1. Retomando.
Qual a extensão do descanso divino no sétimo dia? De que exatamente ele descansou? Eis o debate, que vimos no artigo anterior. Visitaremos agora as respostas de Tomás; primeiro a resposta sintetizadora, em que ele põe os parâmetros para resolver a questão, e em seguida as respostas aos três argumentos objetores iniciais.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O que é repousar? Podemos dizer que a noção de “repouso” se contrapõe à noção de movimento, de transformação, e, portanto, ao trabalho envolvido em transformar alguma coisa.
É claro que a noção de trabalho, em seu sentido próprio, envolve a transformação de coisas materiais. Assim, trata-se de transformar corpos, atualizando suas potencialidades. Repousar, portanto, em sentido estrito, seria aplicado a um ser material que cessou de transformar um objeto material com seu trabalho.
Mas há um sentido estendido, que envolve a atuação nas realidades espirituais. Este sentido estendido pode ser compreendido de dois modos:
1) O primeiro modo é aquele que considera toda operação espiritual como um trabalho, de modo análogo. Assim, uma vez que a bondade de Deus se comunica às coisas, determina que elas sejam boas e as move em busca da própria perfeição, há, aí, algo que envolve movimento, e portanto pode, num sentido largo, ser chamado de trabalho. Portanto, quando Deus produz alguma coisa, poderíamos dizer que ele trabalha.
2) O segundo modo é o movimento causado, na vontade, pelo desejo. Ao inclinar o sujeito ao objeto, há, em sentido análogo, um movimento, que, também usando a palavra com um significado ampliado, pode ser chamado de trabalho.
Assim, também em dois sentidos poderíamos usar a palavra “repousar” para uma realidade espiritual, em oposição a cada um dos dois sentidos de trabalho espiritual.
O primeiro sentido é oposto ao movimento de Deus que faz as coisas existirem, transmitindo a elas a bondade divina. Ou seja, àquela noção de trabalho, no sentido espiritual, explicada no item 01 acima. Assim, Deus repousa quando cessa de criar, de tirar as coisas do nada e dar-lhes o bem da existência.
O segundo sentido é oposto ao movimento da vontade que deseja. Ora, Deus não precisava criar nada para ser pleno; sendo Deus, ele é pleno, e poderia repousar na própria plenitude para sempre. Mas, sendo Trindade de amor, ele transborda de desejo de amar, e delibera criar o mundo para participar dessa ciranda de amor que é a Trindade em sua economia interna. Ora, havendo deliberado isto, Deus se põe a criar e, havendo cegado ao termo de sua ação criadora, vê completa a sua deliberação e pode repousar, não porque a criação, de algum modo, viesse a ser objeto de desfrute ou de contemplação por Deus, mas porque, havendo cessado seu movimento de realizar o que deliberou, pode usufruir quietamente de sua própria felicidade, cessando o movimento de realizar o desejo de ver concretizada sua deliberação criadora. Ou seja, havendo realizado sua deliberação, repousa dela em si mesmo. É verdade, diz Tomás, que Deus não precisa da criação para desfrutar de si mesmo. Mas, uma vez que ele a quer, o sétimo dia traz a ele um repouso especial: o repouso de ter completado esta deliberação, de ver tudo criado e constatar que tudo é bom, muito bom.
É neste sentido, ou melhor, nestes sentidos, segundo Agostinho, que as Escrituras falam que Deus repousou de suas obras no sétimo dia.
3. Respondendo aos argumentos objetores iniciais.
Havendo estabelecido os critérios para solucionar o debate, Tomás vai revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento toma a citação bíblica de João 5, 17 (“Meu pai trabalha até hoje, e eu também”), para afirmar que, uma vez que Deus trabalha até hoje sem cessar, não houve nenhum repouso no sétimo dia da criação.
Tomás responde que, de fato, Deus não cessa jamais de trabalhar, não repousa do cuidado e do governo que tem com a criação, conduzindo-a incessantemente ao seu fim; mas repousou especificamente do trabalho de criação, encerrando-o no sétimo dia, de tal modo que tudo o que é criatura teve sua origem, efetiva ou virtual, naqueles dias iniciais.
O segundo argumento diz que a noção de repouso se contrapõe à noção de movimento, bem como à noção de trabalho; nem todo movimento é trabalho, mas todo trabalho envolve algum tipo de movimento. Mas Deus não se transforma, ou seja, ele não se move, mesmo quando cria as suas obras. Ele é perfeito, pleno, imóvel e onipotente, e por isto não podemos dizer que “criar” é algo que seja um “trabalho” para ele. Assim, se ele não trabalha, tampouco precisaria descansar. E o argumento conclui que o relato da criação, quando narra que Deus descansou no sétimo dia, é equivocado.
Tomás vai lembrar, aqui, os elementos que ele nos trouxe em sua resposta sintetizadora, quanto à noção espiritual de trabalho, em sentido amplo, que pode ser aplica a Deus: criar, quer dizer, dar existência às coisas, implica infundir nelas a sua própria bondade. Isto poderia ser, analogicamente, chamado de trabalho, porque implica um certo movimento, que é o movimento da bondade, desde Deus até as coisas criadas. Além disso, criar não decorre de algum tipo de necessidade divina, porque Deus se basta. É, portanto, um ato livre de sua vontade, um desejo que ele executa na criação. Assim, cessar de criar seria, analogicamente, cessar o trabalho de fazer que as coisas existam e sua bondade e repousar na completude do desejo de que elas existam. Portanto, Deus descansa de criar e de querer criar.
Por fim, a terceira objeção diz que há uma interpretação de que o relato de que Deus “descansou” no sétimo dia não descreveria propriamente o descanso de Deus, mas um mandato divino para que os seres humanos descansem de seus trabalhos. Ora, diz o argumento, quando o relato diz que Deus “criou”, “fez” ou “separou”, nestes sete dias, ele não pretende dizer que Deus “mandou criar” ou “mandou fazer”, mas que ele agiu assim por si mesmo. Logo, conclui o argumento, a interpretação de que o descanso do sétimo dia é apenas uma ordem divina para nós é falsa.
Tomás lembra que Deus, perfeito e pleno em si mesmo, sempre repousa e desfruta de si mesmo, porque sabe que só na sua própria perfeição ele encontra a felicidade perfeita. Ora, também nós, criados à imagem e semelhança de Deus, somente podemos encontrar repouso em Deus, já que somos limitados, incompletos e feitos para ele. Assim, há verdade na interpretação de que o repouso de Deus é uma ordem, ou melhor, um exemplo a ser seguido por nós, no sentido de buscar em Deus o alívio, o repouso para nossos próprios fardos, nossos próprios trabalhos. Mas seria muito empobrecedor imaginar que esta é a principal interpretação, o sentido próprio do texto. Deus repousou no sétimo dia, naqueles dois sentidos que Tomás menciona em sua resposta sintetizadora, e este é o sentido principal em que este trecho deve ser interpretado. Mas ele também nos dá o exemplo de que devemos repousar nele dos nossos próprios trabalhos.
4. Concluindo.
Não posso fugir à tentação de lembrar do sábado em que Jesus esteve fechado no túmulo, como consumação perfeita deste versículo que estamos estudando, ou seja, como Deus descansando, no sétimo dia, de todo o seu trabalho. Mas, ainda que esta interpretação seja possível, não é o sentido próprio, principal, literal, do texto que estamos debatendo. Mas que é uma bela imagem, isto é inegável.
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