1. Palavras introdutórias.

“’Sine dominico non possumus!“. Sem o dom do Senhor, sem o Dia do Senhor não podemos viver: responderam alguns cristãos em Abitínia, atual Tunísia, no ano de 304 quando, surpreendidos durante a Celebração eucarística dominical, que era proibida, foram levados diante do juiz e interrogados porque tinham realizado de domingo a função religiosa cristã, mesmo sabendo que o fato era punido com a morte. Assim nos conta Bento XVI, numa homilia proferida na Catedral de Santo Estêvão, Viena, 9 de Setembro de 2007. Não imaginaríamos que viveríamos (embora por outros motivos) proibições de celebrar o domingo, em pleno século XXI, em razão da pandemia da COVID 19. Mas será que o domingo ainda guarda para nós o valor de repouso sabático, de “dia consagrado ao Senhor”, ou é apenas um dia de preguiça, de lazer, de direito laboral?

Ora, para entender todo o valor do repouso semanal é preciso entender exatamente qual o sentido da narrativa da criação, quando registra que no sétimo dia “Deus descansou”, e que, descansando, abençoou e santificou este dia. É o que debateremos neste artigo.

2. A hipótese controvertida.

De fato, toda tradição judaica do repouso sabático, e, com ela, a tradição cristã do repouso dominical, têm seu fundamento mais remoto aqui, em Gn 2, 3. Foi no repouso divino que o repouso humano encontrou fundamento, mas não como um simples tempo de ócio, de não fazer, senão como um tempo de contemplação, adoração e louvor. É o que nos ensina a Carta Apostólica Dies Domini, de João Paulo II, que trata justamente da santificação do domingo. E o sábado é um dia santo, e portanto fonte de bênção e santificação, justamente porque Deus, ao repousar da criação, abençoou este dia e o dedicou à santificação da criação.

Mas é exatamente esta conclusão que é negada agora, pela hipótese controvertida que quer estabelecer o debate deste artigo. Parece que a bênção e a santificação não são próprias do sétimo dia, diz a hipótese. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento afirma que podemos considerar abençoado e santificado qualquer tempo em que coisas boas venham a acontecer, ou que coisas más venham a ser evitadas ou interrompidas. Mas em Deus nenhum bem pode ser acrescentado, já que ele é o próprio bem absoluto, e nenhum mal pode ser diminuído, porque não há nele nenhum mal. Assim, não se poderia associar a operação divina a nenhum aumento de bem em Deus ou a alguma diminuição de mal. Em Deus, a bênção e a santificação são permanentes. Portanto, o argumento conclui que não se poderia associar o sétimo dia, de modo especial, às bênçãos ou santificação.

O segundo argumento parte da ideia de que o bem é difusivo de si mesmo. Ora, o ser e o bem são conversíveis entre si, isto é, o bem nada mais é do que a relação entre o ser e a vontade. A criação de coisas é, portanto, Portanto, aqueles momentos em que Deus está criando são momentos em que o bem está se difundindo, pelo surgimento de novos seres (que, por serem, são bons). Assim, os dias em que Deus opera são dias em que o bem cresce, mas o dia do repouso de Deus é um dia em que o bem não aumenta. Se a bênção e a santificação são ligados ao aumento do bem, então elas não podem estar ligados ao sétimo dia, mas aos seis dias em que Deus estava criando, conclui.

Por fim, o terceiro argumento continua na mesma linha de defender que a bênção e a santificação estão ligadas à expansão do bem. Ora, a cada um dos seis dias o relato finaliza dizendo que “Deus viu que tudo era bom”. Portanto, a bênção de Deus esteve presente nos seis dias, e não faz sentido associá-la apenas ao sétimo dia de modo especial, conclui.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, mais uma vez, vai simplesmente reafirmar o texto das Escrituras, lembrando que em Gn 2, 3, “Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse dia descansou de toda a obra da Criação”. Ora, a bênção e a santificação estão intrinsecamente associadas ao sétimo dia, nas Escrituras, conclui o argumento, sem alongar-se nas razões. O que será feito na resposta sintetizadora.

Que veremos no próximo texto.