1. Introdução.
Será que é possível dizer que Deus interrompeu todo o seu agir, no sétimo dia, e ficou inerte? Qual a extensão desse “repouso”?
Eis o debate aqui. Já mencionamos, no artigo anterior, que há uma interpretação de que a menção, aqui, ao repouso no sétimo dia, é uma profecia daquele sétimo dia em que Jesus ficaria no túmulo, depois da crucificação e antes da ressurreição. Mas não é disso que tratamos aqui.
Aqui, o debate é sobre o próprio relato. Como interpretar a narrativa? Deus poderia abrir mão da sua atuação por algum período de tempo? As coisas subsistiriam se Deus não as mantivesse na existência? Como Deus poderia descansar?
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, aqui, é justamente a de que Deus não descansou de todo o seu agir, neste sétimo dia. São três os argumentos objetores iniciais.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor cita João 5, 17: “meu pai continua agindo até agora, e em ajo também”. Ora, se o próprio Jesus, que é Deus, garante que o Pai nunca cessou de trabalhar, diz o argumento, teríamos que concluir que Deus nunca repousou, nem sequer no sétimo dia, conclui.
O segundo argumento lembra que a noção de “repouso” envolve a negação de qualquer movimento, esforço ou trabalho. Ora, o trabalho é, muitas vezes, o próprio esforço envolvido em algum tipo de movimento. Mas Deus não faz esforço nem se move para produzir suas obras. Ele, na sua onipotência, transforma tudo sem ser transformado de modo algum. Assim, se o descanso envolve recuperar-se de algum esforço, e se o obrar de Deus não envolve esforço, o relato bíblico não faz sentido, ao narrar que Deus teria repousado no sétimo dia, conclui o argumento.
Por fim, o terceiro argumento lembra que há uma interpretação bíblica que lê este trecho de Gn 2, 2 não como se o próprio Deus entrasse em repouso, mas como se ele estivesse dando uma ordem ao ser humano para que repousasse a cada ciclo de sete dias. Mas esta interpretação é inaceitável, diz o argumento. De fato, quando o relato narra, nos versículos anteriores, que Deus criou isto ou fez aquilo, não se poderia entender que Deus ordenou ao ser humano que fizesse isto ou aquilo. Assim, se não se pode interpretar os outros verbos como ordens de Deus a terceiros, tampouco poderíamos interpretar que o relato de que Deus descansou seja apenas uma ordem para que os seres humanos descansem, conclui o argumento.
O argumento sed contra.
O argumento sed contra simplesmente transcreve Gênesis 2, 2: “Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho”. Ora, o argumento conclui que as Escrituras têm autoridade suficiente para sua própria verdade.
4. Palavras de fechamento.
Estão colocados os pressupostos para a resposta sintetizadora de São Tomás, que examinaremos no próximo texto.
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