1. Retomando.

Vimos, então, que o debate, agora, envolve a obra do sexto dia, isto é, a ornamentação do solo enxuto, com a criação dos animais e dos seres humanos. Vimos a hipótese controvertida de que a narração bíblica deste sexto dia é inadequada, e os seis argumentos objetores, que tentam comprovar a inadequação. O argumento ser contra simplesmente reafirma a autoridade bíblica. Examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

A resposta sintetizadora é simples e direta. Ele nos lembra, mais uma vez, que o relato da criação, ou seja, a narração dos seis dias, é dividido em dois tríduos. No primeiro tríduo narra-se a estruturação do universo, céu, água e terra. No segundo tríduo, narra-se a ornamentação destes três espaços já estruturados. O céu, criado no primeiro dia, é ornado de astros no quarto dia. As águas, divididas no segundo dia, são ornadas de peixes e aves no quinto dia. E, finalmente, o solo enxuto, que emerge no terceiro dia, é ornado de animais e de seres humanos no sexto dia. Assim, de fato, tanto o terceiro quanto o sexto dia referem-se ao solo enxuto; o terceiro, como estruturação, o sexto como ornamentação.

A posição de Santo Agostinho.

Tomás não pode deixar, mais uma vez, de comentar a peculiaridade da posição de Santo Agostinho, frente aos demais Padres da Igreja. A maioria dos Padres antigos entende que a criação deu-se através do estabelecimento dos primeiros exemplares de cada animal, sendo efetivamente tirados do nada por Deus. A partir daí, eles proliferariam através da reprodução. É uma posição fixista, portanto: tudo o que haveria de existir, em termos de seres vivos, foi criado nestes “dias”, e existe de modo idêntico até hoje. Esta posição reflete, de modo geral, aquilo que os chamados “criacionistas” defendem ainda hoje. Mas a posição de Santo Agostinho é um tanto diferente. Ele entende que, neste trabalho de criação, Deus estabeleceu tudo o que existe e vai existir, sem que necessariamente tudo exista desde o primeiro dia. Assim, a posição de Agostinho seria perfeitamente compatível com a ideia, por exemplo, da extinção dos dinossauros, ou da evolução das espécies.

3. A resposta aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento diz que, uma vez que todos os seres vivos são constituídos de corpo e alma viva (anima), é inconveniente que apenas os seres terrestres sejam chamados de “animais”, como se eles fossem idênticos à sua “anima”. Assim, em vez de dizer à terra que produza animais, Deus deveria ter ordenado que ela produzisse seres vivos terrestres. A palavra “animal” deveria designar, pois, o conjunto da criação dos seres vivos, conclui o argumento.

Em sua resposta, Tomás vai resgatar o ensinamento de São Basílio: o relato de criação trata diferentemente os seres vivos, porque a vida não se expressa do mesmo modo neles.

De fato, a criação dos vegetais está incluída no terceiro dia da criação, porque eles têm o grau mais simples, mais baixo, de vida, que é a vida vegetativa. Basicamente, têm em si a capacidade de reprodução, à qual estão ordenadas tanto a capacidade de nutrição quanto a capacidade de crescimento. Em suma, nos seres vegetais, há pouca intensidade de vida, e a sua integração ao mundo inanimado prevalece sobre sua estrutura vital. Vale dizer, eles são muito mais próximos dos minerais do que dos animais, diz Basília.

Dentre os animais, os aquáticos e os voadores são os mais simples, em termos de estrutura vital. São pouco reativos, pouco capazes de decisões e de variações de comportamento. Sua sensibilidade é baixa e sua memória e estimativa são inferiores aos dos animais mais perfeitos, como os mamíferos terrestres. Assim, a criação destes animais é descrita no quinto dia. Por fim, os animais superiores, terrestres, são, segundo Basílio, dotados de uma vida muito mais plena, mais perfeita, a tal ponto de se dizer que eles são muito mais seres vivos do que apenas (como no caso das plantas) coisas dotadas de vida. A vida sensível, a memória, a estimativa, a capacidade de alterar comportamentos e de resolver problemas, tudo demonstra um grau de perfeição muito grande nestes seres, a demonstrar que a sua estrutura viva, a sua anima, prevalece neles sobre o elemento material. É por isto que, diferentemente dos vegetais, que são quase como “minerais que se reproduzem”, os animais são verdadeiras “vidas incorporadas”, e por isto podem, com toda justiça, receber a designação de “animais”, vale dizer, de “seres viventes” em sentido próprio. Há, aqui, em Basílio, uma intuição profunda da noção de evolução da vida, em sua complexidade, como que pressuposta no relato da criação.

Por fim, diz Basílio, no relato da criação do ser humano, a Bíblia não retrata nenhuma ordem de Deus à água ou à terra. Vale dizer, o ser humano, em sua espiritualidade, não poderia ter surgido apenas de uma determinada organização natural de matéria, mas precisou de uma intervenção direta da atividade criadora de Deus para constituir-se. Há algo no ser humano, portanto, que ultrapassa a vida de plantas e animais, e que não é resultado da simples arrumação dos elementos. O relato bíblico expressa isto pela forma que Deus determina a criação dos seres humanos, ou seja, não há aqui nenhuma ordem aos elementos naturais para que o produzam, como no caso dos outros seres vivos.

4. Breves palavras conclusivas.

As outras respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais merecem uma análise mais detida. Faremos isto no próximo texto.