1. Palavras de introdução.

A moderna ciência bíblica aponta que o primeiro relato de criação bíblico (Gn 1, 1 a Gn 2, 4) deve ter origem sacerdotal, isto é, deve ter sido redigido por sacerdotes, inclusive com fins litúrgicos e cultuais. Vem daí o seu ritmo, a sua simetria, o fato de que o ritmo de vida e trabalho dos seres humanos tem, no trabalho de Deus, o fundamento para a alternância entre atividade e repouso, além da exata sensação de que a criação do mundo é descrita de um modo bastante análogo à construção e ornamentação de um santuário. Estas intenções teológicas parecem evidentes no texto, muito mais do que a questão científica ou filosófica.

Além disso, precisamos notar que, já no tempo de Tomás, os relatos científicos básicos não eram compatíveis com o relato bíblico. De fato, a filosofia grega, que influenciou fortemente o pensamento cristão desde os tempos patrísticos, e todo o pensamento ocidental desde antes de Cristo, tinha uma visão muito diferente da bíblica sobre a estrutura do mundo. O relato bíblico tem origem sacerdotal e surge da antiga visão judaica da relação entre Deus e o mundo, que parte da criaturalidade do universo – visão que os gregos não tinham. Portanto, a dificuldade que temos hoje, quando tentamos forçar o relato bíblico a dizer o que ele não diz, isto é, a lê-lo como um relato científico tosco e errôneo, comparando-o com a ciência contemporânea, não era algo completamente ausente nos tempos de Tomás. Por isto é muito interessante ler esta questão 74.

2. A hipótese controvertida neste artigo.

A hipótese controvertida, neste primeiro artigo, nega que a enumeração de sete dias seja adequada para descrever a criação. De fato, a hipótese declara: parece que a criação não pode ser adequadamente descrita como um processo de sete dias. São três os argumentos objetores, que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento lembra que os seis dias em que houve atividade divina, segundo este relato, são tradicionalmente divididos em dias de distinção (os três primeiros, em que as coisas são estruturadas) e dias de ornamentação (nos quais os grandes espaços da água, da terra e do céu são ornados dos seres que neles movem-se). Mas a atividade de criação, que retira as coisas do nada, não pode ser menos importante do que as atividades de distinção e ornamentação. Portanto, conclui o argumento, deveria haver tantos dias destinados à simples criação quanto existem dias destinados à distinção e à ornamentação.

O segundo argumento.

O segundo argumento parte da ideia, que era consensual no tempo de Tomás, de que a realidade seria constituída de quatro elementos fundamentais, o ar, a água, a terra e o fogo. Ora, prossegue o argumento, o relato da criação destina um dia para narrar a separação da água (segundo dia, Gn 1, 7) e outro dia para narrar a separação da terra (terceiro dia, Gn 1, 9). Então, por simetria, deveria existir um dia destinado à separação do fogo e mais um destinado à separação do ar. Disso, o argumento conclui que a narração em sete dias é inconveniente.

O terceiro argumento.

O terceiro argumento quer comparar os animais, para verificar se o relato de criação andou bem na narração de sua criação. Os peixes são tão diferentes das aves quanto são dos animais terrestres, diz o argumento. Além disso, os seres humanos diferem mais do conjunto dos animais racionais do que os animais diferem entre si. Assim, prossegue, não há sentido em agrupar a criação dos peixes com a criação das aves no mesmo dia, mas reservaroutro dia para narrar a criação dos animais terrestres. Além disso, se o critério é a diferença entre espécies, não há sentido em separar, em dias diferentes, peixes e aves dos animais terrestres, mas agrupar estes com os seres humanos. Assim, o argumento conclui que deveria haver um dia somente para narrar a criação das aves e um dia somente para narrar a criação dos seres humanos.

4. Os argumentos sed contra.

Há, neste artigo, dois argumentos sed contra, o que não é tão comum na Suma. Aqui, os argumentos sed contra não querem provar que o relato da criação em sete dias é curto demais, e deveria haver mais dias, como foi o objetivo dos argumentos objetores iniciais. Os argumentos sed contra querem provar que, ao contrário, o relato não precisaria de sete dias para descrever a criação, e que algum ou alguns destes dias são supérfluos.

O primeiro argumento sed contra.

O primeiro argumento sed contra retoma a constatação de que, no relato de criação, a luz é criada no primeiro dia, mas os astros luminosos, que são a fonte de luz no universo, somente são criados no quarto dia. Ora, se a luminosidade decorre do brilho dos astros, que são a substância da qual a iluminação é o acidente próprio, parece redundante, conclui o argumento, que o relato reserve um dia para narrar a criação da luz e outro para narrar a criação dos astros que são a causa da luz.

O segundo argumento sed contra.

O relato da criação existe para narrar a criação do universo, lembra o argumento. Mas no sétimo dia nada foi criado, afirma. Logo, não há razão para que este sétimo dia esteja enumerado como um dos dias da criação, conclui.

5. Encerrando.

No próximo texto, veremos a resposta sintetizadora de Tomás.