1. Breves palavras introdutórias.

No artigo anterior que estudamos em três textos, a questão 71 debateu a criação das aves e peixes, para ornamentar as águas e a atmosfera; houve apenas um artigo, naquela questão. Aqui também, nesta questão 72, há um único artigo para debater este sexto dia, a partir da ideia de que a narração bíblica é inconveniente. Mais uma vez, a ideia de fundo é trazer as visões da ciência e da filosofia natural da época para demonstrar que o relato está errado.

É claro que tais impugnações fundamentam, em última instância, no seguinte pressuposto: se a Bíblia foi ditada por Deus, então ela deve ter sido escrita sob uma visão de onisciência. Ora, Deus é onisciente. Se ele ditou de fato a Bíblia, ela não poderia conter erros de ciência sobre os fatos que dita. Mas o relato de criação, dizem os argumentos objetores, divergem profundamente daquilo que a ciência e a filosofia da natureza demonstram que é a verdade sobre a natureza. Logo, concluem, o relato bíblico da criação é falso.

Mas esta é uma visão equivocada sobre a natureza da revelação bíblica. Não há, ali, um ditado de Deus a Moisés, como alguns acreditavam. Existe, isto sim, uma relação muito profunda do autor bíblico (que é anônimo) com o Espírito Santo, que respeita a cultura e a história do escritor. O objetivo da revelação não é ensinar ciência, nem desvelar a estrutura metafísica das coisas. Trata-se, isto sim, de revelar Deus na história humana e mostrar-nos o caminho da salvação. É isto que nos ensina a Dei Verbum, 12, quando nos aconselha a buscar, na Bíblia, “o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu servindo se os gêneros literários então usados”. Não vamos impor, ao texto bíblico, objetivos e conteúdos que ele não tem e não poderia ter.

Mas chega de digressões. Vamos ao texto do artigo.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida simplesmente afirma que o texto bíblico do relato da criação, ao descrever a obre deste sexto dia, é inconveniente. Está estabelecido, portanto, o debate, para o qual o artigo coleciona seis argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento objetor impugna o relato bíblico, no versículo 24, que diz: “Deus disse: ‘Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo a sua espécie’. E assim se fez”. O argumento quer analisar a questão da vida. É fato, diz o argumento, que qualquer ser vivo caracteriza-se por ter, como forma estrutural, uma alma, ou seja, um princípio formal vivo. A alma não se identifica com o animal, mas é apenas um dos elementos estruturais que o compõem; de fato, o corpo é composto de elementos inertes, ao tempo em que a alma é a estrutura viva desses elementos. Ora, a palavra “anima” significa “alma”, em latim, e é dela que deriva, também, a palavra “animal”. Assim, ao narrar a criação falando na produção de seres vivos chamados de “animais”, o relato comete uma imprecisão e uma redundância, já que “animais” são seres vivos, e é desnecessário narrar a criação de “seres vivos” e falar em “animais”, depois. Mesmo porque, por este critério, os vegetais, que também têm forma viva (alma), deveriam ser chamados de animais, também. Mais adequado e mais preciso, portanto, seria narrar simplesmente a criação de seres corporais sensíveis dotados de forma viva, em vez de falar, de modo redundante, em “seres vivos” e “animais”. Disto, o argumento conclui que o relato bíblico é inadequado.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor traz uma afirmação pertencente à lógica. Quando classificamos alguma coisa, colocamos estas coisas num conjunto mais amplo, chamado “gênero”, e depois subdividimos este conjunto em diversos subconjuntos menores chamados de “espécies”. Ora, há animais domésticos que são quadrúpedes, como há animais selvagens que são quadrúpedes, e que pertencem, portanto, ao mesmo gênero.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que o relato bíblico, ao narrar a criação dos animais irracionais, faz menção ao fato de que os criou “segundo suas espécies”. Mas o ser humano é, também, um animal. E também está classificado em gênero e espécie. Mas o relato deixa de mencionar este dado, quando descreve a criação do ser humano. Assim, conclui o argumento, o relato é inadequado.

O quarto argumento objetor.

A narração da criação dos peixes e das aves é concluída com uma bênção divina, no versículo 22. Também a criação dos seres humanos é concluída com uma bênção, no versículo 28. Mas na criação dos animais terrestres, narrada nos versículos 24 e 25, não há nenhuma bênção dirigida a eles da parte de Deus. Ora, isto quebra a simetria, e desconsidera o fato de que os animais terrestres estão mais próximos do ser humano do que as aves e os peixes. Assim, o argumento conclui que o relato é inadequado.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento objetor lida com a ideia da geração espontânea, que era aceita pela ciência daquele tempo. De fato, acreditava-se que a matéria em putrefação seria capaz de fazer surgir espontaneamente a vida, na forma de vermes e pequenos insetos, como acontecia nos cadáveres e nos excrementos. Mas a putrefação, diz o argumento, é um tipo de destruição, ou seja, pressupõe a morte e corrupção dos seres. Mas este tipo de destruição, ou seja, a corrupção dos seres, sua decadência e desintegração, são coisas incompatíveis com o estado de perfeição primeira da criação. Assim, conclui o argumento, há toda uma categoria de animais que não poderiam ser criados neste momento, o que mostraria uma falha do relato.

O sexto argumento objetor.

Existem animais, diz o relato, que são claramente nocivos ao ser humano, como certos predadores e animais peçonhentos. Mas, no estado da criação, o ser humano estava no paraíso, no qual nada poderia ser mau. Assim, nenhum animal deste tipo poderia ter sido criado por Deus, porque o próprio relato narra que tudo o que Deus fez era “bom”. Ao não excepcionar estes animais, portanto, o relato bíblico é inconveniente, conclui o argumento.

3. O argumento sed contra. Palavras conclusivas.

O argumento sed contra simplesmente reafirma a autoridade das Escrituras.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás de Aquino.