1. O estado do debate.

No último texto, examinamos a resposta sintetizadora de Tomás. Examinamos, também, o modo pelo qual ele responde ao primeiro argumento objetor inicial, a partir dos princípios que estabeleceu na sua própria resposta sintetizadora. Examinaremos, agora, os demais argumentos objetores.

2. Os argumentos objetores seguintes.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor parte de uma ideia similar à do primeiro. De fato, diz este argumento, o corpo dos peixes e aves são compostos de muitos outros elementos além da água, elementos que são, aliás, muito mais importantes que a água para a sua composição. Além disso, esses elementos estão muito mais relacionados à terra do que à água, pelo que faria muito mais sentido que o relato narrasse Deus dirigindo-se à terra para formar os peixes e as aves, e não às águas, conclui o argumento.

Tomás responderá que há duas maneiras para se considerar este relato, quanto à relação entre os animais descritos ali e as águas. O primeiro modo de considerar seria levar em conta que os outros elementos, relacionados com a terra, são muito mais importantes do que a água, na composição dos corpos vivos. Mas há uma segunda maneira, que diz respeito ao ambiente no qual os peixes existem: neste caso, uma vez que são animais aquáticos, faz todo sentido que, no relato da criação agora estudado, Deus se dirija às águas para criá-los.

O terceiro argumento objetor.

Respondo o argumento anterior, passa-se ao terceiro argumento, que introduz a questão das aves. Se a criação dos peixes foi atribuída às águas em razão do fato de que este é o ambiente em que vivem, como se viu na resposta do argumento anterior, então seria de esperar-se que a criação das aves fosse atribuída ao ar, e não às águas, como faz este versículo 20. Assim, o argumento conclui que o relato é inadequado.

Tomás responde que, uma vez que o ar é algo que não pode ser diretamente atingido pelos nossos sentidos, a atmosfera é sempre mencionada indiretamente, nas Escrituras; ela se relaciona com as águas, na sua parte inferior, e com o firmamento do céu, na parte superior. Ou seja, a atmosfera seria estabelecida como que por exclusão: é o espaço entre as águas e o firmamento. Mas, neste espaço, a influência das águas é inegável, quer por causa da evaporação que forma as nuvens e as chuvas, quer porque a atmosfera seria o espaço que separa as águas inferiores das superiores, como se lé no versículo 6. Assim, uma vez que as aves voam no céu, que é visto como um ambiente sob tanta influência das águas, e uma vez que há um paralelismo com os peixes, que nadam nas águas, (as aves seriam algo como “nadadores do céu”), o relato bíblico entendeu conveniente associar a criação das aves às águas, também.

O quarto argumento objetor.

Há peixes que são capazes de sobreviver na terra, e inclusive de passar parte da sua vida ali. No tempo de Tomás, entendia-se que as focas seriam um exemplo disso. Hoje, sabemos que as focas são mamíferos, mas a nossa ciência conhece peixes pulmonados, capazes de sobreviver em terra firme. Assim, o argumento conclui que relacionar os peixes exclusivamente à água é uma falha deste relato bíblico.

Na sua resposta, Tomás mostra mais uma vez sua grande abertura intelectual. A natureza, quanto às espécies de seres vivos, guarda grande flexibilidade, e tende a ocupar todos os nichos ecológicos. Por isto, há animais que são elos entre outros, ou seja, que têm características intermédias entre espécies e mesmo entre habitats. Assim, não haveria sentido em esperar que o relato bíblico fizesse uma catalogação de todos os animais e de suas características intermédias. Para incluir todos os tipos de animais, o relato bíblico, no versículo 21, diz que “Deus criou os monstros marinhos e toda a multidão de seres vivos que enchem as águas, segundo a sua espécie, e todas as aves segundo a sua espécie”. Isto parece, pois, incluir toda a fauna aquática e mesmo os seres intermédios. Esta leitura de Tomás nos permite, hoje, conciliar perfeitamente a intenção do escritor bíblico com os modelos científicos que propõem a adaptação e mesmo a evolução das espécies; são intenções diversas, níveis diferentes de inteligência.

O quinto argumento objetor.

Por fim, o quinto argumento objetor realça o fato de que o relato bíblico sempre parte do mais amplo ao mais específico, e que, portanto, relata o mais perfeito antes do menos perfeito. Assim é que primeiro se narra a criação do céu, enquanto a criação do solo enxuto é a última coisa a ser narrada nos três primeiros dias da obra de estruturação do universo. Assim, prossegue o argumento, uma vez que os animais terrestres são mais perfeitos que os peixes e até mesmo que as aves, sua criação deveria ser narrada em primeiro lugar, e portanto o relato de criação é inconveniente, conclui o argumento.

A intenção do relato, aqui, é a simetria entre a obra de ornamentação, narrada nos três dias finais (quarto, quinto e sexto dias) e a obra de estruturação, narrada nos três primeiros dias, diz Tomás. Assim é que no quarto dia narra-se a ornamentação dos céus, cuja criação se deu no primeiro dia, e no quinto dia é narrada a ornamentação das águas, cuja organização se deu no segundo dia. No entanto, diz Tomás, não se pode esquecer que o relato bíblico, ao escalonar os animais num crescendo, que vai dos menos perfeitos aos mais perfeitos, deixa entrever o respeito ao dado científico e natural de que os animais menos perfeitos podem ter, de algum modo, dado origem, por algum processo de geração, aos mais perfeitos. Tenho a exata sensação de que Tomás parece intuir algum tipo de evolução entre os seres vivos.

3. Encerrando.

Esta questão 71 é composta de apenas um artigo, que estudamos em três textos. No próximo texto adentraremos a questão 72.