1. Palavras iniciais.

O sétimo dia é uma verdadeira profecia. De fato, quem poderia imaginar, antes do advento de Nosso Senhor Jesus Cristo, que Deus, de fato, descansaria um dia inteiro, como fez Jesus no sábado em que passou no sepulcro?

Mas estamos nos adiantando. A importância do sétimo dia neste relato ultrapassa as fronteiras teológicas. De fato, ao estabelecer um ritmo semanal para o trabalho de Deus, o relato da criação fez construir todo um ritmo de descanso e trabalho que permanece vigente até hoje, e repercute até mesmo em povos e nações que não pertencem à tradição judaico-cristã, gerando direitos trabalhistas e sociais. Mas tampouco é disto que trataremos aqui.

É muito interessante a informação de que Deus teria terminado sua obra no sétimo dia, e não no sexto. De fato, principalmente com a nossa mentalidade ativista contemporânea, tendemos a imaginar que o descanso é algo alheio ao trabalho, e portanto quem descansa não está fazendo nada. Mas não é esta a mentalidade bíblica. De fato, no sétimo dia, não há nenhuma obra imputada a Deus, mas o relato diz que foi neste sétimo dia que ele terminou sua obra da criação. Nossa tendência seria imaginar que ele a terminou no sexto dia, para descansar no sétimo. Mas o relato inclui o descanso divino na obra de criação, ou seja, ao descansar, ele não estava se colocando além ou fora do seu trabalho criador, mas o descanso é parte do trabalho criador. Ao descansar, ele cria. Cria o descanso como parte da obra. Isto é maravilhoso. Não podemos imaginar o descanso, aqui, como acídia ou inação, mas como o repouso, o gozo daquilo que se fez. Quem descansa sem participar da obra é um preguiçoso, mas quem trabalha sem descansar é um obsessivo. Não é à toa que o número da Besta, segundo Apocalipse 13, 18. É que o Diabo, a Besta, nunca chega ao sete, nunca termina nada, não usufrui, não repousa para contemplar o que fez. O Diabo é incompletude, ativismo incessante, é uma falta de fim, de fechamento, de descanso verdadeiro. Tema importantíssimo, portanto. Mas voltemos ao texto de Tomás.

Aqui, mais uma vez, o debate é hermenêutico. Trata-se de ouvir as objeções que possam existir contra o texto bíblico, para testar e defender sua autoridade. Importantíssimo, pois, determinar que, segundo o relato bíblico, o repouso, a contemplação, o descanso, a pausa para desfrutar, é parte integrante da criação. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que não foi no sétimo dia que Deus terminou a obra da criação, e portanto a informação de Gênesis 2, 2 seria equivocada. Há três argumentos objetores, que tentam comprovar esta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor afirma que tudo o que está acontecendo em nossos dias também se inclui na obra da criação. De fato, prossegue o argumento, a encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo marca a plenitude dos tempos (Hb 1, 1). Ora, isto parece demonstrar que a obra da criação permanece inacabada até a chegada de Jesus, que é o tempo em que alcança a plenitude. Mas não se pode esquecer, diz o argumento, que o próprio Jesus, ao entregar o seu Espírito na cruz, nos diz: “está consumado” (João 19, 30). E, além disso, o Apocalipse termina (22, 20) com um apelo: “Vem, Senhor Jesus”. O argumento quer demonstrar, portanto, que esta fala de Jesus mostra que no sétimo dia a obra da criação as coisas não estavam terminadas, e portanto o relato bíblico é inconveniente, conclui.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento quer demonstrar, exatamente, que o descanso está fora do trabalho. Quem descansa não faz nada, diz o argumento, mas quem completa uma obra está fazendo alguma coisa. Mas o relato bíblico nos diz que no sétimo dia “Deus descansou de suas obras” (Gn 2, 2). Assim, seria contraditório imaginar que, ao mesmo tempo, ele “terminou a sua obra”, como se lê no começo deste versículo, e ao mesmo tempo tenha descansado dela. Assim, o argumento conclui que a narrativa é equivocada.

O terceiro argumento objetor.

Por fim, o terceiro argumento objetor, que é o mais longo, afirma, logo no início, que tudo o que está terminado, ou seja, que apresenta a perfeição no ser, já não precisa de mais nada. Logo, quando muitas coisas precisam ser acrescentadas a algo, sem que estes acréscimos sejam simplesmente supérfluos, (meramente decorativos, por exemplo) é porque este algo não estava terminado ainda. Mas, prossegue o argumento, muitas coisas foram acrescentadas à obra da criação depois do sétimo dia, e que não eram coisas meramente supérfluas. Novas espécies de animais (na época de Tomás, pensava-se na geração espontânea, mas hoje podemos pensar na evolução das espécies), a criação individual das almas humanas e mesmo a obra da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos milagres ocorreram, que são como que inovações na criação, e mesmo a salvação dos santos, que povoou o céu e, por fim, a obra da recriação consumada apenas na ressurreição, em que Deus, em Jesus, fez “novas todas as coisas”, como se diz em Apocalipse 21, 5. Assim, conclui o argumento, não se pode dizer que o sétimo dia representa a conclusão da obra da criação.

O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente transcreve Gênesis 2, 1, e no sétimo dia Deus terminou a obra que tinha feito. Ou seja, reafirma a verdade bíblica.

4. Palavras conclusivas.

Vistos, pois, os elementos do debate, veremos as respostas de Tomás no próximo texto.