1. Retomando.

O quinto dia da criação é descrito, no relato bíblico, como aquele dia em que foram criados os peixes e as aves. No último texto, vimos a hipótese controvertida de que o relato bíblico, ao narrar o quinto dia da criação, fez uma narração inconveniente. São cinco os argumentos objetores, que giram em torno da ciência da época; trariam a ideia de que o relato se equivocou, ao atribuir à água a única causalidade material dos animais, ou ao relacionar as aves junto com os peixes, ou ao narrar a criação de aves e peixes antes de narrar a criação dos animais superiores, como os mamíferos.

O argumento contrário simplesmente reafirma a autoridade bíblica, o que não é suficiente para fundamentar a razão da fé, que é o objetivo de Tomás, na Suma.

Examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Na sua resposta sintetizadora, Tomás lembra a simetria entre as obras dos três primeiros dias e a obra dos três últimos. Nos três primeiros dias, em que Deus trabalhou na distinção dos ambientes, das estruturas, há, claramente, uma sequência do céu à terra, passando pela água. Vale dizer, no primeiro dia organiza-se o céu, no segundo as águas e no terceiro a terra. Assim, no quarto ornamenta-se o céu com os astros, no quinto ornamentam-se as águas (inferiores, com os peixes e superiores, com as aves) e, no sexto, ornamenta-se a terra, culminando com a criação do ser humano.

Estamos, aqui, portanto, no quarto dia; o relato enfoca, portanto, o ornamento das águas (inferiores e superiores) narrando a criação de peixes e aves. É o dia intermediário do segundo tríduo, como a separação das águas foi o dia intermediário do primeiro tríduo. É uma sincronia profundamente litúrgica, portanto. Esta é a estrutura da narração; na época de Tomás, quando a Suma foi escrita, imputava-se esta estrutura ao próprio Moisés como narrador. Hoje, as teorias exegéticas atribuem este primeiro relato bíblico a uma tradição redacional de sacerdotes, tal a sua beleza litúrgica.

A leitura de Santo Agostinho.

Para concluir sua resposta, Tomás registra que Santo Agostinho tem uma posição peculiar, uma leitura própria deste relato de criação. Para Santo Agostinho, o relato aqui estudado não estabelece uma sucessão de eventos no tempo, ou seja, não se trata de uma cronologia, mas de um relato de origem. Quando, pois, a Bíblia narra que no quinto dia Deus criou os peixes e as aves, Santo Agostinho entende que, nesta sequência, Deus estabeleceu, na natureza, a capacidade de produzir todos os peixes e aves que existiriam ou ainda existirão até o final dos tempos. Ou seja, Deus criou em quinto lugar a potência para todos os peixes e aves que existiram ou existirão. Deus definiu, nesta sequência inicial, o modo concreto pelo qual cada um deles virá a existir durante a história, ou seja, não há, na narração, nenhuma incompatibilidade com qualquer descrição concreta da ciência sobre o modo pelo qual o universo de desenvolve na história. É uma visão muito interessante, que preserva, no relato bíblico, sua dimensão teológica, dando, ao mesmo tempo, liberdade para que os modelos científicos possam suceder-se na história do conhecimento.

3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

Havendo colocado os fundamentos para encaminhar uma solução satisfatória para o debate, Tomás passa a revisar os argumentos objetores iniciais. Veremos, neste texto, apenas a resposta ao primeiro deles. Os argumentos seguintes serão tratados no próximo texto, para não tornar longo demais este exame.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que as águas podem produzir, naturalmente, aquilo que é feito de água. Ela tem o poder de criar gelo, ou de criar vapor, por exemplo. Mas ela não tem em si, naturalmente, o poder de gerar animais. Estes precisam, para ser gerados, do encontro dos gametas dos genitores, ou seja, da união entre o sêmen e o óvulo dos pais, no caso dos seres de reprodução sexuada; ou, ao menos, de um ser originário que se reparta, no caso da reprodução assexuada. Em todo caso, seria um absurdo que Deus tivesse ordenado às águas que produzissem peixes e aves, porque não está no poder das águas produzi-los. Logo, conclui o argumento, a narração bíblica é equivocada e inconveniente.

Em sua resposta, Tomás vai lembrar que, no âmbito da filosofia da natureza, há diversas visões sobre a questão da origem dos seres vivos. Avicena, por exemplo, defendia que, se houvesse a reunião dos elementos adequados, na proporção correta, e presentes certas condições excepcionais, a vida poderia surgir espontaneamente na natureza, e qualquer animal poderia ser gerado por geração espontânea.

Há, ainda hoje, grandes pesquisas em laboratório que tentam fazer surgir vida a partir da reunião de elementos orgânicos com determinadas condições de energia. Estas tentativas têm resultado na produção de clones de seres vivos, têm produzido a chamada fecundação in vitro e até mesmo tem produzido mutações em seres mais simples, como vírus e protozoários. Mas ainda não se conseguiu simplesmente gerar vida a partir de matéria inerte, como defendia Avicena.

Tomás conhece a ciência do seu tempo. Naquela época, a ciência acreditava que determinados seres, como as larvas de mosca que surgem na carne putrefata, são formados por geração espontânea, pela força da influência do sol e dos astros em geral sobre a matéria orgânica em putrefação. Mas a mesma ciência daquele tempo já observava que isto não seria uma realidade para qualquer tipo de animal. Ou seja, aqueles seres cuja geração envolve a reprodução sexuada ou assexuada nunca poderiam ser produzidos por geração espontânea. Hoje, sabemos que não há nenhuma geração espontânea de seres vivos, mas este conhecimento só se tornou possível com o surgimento de equipamentos capazes de tornar visíveis as realidades microscópicas como os ovos de larvas de mosca.

De qualquer modo, diz Tomás, a geração espontânea pressuporia, segundo a ciência que ele conhecia, a presença de uma certa quantidade de matéria orgânica adequada, em estado adequado (como corpos em putrefação), que encontrasse com as condições atmosféricas e de luminosidade solar adequadas. A geração espontânea, como acreditava Tomás, pressupunha a presença de causas materiais e eficientes adequadas, para ocorrer.

Mas na criação, quando se narra o trabalho de Deus, não estamos diante de um fenômeno como este. A criação é o surgimento de algo a partir do nada. Assim, com os olhos no seu Verbo eterno, que traz em si as razões de todas as coisas, Deus fez os peixes e aves surgirem do nada, (ou os organizou a partir da matéria-prima informe anteriormente retirada, por ele, do nada, como defendiam alguns Padres da Igreja), quer para uma primeira existência em ato, ou então, como defendia Santo Agostinho, criando-os potencialmente, para que passassem a existir efetivamente no decorrer dos tempos.

Em todo caso, não se trata de fazer, por mágica, com que a água ou a terra viessem a fazer brotar peixes e aves. Trata-se de organizar a criação de tal modo que os peixes e aves pudessem vir a existir e reproduzir-se a partir de sua própria natureza. A criação, diríamos, não é um milagre ou um truque de mágica: ela é uma instituição de algo a partir do nada; vale dizer, é prévio à própria natureza e a institui.

4. Palavras conclusivas.

Como dissemos, para que o texto não fique longo demais, examinaremos as outras objeções iniciais, e as respectivas respostas de Tomás, no próximo texto.