1. Breves palavras introdutórias.
Há um fato que é impossível de não ser percebido, quando se aborda a revelação bíblica: como narrar a operação divina em palavras humanas? De fato, noções como sucessão, movimento, início, fim, sequência, são todas noções aplicáveis ao ser humano, não a Deus. Assim, o operar divino, tal como ele é, seria incompreensível pelos seres humanos, e narrá-lo seria impossível, se não fosse a noção literária de analogia. É pelo uso de linguagem analógica que podemos falar sobre Deus e tornar seu agir compreensível para nós, ainda que limitadamente. Ou, como diz o Catecismo da Igreja Católica, “[t]odas as criaturas são portadoras duma certa semelhança de Deus, muito especialmente o homem, criado à imagem e semelhança de Deus. As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) refletem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: ‘porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor’ (Sb 13, 5)”. Isto é, podemos falar de Deus usando uma linguagem que, na verdade, surge para falar de criaturas; mas não podemos esquecer que esta linguagem, quando aplicada a Deus, tem um conteúdo verdadeiro, mas analógico.
É claro que a analogia não é uma metáfora. Na metáfora, há um uso poético, livre, da linguagem, para expressar uma semelhança que não guarda proporcionalidade com a realidade expressada. Quando dizemos que um lutador é um “leão”, não falamos analogicamente, mas apenas metaforicamente. Mas quando dizemos que “Deus é pai”, estamos falando analogicamente; a paternidade divina, na Trindade, é real, e guarda proporção com a paternidade humana, embora seja de uma natureza completamente diversa desta.
É o caso da linguagem usada neste primeiro relato bíblico da criação, quando fala em “dias” da criação. Parece bem claro que se trata de linguagem analógica, e que a noção de “dias”, aí, não é usada no mesmo sentido que a ciência usa, ou seja, como intervalo de 24 horas que marca uma rotação da Terra em torno do próprio eixo. Não há univocidade, aqui, entre estes dois usos da mesma palavra. Mas será que esta falta de univocidade demonstra um uso analógico da linguagem, ou apenas um uso poético, metafórico mesmo?
O objeto deste artigo, que agora passamos a debater, diz respeito, portanto, aos limites desta analogia. Mas será que, ao falar de “sete dias”, o relato está falando metaforicamente, ou seja, está tratando de modo sucessivo os eventos que, na verdade, são simultâneos? Ou será que há, de fato, alguma sucessividade na operação criadora de Deus, expressa pelo uso da palavra “dia”, que seria, neste caso, usada num sentido analógico de sucessão de eventos, embora não com um significado unívoco com o significado científico da palavra dia? Debate importantíssimo. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, aqui, simplesmente adota a posição de que o termo “dia” é usado apenas de modo metafórico, isto é, trata-se apenas de uma linguagem livre, poética, que não tem proporção com a realidade. De fato, a hipótese controvertida diz que “parece que os sete dias da criação, descritos neste primeiro relato bíblico, são, na verdade, apenas um dia”, isto é, todos os eventos são, na realidade, simultâneos, e não sucessivos. Há quatro argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial; há, também, um argumento sed contra, que se limita a reafirmar as Escrituras. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores.
O primeiro argumento objetor cita Gn 2, 4b-5, isto é, o primeiro versículo do chamado “segundo relato de criação” do Gênesis. Ali, a narração se inicia afirmando: “no dia em que o Senhor Deus fez a terra e o céu, não existia ainda sobre a terra nenhum arbusto nos campos, e nenhuma erva havia ainda brotado nos campos”. O argumento, da leitura deste versículo, lembra que o céu e a terra foram criados antes de todos os dias, segundo Gn 1, 1, e os vegetais foram criados apenas no terceiro dia, segundo Gn 1, 11-12. Ora, se Gn 2, 4b-5 diz que estas coisas foram feitas “no mesmo dia” (ou ao mesmo tempo, segundo outras traduções), e o primeiro relato diz que uma coisa aconteceu antes dos dias, e a outra ocorreu apenas no terceiro dia, então o argumento conclui que toda a criação foi feita simultaneamente, num mesmo e único dia, e a menção à sucessão de dias, no capítulo primeiro, é apenas metafórica.
O segundo argumento objetor também cita um outro versículo bíblico que parece contradizer o primeiro relato bíblico e sua estrutura em dias. Trata-se de Eclesiástico 18, 1: “O eterno tudo criou, sem excepcionar nada”. Ora, se ele criou tudo junto, todo o conjunto das coisas, diz o argumento, então não houve sucessão, mas simultaneidade na criação. Assim, o argumento conclui que a menção a sucessão de dias, ali, é apenas metafórica, e toda a criação foi feita simultaneamente.
O terceiro argumento objetor lembra que, de acordo com o primeiro relato bíblico da criação, houve um sétimo dia em que Deus não fez nenhuma obra. Mas, considerando que nunca tinha havido, antes, um sétimo dia, seria necessário que Deus tivesse criado, ao menos, o próprio sétimo dia, para que ele existisse. Logo, se considerarmos que a criação se deu em dias sucessivos, há uma contradição no relato, diz o argumento. Assim, o argumento conclui que a menção à sucessão de dias, aqui, é apenas metafórica, e a criação se deu de modo simultâneo.
O quarto argumento objetor lembra que a ação criadora de Deus é instantânea e não envolve nenhum esforço. Ora, Deus diz e aquilo se faz, imediatamente. Assim, se a obra fosse realmente dividida em dias, ele operaria num instante a respectiva obra, e o restante daquele dia seria ocioso, até que sobreviesse um outro dia, no qual ele voltaria a operar instantaneamente, e assim por diante. Isto seria uma forma inconsistente de descrever o modo divino de operar, diz o argumento: uma sucessão de ordens instantâneas intercaladas por um tempo ocioso intermediário. Assim, o argumento conclui que não há uma sucessão real de dias, mas apenas uma sucessão imediata e ininterrupta de instantes em que as obras são feitas.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra simplesmente resgata o relato bíblico, quando registra que “houve um primeiro dia, houve um segundo dia, houve um terceiro dia”, para concluir que há, aí, uma verdadeira sequência de dias, num sentido unívoco àquele com que usamos, ainda hoje em dia, a noção de “dia” como intervalo de 24 horas. Ou seja, o argumento defende que a palavra “dia” é utilizada, pelo relato bíblico, num sentido realmente unívoco com aquele do sentido comum, e devemos entender que houve, literalmente, um período de sete dias de 24 horas, na criação..
5. Palavras de encerramento.
Colocados os termos do debate, Tomás registra que, mais uma vez, a posição de Santo Agostinho, sobre este tema, é diferente da posição dos demais Padres da Igreja e intérpretes deste trecho. Mas examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.
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