1. Retomando.
No texto anterior, começamos a estudar este primeiro artigo da questão 74 desta primeira parte da Suma. A hipótese controvertida, aqui, nega que a enumeração de sete dias seja adequada para descrever a criação. De fato, a hipótese declara: parece que a criação não pode ser adequadamente descrita como um processo de sete dias. Vimos, também, os três argumentos objetores e os dois argumentos sed contraque lastrearam o debate. Agora, estudaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
2. A resposta sintetizadora.
Tomás, em sua resposta sintetizadora, vai iniciar lembrando da estrutura de composição do primeiro relato bíblico da criação, segundo a maioria dos exegetas que ele conhece: os três primeiros dias narram a estruturação do mundo, em céus, águas e terras. Os últimos três dias narram o povoamento destas estruturas, o céu com os astros, as águas com os peixes (a atmosfera com as aves) e a terra com animais e seres humanos. O sétimo dia marca o coroamento da obra e o repouso divino.
A partir desta leitura, alguns Padres antigos da Igreja construíram a ideia de que o relato tem uma progressão, uma verdadeira hierarquia intrínseca em sua narração. Trata-se da ideia de que o mundo material tem uma estrutura em que se manifestam, como primeira parte (e mais elevada) o céu, como segunda parte (intermediária) a água e como terceira parte (e inferior) a terra. Retomando o pensamento da escola pitagórica, (que defendia que, em tudo o que é perfeito, manifesta-se um princípio, um meio e um fim) lembrada por Aristóteles, estes Padres defendiam que o princípio (simbolizado pelo céu) foi criado no primeiro dia e ornado no quarto, que são, respectivamente, o primeiro dia do primeiro tríduo e o primeiro dia do segundo tríduo; o meio (simbolizado pelas águas) teria sido criado no segundo dia do primeiro tríduo e ornado no segundo dia do segundo tríduo, marcando, portanto, sua condição de intermediário nos dois conjuntos de dias. E a terra, que marca a parte inferior da criação, teria sido criada no terceiro dia (último dia do primeiro tríduo) e ornada no sexto dia (último dia do segundo tríduo), representando o fim da obra divina. Haveria, portanto, uma profunda intencionalidade simbólica nesta narração.
Por fim, Tomás resgata a posição de Santo Agostinho. Ele difere um pouco na leitura do primeiro tríduo; de fato, ele entende que o relato do primeiro dia dedica-se a narrar, de maneira simbólica, a criação do mundo dos anjos, ou seja, a menção ao céu, aí, para ele, significa que o primeiro dia narra a criação e estruturação das criaturas puramente espirituais. Os dois dias seguintes (respectivamente o segundo e terceiro dias) narraria, segundo sua leitura, a estruturação do universo material, e os três últimos dias (quarto, quinto e sexto) narrariam o povoamento do universo corpóreo. A diferença essencial estaria, portanto, na compreensão do primeiro tríduo; o segundo tríduo é lido por Agostinho do mesmo modo que o leem os demais Padres, ou seja, como relato das chamadas “obras de ornamentação”.
3. Palavras de encerramento.
É de se notar como os Padres da Igreja (e com eles Tomás) souberam ler adequadamente este relato bíblico, buscando seu sentido literal a partir da intenção teológica do escritor bíblico; assim, o sentido literal já é, em si, simbólico, o que facilita harmonizar a leitura com as diversas correntes filosóficas e científicas que se sucederam no tempo, e que se relacionam com a criação a partir de outros pressupostos e intenções. Isto é, não devemos imaginar que o relato bíblico tenha, em qualquer nível de leitura, um significado científico ou filosófico. Ele é simbólico, no sentido mais puro da palavra “sím-bolo”, aquilo que une as partes de um mistério. Unir a criação a Deus é o objetivo da narração, e não é pouca coisa: a criaturalidade do mundo foi estabelecida pelos relatos bíblicos,e foi firmemente estabelecida. Não devemos procurar, em tais relatos, mais do que aquilo que eles podem nos dar.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores e aos argumentos sed contra.
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