1. Primeiras palavras.

O quinto dia da criação é descrito, no relato bíblico, como aquele dia em que foram criados os peixes e as aves. Trata-se, pois, de um dia em que foram ornadas as águas e a atmosfera.

O debate que se segue é uma tentativa de reler o relato bíblico à luz da ciência que se conhecia no tempo de Tomás. Os argumentos defendem que a narração bíblica não seria adequada aos conhecimentos da ciência e da filosofia da natureza de então. Isto nos mostra quão antigo é este debate entre fé e razão, em matéria bíblica e, em especial, no campo do relato da criação. E como a maneira pela qual Tomás resolve estes conflitos, apelando à teologia, à leitura dos antigos Padres, mas sempre com o máximo respeito quanto ao dado científico – sem descurar do máximo respeito às Escrituras.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, nesta questão que tem apenas um artigo, é bem genérica: parece que a descrição bíblica da obra deste quinto dia não é adequada. Trata-se, pois, de uma impugnação genérica aos versículos 20 a 23 deste capítulo 1 do Gênesis, e que envolve nada menos do que cinco argumentos objetores, todos atacando o texto bíblico a partir de dados científicos de então, ou de filosofia da natureza. Vê-se, pois, também aqui, a fé em disputa com a razão. E vê-se, oitocents anos depois da redação da Suma, que a fé resistiu ao teste do tempo (ou seja, a leitura propriamente teológica do texto bíblico continua alimentando a fé de milhões, talvez bilhões de pessoas no mundo de hoje), mas a ciência que fundamentou estas objeções foi inteiramente superada, nestes oitocentos anos. Vamos aos argumentos.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento polemiza com o fato de que o texto bíblico narra a ordem divina para que as águas produzam os peixes e as aves. Mas as águas não têm poder para gerar seres vivos por si mesmas; estes seres, como se sabe, são gerados por reprodução sexuada, através das sementes dos genitores. Assim, a descrição da ordem bíblica para que as águas produzam estes animais é inadequada, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento ataca o mesmo trecho bíblico. A tradução da Vulgata diz que Deus determinou às águas que produzisse esses animais. Mas a ciência nos mostra que os seus corpos não são constituídos só de água; ao contrário, prevalecem neles os outros elementos, sem os quais não poderiam existir. Assim, parece muito equivocado que o relato narre que Deus ordenou que eles surgissem da água.

O terceiro argumento objetor.

Os peixes movem-se na água. Assim, não seria inadequado narrar que Deus ordenou à água que os produzisse, como se vê do versículo 20. Mas as aves, diferentemente dos peixes, movem-se no ar. Assim, seria muito adequado que o relato mostrasse Deus ordenando ao ar que os formasse, e não à água. Portanto, ao relatar uma só ordem de Deus, dirigida às águas, para que se formassem os peixes e as aves, o relato bíblico parece inadequado, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor diz que a narração bíblica simplesmente reúne todos os peixes como se fossem estritamente aquáticos. Mas há peixes que têm a capacidade de caminhar em terra seca; no tempo deste debate, nos idos do século XIII, o argumento aponta as focas ou os peixes-boi como exemplos de peixes assim. Hoje, sabemos que estes seres são mamíferos, e não peixes. Mas há, certamente, outros exemplos de peixes capazes de sobreviver e se locomover fora da água, como os chamados peixes pulmonados. Assim, o argumento conclui que a narração bíblica é imprecisa, ao relacionar os peixes exclusivamente à água.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento introduz a ideia de que o relato da criação parte do mais geral, do mais fundamental, para o mais específico, mais particular, mais imperfeito. Ora, prossegue o argumento, os animais terrestres são muito mais perfeitos do que os animais marinhos e as aves. Os terrestres são vivíparos, mamíferos, com um grau de autonomia e sensibilidade muito maios. São mais perfeitos, portanto. Os peixes e as aves são ovíparos, inferiores, menos complexos, menos perfeitos. Assim, se os seres mais perfeitos são o padrão de perfeição pelo qual medimos a imperfeição dos inferiores, eles deveriam ter sua criação narrada antes. Assim, o argumento conclui que o relato bíblico é inadequado.

O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente nos reafirma a autoridade das Escrituras, e a verdade fundamental existente em suas páginas.

4. Breve arremate.

Colocados os termos do debate, examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.