1. Retomando.
Como vimos no último texto, a discussão, aqui, é importantíssima, pela fundamentação teológica que o relato bíblico traz ao repouso. Repousar é parte integrante do trabalho ou é algo externo a ele? Quem repousa está, de algum modo, fazendo algo, ou está excluído do seu labor? Em suma, quando aquele que trabalha vem a pausar para contemplar e repousar do seu trabalho, ele está, de algum modo, completando seu trabalho, ou está fazendo algo estranho ao trabalhar? Quem repousa do trabalho está, de algum modo, trabalhando também?
Além disso, outra dimensão deste artigo diz respeito ao próprio encerramento do trabalho de criação. Como se pode dizer que Deus completou seu trabalho no sétimo dia, se ele, de algum modo, continua trabalhando até hoje? A criação não é uma obra aberta, dinâmica? E como poderíamos dizer que a criação terminou no sétimo dia, se a ressurreição de Jesus Cristo consuma os tempos e inaugura uma recriação do mundo, como se vê em Apocalipse 21, 5?
Embora não seja parte do debate feito neste artigo, não podemos deixar de registrar, como já fizemos no primeiro texto, a dimensão profética destes versículos 2 e 3 do capítulo 2 do Gênesis. De fato, ao permanecer no sepulcro (e descer à mansão dos mortos) no sábado após a crucifixão, Jesus consuma o que foi aqui profetizado: Deus consuma a criação, repousa no sétimo dia e, com a ressurreição, dá início à plenitude dos tempos. É por isto que nós, cristãos, não podemos ficar retidos no sétimo dia: é na ressurreição, no primeiro dia da recriação, que nós encontramos a salvação em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Este é o estado do debate. Vamos estudar, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de São Tomás.
Em dois sentidos nós podemos dizer que uma coisa é perfeita:
1. No sentido de que ela é completa o suficiente para existir, ou seja, que ela é íntegra, substancialmente formada. Neste sentido, falamos daquilo que Tomás designa como “perfeição primeira”, que é a capacidade de existir, sendo aquilo que é. Neste sentido, um embrião humano, no momento mesmo da concepção, já possui esta perfeição primeira. E é neste sentido que um escultor, olhando para um bloco de mármore que será usado para uma escultura que ele planeja fazer, pode dizer que o bloco de mármore é perfeito para seu trabalho, embora ele seja apenas o material do qual ele fará a estátua.
2. No sentido da perfeição final, da completude existencial, da plenitude no ser, pela qual uma coisa atinge o seu fim. Agora falamos daquilo que Tomás chama de “perfeição segunda”, que é aquela resultante, por exemplo, de uma vida de estudos, de trabalho árduo, que leva alguém a se tornar um ser humano pleno em virtudes. Para usar o exemplo do escultor, a perfeição segunda daquele bloco de mármore é atingida quando ele termina sua escultura e pode contemplar, por exemplo, sua bela imagem de Moisés ou da Pietá. Agora o bloco não é mais somente o material perfeito para uma escultura; ele se torna efetivamente uma escultura perfeita.
É preciso, pois, ter a perfeição primeira para alcançar a perfeição segunda. Aquilo que não existe não pode atingir sua plenitude. Na estrutura metafísica das coisas, a forma é que determina a matéria, para que a coisa passe a existir. Isto é, a forma é princípio de operação, e não plenitude final. É por isto que um embrião humano já é um ser humano, porque já tem, no seu DNA, toda a informação (in-forma-ção) capaz de determinar sua condição humana. Ele já tem a perfeição primeira. Mas ele não é, ainda, um sábio professor de filosofia, o que ocorrerá após longos anos de estudo, quando ele atingir a perfeição segunda, a perfeição final. Não é ao fim da vida que ele adquire a forma humana, mas no momento mesmo da concepção.
Assim, Tomás vai nos esclarecer que a obra da criação foi terminada no sétimo dia, mas apenas com relação à sua perfeição primeira, isto é, à aquisição das formas que introduzem as coisas em sua existência. A sua perfeição segunda, isto é, a consumação final da criação, dar-se-á apenas no juízo final, quando os justos ressuscitarão para a glória.
Ocorre que tudo aquilo que ocorre entre a aquisição da perfeição primeira (que é a criação) e a perfeição segunda (que é a consumação final dos séculos) já não é mais obra de criação, mas obra de governo divino. A obra de criação termina no sétimo dia.
3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor diz que as coisas que ocorrem hoje em dia também estão incluídas nas obras criadas por Deus. Em especial, diz o argumento, a encarnação de Jesus, que marca a plenitude dos tempos, e sua paixão, morte e ressurreição por nós, de tá modo que ele próprio declara na cruz, ao morrer: “tudo está consumado” (João 19, 30). Assim, não se poderia dizer que a obra da criação terminou no sétimo dia, conclui.
Tomás responde lembrando de novo os conceitos de “perfeição primeira” e “perfeição segunda”. A perfeição primeira é pressuposto da segunda, que não pode existir sem aquela. Para ser perfeito, é preciso, primeiro, ser. Assim, a obra da graça, que recebemos pela encarnação, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, pressupõe a existência da natureza humana. A graça, então, encaminha a natureza humana para a perfeição segunda, que é a salvação final, o gozo da glória divina. A glória, que é o fim do ser humano, pressupõe a natureza, que é a perfeição primeira, e a graça, que nos veio por Jesus. Então, para que se atinja a glória (perfeição segunda), precisamos da obra da criação (perfeição primeira) e a obra da encarnação, que nos oferece o acesso à graça. Esta, por sua vez, pressupõe a criação. Assim, o relato está convenientemente colocado (conclui Tomás), ao narrar a consumação da obra da criação no sétimo dia.
O segundo argumento afirma que para concluir uma obra é necessário estar em operação, ou seja, estar trabalhando. Mas o relato de criação diz que, no sétimo dia, Deus repousou. Ora, se ele repousou, não trabalhou. E se não trabalhou, não foi neste sétimo dia, mas no sexto, que ele concluiu sua obra. E o argumento conclui que o relato é inadequado.
Tomás, em sua resposta, vai nos ensinar que existem pelo menos três interpretações para esta passagem bíblica.
A primeira interpretação diz que foi no sétimo dia que Deus levou as coisas à sua operação, ou seja, é neste sétimo dia que o universo, concluído, entra em operação plena. Assim, embora não tenha realizado nenhuma obra de criação, Deus trabalhou, aqui, inaugurando a sua obra e como que começando seu trabalho de governo, encaminhando as coisas à perfeição segunda.
Outra tradição interpretativa lê o texto como se realmente narrasse a conclusão das obras no sexto dia, e não no sétimo, no sentido de que o sétimo dia não é um dia de criação, mas de consumação, no qual aquilo que foi feito por partes alcança a condição de todo, ou seja, vira de fato um universo.
Por fim, a terceira corrente de interpretação lembra que o movimento prossegue até o ponto de chegada. O ponto de chegada não está fora do movimento, mas marca sua consumação. Assim, somente o repouso do sétimo dia, quando Deus declara que tudo o que ele quis criar estava criado (atual ou potencialmente), é que marca o término da obra de criação. Neste sentido, o ponto final é parte integrante do texto, e o sétimo dia (no qual Deus, repousando e contemplando, coloca um ponto final em sua atividade criadora) marca o término da obra da criação. Esta é uma interpretação muito interessante, que inclui o repouso na lógica do trabalho, sem estabelecer uma cisão entre os dois momentos.
Por fim, o terceiro argumento diz que nada do que está feito e consumado pode continuar recebendo acréscimos. Mesmo as coisas novas que se acrescentam àquilo que já está completo são apenas coisas supérfluas, adornos desnecessários, acréscimos acidentais. Mas, prossegue o argumento, muitas coisas foram produzidas apenas depois do sétimo dia, como aqueles vermes e animais que se alimentam da matéria orgânica putrefata de animais e humanos mortos(já que a morte não poderia existir no paraíso). Além disso, diz o argumento, as almas humanas são criadas uma a uma por Deus, porque, sendo espirituais, não podem resultar simplesmente do ato de reprodução material dos genitores; o nascimento de novos seres humanos seria, portanto, obra de criação divina que se prolonga para além do sétimo dia. Por fim, diz o argumento, temos que considerar a obra de redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, que somente na ressurreição se consuma, além dos milagres, que alteram o curso das coisas naturais, e da salvação final, na consumação dos tempos, quando os justos ressuscitarão para a glória. Tudo isto demonstra, conclui o argumento, que o sétimo dia não marca o término da obra de criação.
Em sua resposta, Tomás diz que Deus, de fato, continua regendo o mundo, agindo na história e governando e renovando as coisas.
Mas nada do que é feto por Deus após o sétimo dia representa uma verdadeira criação, no sentido da introdução de algo verdadeiramente novo na criação.
De fato, por exemplo, no segundo relato da criação, que inicia-se em Gênesis 2, 4b, há a narração da criação da mulher (que o primeiro relato registra como simultânea à do homem, no sexto dia, Gn 1, 27). Neste caso, diz Tomás, a mulher foi criada virtualmente, preexistindo materialmente no homem, do qual é tirada no relato da formação a partir da costela em 2, 21.
Quanto ao fato de que nem todas as espécies de vegetais e animais existiram desde os primeiros tempos, Tomás lembra que nem tudo foi criado em ato, mas tudo existe, ao menos virtualmente, como potência, nos primeiros seres. Se há, pois, algum tipo de adaptação das espécies, é porque a capacidade de adaptar-se já estava presente desde o início. Que as espécies não são rigidamente fixas, e que há a possibilidade de intercâmbio e transformações nelas, vê-se, por exemplo, da existência de seres vivos híbridos, como os burros, que resultam do cruzamento entre jumentos e éguas. Tudo isto, porém, está contido desde o princípio nos limites da criação.
Quanto à criação individual das almas humanas, diz Tomás, não representam uma inovação na criação, porque são criadas com identidade humana, ou seja, são semelhantes em tudo, em dignidade e em essência, aos primeiros humanos criados por Deus. Mesmo a obra da redenção, feita por Nosso Senhor, já estava pré-configurada no paraíso em que viveram nossos pais, no qual a graça original os permitia conviver com Deus, e do qual decaíram por culpa própria. Por fim, mesmo a glória final da consumação dos tempos, no Juízo Final, foi pré-configurada na criação e salvação (ou queda) dos anjos, que abriram caminho para os humanos justos alcançarem a santidade. Após o sétimo dia, como diz o Livro do Eclesiastes (1, 9), não há nada de novo debaixo do sol, porque tudo já existiu, de um modo ou de outro, desde aqueles primeiros momentos.
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