1. Palavras de revisão.

Nos dois artigos anteriores, vimos o debate sobre o sexto dia da criação. Examinamos a hipótese controvertida de que o relato deste dia seria inconveniente, e os seis argumentos objetores neste sentido. Examinamos também a resposta sintetizadora de Tomás e a sua resposta ao primeiro argumento objetor. Passaremos, agora, a estudar as suas respostas aos argumentos iniciais, do segundo ao sexto.

2. A resposta aos argumentos objetores iniciais.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento diz que não se pode proceder a uma classificação comparando um gênero com uma das espécies que ele contém. Assim, ao dividir os animais em “domésticos, rastejantes e selvagens”, o relato faria uma divisão inconveniente, porque “rastejantes” não é uma subdivisão ao lado de “domésticos e selvagens”. Assim, o relato conteria um erro de lógica, e seria inconveniente.

Tomás responderá dizendo que o relato visa uma simples enumeração, não uma classificação lógica. Assim, ao lado dos animais domésticos, ele cita os animais selvagens, que rastejam e os que se erguem sobre as patas, para incluir todas as criaturas que se locomovem, sejam como répteis sem patas, sejam insetos, quadrúpedes ou mesmo bípedes, como certos primatas. A intenção do texto é reunir todos os seres que se locomovem no solo, de modo a diferenciá-los, por um lado, das plantas, peixes e aves, e por outro dos seres humanos, que são animais espirituais. Esta intenção demonstra que o escritor sagrado não visava construir nenhum sistema de classificação, mas incluir todos os seres deste tipo na noção de “criatura”.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento, por seu turno, lembra que, ao descrever a criação dos seres vivos, plantas e animais em geral, como peixes, aves e animais terrestres, o relato faz questão de registrar que eles foram criados “segundo a sua espécie”. O ser humano, lembra o argumento, é um ser vivo, e é do gênero dos animais, e está classificado sob uma espécie própria. Mas, ao narrar a criação dos seres humanos, o relato bíblico omite a sua relação com a sua espécie. Assim, o relato é inadequado, diz o argumento; pois, para haver simetria, ele deveria omitir esta informação também com relação aos demais seres vivos.

Há duas razões possíveis pelas quais o relato bíblico quebra esta simetria, diz Tomás, e nos apresenta sua própria interpretação deste aspecto bíblico.

A primeira razão é simples: o ser humano é um ser vivo, do gênero dos animais. Ora, ao relatar a criação dos animais, o relato já havia deixado claro que os animais foram criados “segundo as suas espécies”. Não seria necessário, portanto, repetir esta informação no relato de criação do ser humano.

A segunda razão é mais teológica: de fato, na narração dos seres vivos em geral, a sua individualidade reflete a similitude da espécie, que é a fonte da sua estrutura. Cada indivíduo de uma espécie é constituído, portanto, à imagem e semelhança da respectiva espécie. Mas, no relato da criação humana, o escritor sagrado tinha um outro objetivo em mente: ressaltar que os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus! Assim, ao omitir a questão da espécie, ressalta-se a peculiaridade dos seres humanos no plano da criação.

O quarto argumento objetor.

Mais uma vez, aqui, o objeto da impugnação é a falta de simetria no texto. De fato, no versículo 28, diz o argumento, Deus abençoou o ser humano, após criá-lo. No versículo 22, Deus abençoa os peixes e as aves. Os animais terrestres, prossegue o argumento, são muito mais próximos dos seres humanos do que os peixes e as aves. No entanto, no relato deste sexto dia, ao narrar a criação dos animais terrestres, não se narra nenhuma bênção de Deus a eles. Ora, muito mais razão teria Deus para abençoá-los, do que para abençoar peixes e aves. Disto, o argumento conclui que a narrativa da criação é inconvenientemente estruturada.

Tomás vai iniciar sua resposta lembrando o que significa falar em “bênção de Deus”, neste contexto do relato da criação. A bênção de Deus significa a concessão do poder de multiplicar-se, de gerar vida, de povoar a terra. Assim, diz Tomás, seria desnecessário repetir para os animais terrestres a bênção que já fora dada aos peixes e aves, e que também os beneficia. Para os seres humanos, o relato achou conveniente repetir a bênção, por uma razão especial: trata-se não somente de povoar a terra, como no caso dos outros animais, mas também preencher o número dos eleitos, isto é, daqueles que formarão a comunhão dos santos e chegarão ao céu. Com isto, ou seja, com a bênção, o relato quer deixar claro, também, que o sexo não é pecado, nem foi o sexo o pecado chamado de “original”, já que a reprodução é consequência da bênção do próprio Deus. Com relação às plantas, diz Tomás, o fato de que sua reprodução é algo dissociado de qualquer relação afetiva com o parceiro ou a prole torna desnecessário dirigir a elas uma bênção especial, de tal modo que não foram consideradas dignas de recebê-la.

O quinto argumento objetor.

Como já vimos, a ciência do tempo de Tomás dava por certa a geração espontânea de certos seres vivos, como os vermes que surgem na carne podre. Mas a putrefação é uma destruição, a corrupção resultante da morte; ora, destruição, corrupção, morte e apodrecimento não deveriam ser realidades presentes no paraíso. Logo, há animais, como os vermes de apodrecimento, que não poderiam ser criados neste momento. Disto o argumento conclui que o relato é inadequado.

O ciclo de geração e corrupção, dentro de certos limites, é próprio à realidade dos seres vivos corporais, e não uma pena pela queda no pecado, explica Tomás na sua resposta. Mesmo no Paraíso, havia a alimentação dos animais e dos seres humanos, capazes de consumir vegetais para nutrir-se. Assim, não haveria contradição em imaginar a existência de seres provenientes da corrupção e apodrecimento dos vegetais ou mesmo da destruição de seres inanimados. Quanto aos animais e humanos, estavam fora do ciclo de vida e morte, porque não faziam parte do primeiro ciclo de alimentação no Paraíso. Assim, a criação de seres eventualmente resultantes do apodrecimento de matéria orgânica animal deu-se apenas como uma possibilidade, como potencialmente existentes, em razão de que a onisciência divina podia prever a queda. Hoje, diríamos simplesmente que não há nenhuma geração espontânea de vida, e por isto a objeção não procede.

O sexto argumento objetor.

Por fim, o último argumento objetor afirma que há muitos animais nocivos ao ser humano, como os venenosos e peçonhentos. Ora, diz o argumento, no Paraíso não deveria existir nada nocivo. Apenas após a queda, como castigo do pecado, é que foi estabelecida a oposição entre o ser humano e o resto da natureza, de tal modo que alguns animais e plantas passassem a fazer mal ao ser humano. Assim, o relato da criação, ao narrar genericamente a produção dos seres vivos, é inadequado, porque não excepcionou estes seres malignos da existência, antes do pecado.

Tomás responderá fazendo uma analogia: imaginemos uma grande marcenaria, de um hábil marceneiro, repleta de ferramentas e instrumentos próprios de sua profissão. Certamente, se alguém que desconhece a arte da marcenaria entrar ali (imaginemos que seja uma criança curiosa), poderá ferir-se nos instrumentos e ferramentas que, na mão do marceneiro, jamais lhe causariam mal algum. Assim, aquele leigo em marcenaria, ou aquela criança curiosa, poderiam concluir que uma marcenaria é um lugar cheio de objetos malignos, enquanto, para o marceneiro, é um lugar cheio de coisas úteis e adequadas à sua profissão.

Assim, algumas coisas que parecem nocivas ao ser humano, em razão da desarmonia causada pelo pecado, eram apenas partes integrantes da natureza antes do pecado, e certamente não causariam mal ao ser humano, que, em harmonia com Deus e com a criação, conheceria adequadamente todos os seres e a maneira própria de lidar com eles.

3. Palavras conclusivas.

Encerramos, assim, a questão 72, que tratou do sexto dia. Entraremos na questão 73, que trata do sétimo dia – tema interessantíssimo – a partir do próximo texto.