céu, águas e terras) e seu povoamento (astros, peixes e aves, animais e humanos), e não com sua espécie ou gênero. Assim, a narração é coerente e adequada ao esquema narrativo, e o argumento não procede.

3. Os argumentos sed contra.

Neste artigo, há dois argumentos sed contra, e, diferentemente da maioria dos artigos da Suma, Tomás os enfrenta diretamente e os responde, porque vê equívocos neles que devem ser expressamente corrigidos. Os argumentos objetores iniciais defendem que há poucos dias no relato da criação, e que eles deveriam ser mais numerosos do que sete, para enfrentar pontos que não ficaram contemplados ali. Os argumentos sed contra, por outro lado, defendem que a narrativa tem dias em excesso, e que eles deveriam ser menos numerosos do que os sete existentes, para serem adequados. Ou seja, eles também consideram que a narração bíblica é inadequada, e por isto precisam ser expressamente respondidos.

O primeiro argumento sed contra lembra que o primeiro dia da criação narra a separação entre a luz e as trevas, que marcam a passagem do tempo. Mas os astros, que são a fonte da luz que existe no universo criado, produzindo a alternância entre dia e noite, são criados apenas no quarto dia, o que seria uma redundância. O argumento conclui, então, que não deveria existir um dia para a criação da luz e outro, diferente, para a criação dos astros, e a narração poderia ser encurtada.

Tomás vai lembrar aquilo que já debatemos na questão 70: no primeiro dia, a luz e as trevas são criadas em si mesmas, de modo indeterminado e marcando a passagem do tempo. Mas somente no quarto dia os astros são criados, de modo a servirem como fontes daquela luz que, criada no primeiro dia, passa a ter, no quarto, fonte determinada. Há, aí, claramente, uma intenção narrativa (lembramos o esquema narrativo dos dois conjuntos de três dias) e uma intenção teológica, aquela de reduzir a importância dos astros do céu, que eram idolatrados em diversas culturas que circundavam o povo de Deus no tempo da composição desta narrativa. Reduzindo-os a meros ornamentos do céu, eliminava-se o risco de que o povo os deificasse.

O segundo argumento sed contra, que é o último ponto do nosso debate, lembra que nada foi criado no sétimo dia. Assim, este dia não deveria compor a narrativa da criação, que, portanto, deveria ter seis dias, e não sete, conclui o argumento.

Para responder, Tomás vai buscar, primeiro, a posição de Santo Agostinho. Para Agostinho, o sétimo dia faz parte inseparável do relato da criação, porque visa estabelecer que, nele, Deus repousou em si mesmo, depois de ter concluído seu trabalho criador. Ou seja, o sétimo dia transforma o repouso em Deus em parte integrante da criação! A centralidade de Deus, a contemplação daquele que é o fim e a consumação da criação, tudo isto fica marcado pelo fato de que repousar em Deus é, inseparavelmente, parte da criação.

Em segundo lugar, Tomás registra que vários outros intérpretes nos lembram que o sétimo dia marca a entrada da criação num novo estado, em que o trabalho criador de Deus fica delimitado (no sentido de que as bases para a criação já foram estabelecidas imutavelmente nos seis primeiros dias) e surge uma nova etapa, em que o dinamismo interno da criação ganha sua autonomia, de tal modo que, em razão das bênçãos de Deus, a criação entra na fase de crescimento, desenvolvimento e busca do fim, sob o governo de Deus. Assim, o sétimo dia tem a função de arrematar aquela etapa a introduzir nesta.

4. Concluindo.

Encerramos o primeiro artigo desta questão 74. No próximo debateremos se os sete dias da narração de fato constituem uma sequência, ou se são apenas uma forma sucessiva de narrar os eventos que não são, em si, sucessivos. Discussão interessantíssima, portanto.