1. Retomando.
Para os cristãos o domingo é o dia santo e santificador, porque a ressurreição é o fundamento da nossa fé, é a recriação do mundo, que celebramos. De fato, é o espírito do repouso sabático, mas sob novo fundamento. Jesus repousou de tudo no sábado e ressuscitou no domingo; portanto, agora, a bênção e a santificação são dominicais. Repousamos no Senhor, renascemos no Senhor e é isto que celebramos no domingo. Mas, sem dúvida, não há o domingo cristão sem a preparação sabática do Antigo Testamento, e é por isto que é tão importante debater o sábado, em especial neste primeiro relato da criação. Por ele, pelo sábado, pelo sétimo dia, a bênção e a santificação divinas foram derramados na criação. Debateremos agora as razões disto.
2. A resposta sintetizadora de São Tomás.
O que significa dizer que, no sétimo dia, Deus descansou? Como estudamos nos artigos anteriores, o descanso divino tem duas acepções, isto é, há duas dimensões nas quais se pode dizer que Deus descansou:
1) Deus deixou de criar coisas novas, e passou a conservar e governar aquilo que já existia, real ou potencialmente.
2) Deus repousou em si mesmo, depois de ter executado seu desejo de criar o mundo.
Quanto à afirmação de que o sétimo dia é o dia da bênção, ela tem relação com a primeira forma pela qual dizemos que Deus descansou de criar. De fato, a noção de bênção envolve a capacidade de multiplicação, de fecundidade, envolvida no relato da criação, quando Deus diz: “crescei e multiplicai-vos”. Esta atividade fecunda de multiplicação se inicia quando se encerra a obra instituidora de Deus, ou seja, no sétimo dia, quando Deus declara o mundo criado, instituído, e cessa a atividade criadora de Deus e inicia-se a atividade multiplicadora das criaturas. Neste sentido é que se diz que o sétimo dia é o dia da bênção.
Quanto à santificação, ela está relacionada à segunda forma pela qual dizemos que Deus descansou no segundo dia, ou seja, ao repouso em si mesmo após ter saciado seu desejo criador. Ora, repousar em Deus é, em sentido próprio, a noção de ser santo: santo é tudo aquilo que repousa em Deus. Assim, todas as criaturas que alcançam a glória (e, por analogia, todas as coisas que são separadas e consagradas a Deus) estão repousando em Deus, e por isto são chamadas de santas. Portanto, se o sétimo dia é o dia em que Deus repousa em si mesmo, ele é, também, o fundamento teológico para a santificação.
Portanto, o sétimo dia é o dia em que Deus nos concede a bênção de caminhar para ele, colaborar com seu plano para a criação, ou seja, associarmo-nos aos dons que ele nos deixou. E, ao mesmo tempo, é o dia em que caminhamos para nosso fim, que é repousar na glória de Deus, para participar da felicidade que ele tem em si mesmo. Não podemos esquecer, pois, que este é o sentido mais profundo do repouso sabático.
3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento parte da ideia de que a bênção se relaciona a qualquer aumento do bem. Ou a superação ou prevenção de algum mal. Mas em Deus nem o bem pode aumentar, nem o mal pode vir a existir. Logo, conclui o argumento, seria errado relacionar o sétimo dia a algum tipo especial de bênção.
Mas Tomás vai nos ensinar que a bênção não diz respeito a que o bem possa aumentar em Deus, ou o mal vir a diminuir nele. Trata-se do aumento do bem nas criaturas, pela sua multiplicação ou pelo seu repouso em Deus. Portanto o argumento erra o enfoque.
O segundo argumento também relaciona a noção de bênção com a noção de aumento do bem, mas agora trata-se do aumento do bem nas criaturas. De fato, criar é difundir o bem de Deus, pela difusão do bem, analogicamente, nas criaturas. Se a bênção envolve o aumento do bem nas criaturas, então ela deveria estar muito mais relacionada aos seis primeiros dias, em que as coisas foram criadas a partir do nada, do que ao sétimo dia, em que não houve mais criação de coisas, conclui o argumento.
Mas não é assim, diz Tomás. Nos seis primeiros dias, Deus, agindo como causa fundamental, ou causa primeira, retirou as coisas do nada, fazendo-as existir. Produziu o todo da criação, mas nem todas as coisas foram criadas efetivamente, materialmente. A enorme maioria delas foi estabelecida apelas virtualmente, como capacidade de existir, a partir das outras coisas, como causas segundas. O sétimo dia marca, então, o momento em que as coisas começam a funcionar como causas segundas na produção de outras coisas, por reprodução, combinação ou qualquer outro modo de transformação. Assim, a reprodução dos seres vivos, a combinação de elementos para produzir coisas novas, as transformações geográficas, tudo isto se inicia no sétimo dia, quando as coisas recebem de Deus o poder de funcionar como causas segundas. Neste sentido, a bênção é estabelecida no sétimo dia, porque é nele que Deus delega à sua criação o poder de multiplicar-se. Também é neste dia que o repouso de Deus se converte no repouso em Deus, isto é, o fato de Deus repousar em si mesmo é oferecido às criaturas como fim último delas, como possibilidade última de sua consumação plena, naquilo que podemos chamar de santificação. É nestes sentidos que o sétimo dia é dia de bênção e santificação.
O terceiro argumento lembra que o próprio relato de criação, ao descrever os seis primeiros dias, declara que a criação das coisas, ocorrida neles, é uma bênção, celebrada por Deus, quando o relato declara: “e Deus viu que tudo era bom”. Não haveria motivo, portanto, diz o argumento, para associar a bênção apenas ao sétimo dia, conclui.
Tomás vai nos explicar que aquilo que ocorreu nos seis primeiros dias é diferente do que ocorre no sétimo dia. Nos seis primeiros dias, como ele disse na resposta anterior, há a instituição da natureza, isto é, a ação primeira de Deus, que retira, por seu poder fundamental, as coisas do nada para fazê-las existir. A bênção criadora, portanto, que está relacionada com estes seis primeiros dias, está encerrada. No sétimo dia, Deus transmite às criaturas a capacidade de multiplicar-se, como causas segundas da existência de novas coisas. Assim, fica instituída a bênção no seu sentido próprio, quer dizer, no sentido de ordem ou beneplácito divino para a multiplicação das coisas por si mesmas. Assim, a bênção, como instituição da capacidade de multiplicação da natureza, é própria do sétimo dia.
4. Palavras conclusivas.
Terminamos a penúltima questão deste Tratado da Criação, que estuda fundamentalmente o chamado “primeiro relato da criação” da Bíblia. A próxima questão examinará alguns problemas de interpretação dos diversos relatos bíblicos de criação, em conjunto, e o modo pelo qual, no tempo de Tomás, eles eram harmonizados entre si. É preciso sempre lembrar que, para Tomás, como para a fé da Igreja, a revelação não é a Bíblia. A revelação consiste em Deus deixar-se conhecer pela inteligência das criaturas, pela sua relação com a criação e com a história. A Bíblia é apenas um dos modos pelos quais a revelação é transmitida. Assim, Tomás estuda a criação, e não os relatos e suas tradições redacionais, como fazem os modernos estudiosos bíblicos, mais preocupados com a linguagem bíblica, sua composição textual e suas estruturas literárias e redacionais do que com aquilo que ela transmite sobre a revelação. Não podemos ler a Suma com este espírito, porque não é o espírito que movia Tomás.
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