1. Finalizando a resposta sintetizadora.

De todas as operações que poderiam nos levar a acreditar que os astros são seres vivos, restou apenas atividade de locomoção, que, indubitavelmente, os astros celestes têm. Mas mover-se não é necessariamente um traço que comprova que o ser material é vivo. De fato, a alma pode mover o ser vivo, mas o ser vivo pode ser movido também em razão do contato com uma força externa, que não constitui, com ele, uma unidade substancial.

Bom, pelo menos é o que pensa Aristóteles. Ele vê uma diferença entre o movimento próprio dos seres vivos, que é causado por uma força interna, consistente na alma sensível, que é naturalmente semovente, e integra substancialmente o ser vivo; e o movimento dos seres inanimados, que é sempre causado através do contato entre aquilo que move e aquilo que é movido. É preciso que haja, no caso dos seres inanimados, uma força que empurra e um corpo que é empurrado, com o contato entre dois corpos (se forem ambos materiais) ou do ser imaterial com o corpo que é movido (quando o que empurra não é um ente material; no tempo de Tomás, acreditava-se que estas forças imateriais eram angélicas. Hoje, a ciência as descreve como energias gravitacionais ou eletromagnéticas). Em todo caso, nos seres imateriais o movimento é sempre provocado desde fora, para Tomás. Mesmo no chamado “primeiro movido”, que seria o primeiro círculo do céu, há aquilo que move (os anjos motores) e aquilo que é movido (os corpos celestes).

Para Platão as coisas não são assim. Como ele acredita que o mundo das ideias é mais real do que o nosso mundo material, ele crê que as almas são mais reais do que os seres materiais vivos. Assim, as almas não formam uma unidade substancial com a matéria, nas coisas vivas (para Platão). A alma como que empurra a matéria do corpo do ser vivo, sem diferença com as forças que empurram os astros no universo. Os seres vivos não seriam, para Platão, unidades substanciais de corpo e alma, mas apenas agregados entre uma alma substancial e uma matéria que circunstancialmente está sob seu poder. Por isto, os platônicos podem defender que os astros são seres vivos: ´-para os platônicos, eles são movidos por forças espirituais agregadas a ele, como os animais e os seres humanos são movidos pelas suas almas. No fundo, todo ser vivo é uma espécie de anjo empurrando um corpo por aí, na visão platônica (e, acrescentaríamos, na visão de Descartes e dos reencarnacionistas de hoje em dia, também).

Havendo provado que os corpos celestes são movidos, Tomás pondera o seguinte: todo movimento natural, mecânico, de uma coisa animada, tem como fim um termo certo, quer dizer, tem começo e fim. Salvo se alguma força permanente mantiver o empuxo, caso em que ele pode manter-se perpetuamente em movimento. Mas esta força, que mantém o movimento contínuo, não pode ser uma força irracional, porque senão o movimento resultante não teria ordem. Mas como o movimento dos corpos celestes é ordenado e regular, conclui Tomás, devemos concluir que ele é regido por seres inteligentes.

É certo que, hoje em dia, tendemos a acreditar que o universo é mecânico, regido por forças cegas e naturais, cuja interação provoca sua regularidade. Mas a ciência do tempo de Tomás não sabia nada sobre gravitação ou inércia, de modo que a dedução de que havia forças inteligentes por trás dos movimentos tão bem orquestrados do céu teria que se impor. Não é algo sem razoabilidade, dada a visão científica de então. O universo seria como uma grande orquestra viva, de forças inteligentes, regidas pessoalmente por Deus! É o que afirma Agostinho, citado aqui por Tomás.

Não há dúvida, conclui Tomás, de que os corpos celestes são, de algum modo, animados; mas certamente não do mesmo modo que os animais e as plantas, senão mediante forças externas a eles mesmos. É justificável, portanto, que alguns teólogos, sob a influência platônica, tenham concluído que são seres vivos. Embora, a rigor, não sejam, sob o modo aristotélico de pensar.

E hoje, ainda mais do que no tempo de Tomás, sabemos que eles não são vivos.

2. A resposta aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento parte da ideia de que, se o céu é mais nobre que a terra, aquilo que ornamenta o céu não pode ser menos nobre do que aquilo que ornamenta a terra. Se a ornamentação da terra se dá por seres vivos, como os animais e as plantas, então a ornamentação do céu pelos astros não pode deixar de ser feita por seres vivos. Logo, o argumento conclui que os astros são seres vivos.

Tomás vai responder simplesmente que o movimento dos astros, sendo causado por seres vivos (como se acreditava então), responde a objeção: os seres vivos do espaço sideral seriam os anjos, que movem os astros, e portanto nada inferiores aos seres vivos da terra. Hoje, acreditamos que os astros movem-se pelas forças físicas impessoais que regulam o universo. Em todo caso, Tomás recusa-se a deduzir que haveria alguma simetria que obrigasse Deus a criar seres vivos no céu; eles podem até existir, mas não por força de alguma simetria com o fato de que existe vida na terra. Deus é livre para ter criado vida em outros locais. A questão segue em aberto, portanto.

O segundo argumento.

O segundo argumento objetor parte do seguinte pressuposto: quanto mais nobre é uma coisa, mais nobre é a sua estrutura. Mas a estrutura mais nobre que existe é a dos seres vivos, formados de corpo e alma. Logo, se os astros são mais nobres do que os seres vivos terrestres, eles devem, no mínimo, ter a estrutura de um ser vivo, ou seja, ter corpo e alma, conclui.

Em resposta, Tomás nos responde que o fato de que alguma coisa é mais nobre do que outra não significa que cada aspecto dessa coisa seja mais nobre do que cada aspecto da outra. Em alguns aspectos, os astros, o espaço sideral, todo o universo, são mais nobres do que os seres vivos da terra. Tomás cita, aqui, a teoria aristotélica de que os corpos celestes seriam compostos de um quinto elemento, incorruptível, e portanto mais nobre do que qualquer coisa que haja na terra. Além disso, diz Tomás, eles são movidos pelos anjos, que são mais nobres do que as almas dos seres vivos terrestres. Por outro lado, a vida não lhes é intrínseca, como no caso dos animais e plantas. Mais uma vez vemos, aqui, os limites da ciência astronômica do tempo de Tomás.

O terceiro argumento.

O terceiro argumento também usa o pressuposto da nobreza dos corpos celestes. As causas são sempre mais perfeitas, mais completas e nobres do que os efeitos. Se o sol e a lua são causa da vida na terra, eles devem ser vivos também, porque a causa não pode ser menos que o efeito.

Em resposta, antes de examinar as colocações de Tomás, registramos que, na ciência do tempo de Tomás, acreditava-se na geração espontânea dos seres vivos; isto era atribuído à influência do sol e da lua sobre a matéria orgânica em putrefação. O cientista Louis Pasteur, no século XIX, provou que não há geração espontânea. Mas não há dúvida da influência do sol (e da lua) sobre a vida na terra, não como causa eficiente principal, mas ao menos como concausa. O que invalidaria igualmente o argumento: o sol não causa a vida como causa própria, logo não precisa ser vivo. Mas Tomás não sabia disto. Assim, ele responderá, simplesmente, que os astros são moventes movidos, isto é, movem-se por causa do efeito de uma força extrínseca a eles. Esta mesma força, diz Tomás, causa os efeitos sobre a vida na terra que podemos observar (ele se referia à geração espontânea). Hoje, como sabemos que não há geração espontânea de vida, diríamos simplesmente que o argumento objetor não é válido.

O quarto argumento.

O argumento parte da afirmação de Aristóteles de que os movimentos dos corpos celestes são naturais. Ou seja, eles são movidos porque a sua natureza mesma os move. Se é assim, diz o argumento, então a origem do seu movimento está na essência deles. Eles não seriam empurrados ou puxados, mas teriam a capacidade de mover a si próprios. Ora, prossegue o argumento, tudo aquilo que move a si próprio, por capacidade natural, tem vida. Assim, o argumento conclui que os astros são seres vivos.

Os astros são corpos móveis, admite Tomás. Mas eles não se movem por um princípio intrínseco, como os seres vivos, mas são movidos por forças exteriores a eles mesmos.

O quinto argumento.

O quinto argumento diz que o céu, segundo Aristóteles, é aquilo que se move em primeiro lugar, no universo. Ou seja, todas as outras coisas têm um movimento derivado do movimento celeste. Ora, prossegue o argumento, há um princípio que diz que aquilo que está em primeiro lugar deve ser em si mesmo, enquanto tudo o que vem depois pode existir por causa de outra coisa. Ou seja, a primeira coisa que se move deve mover-se por si mesmo, diz o argumento, porque moverá a si e a tudo o que vem depois. Assim, conclui, o primeiro movido deve ser vivo, porque só as coisas vivas movem-se a si mesmas.

Tomás responde que, de fato, o céu move a si mesmo. Mas não da mesma maneira que os animais movem-se. Os animais movem-se porque sua essência possui a capacidade de provocar o próprio movimento. Ou seja, aquilo que move e aquilo que é movido, no caso dos animais, é a mesma coisa.

Mas não é assim, quanto ao céu. É certo que, no céu, existem as forças que movem e as forças que são movidas, e, neste sentido, o movimento que há no céu é todo intrínseco a ele. Mas as forças que movem são extrínsecas às coisas movidas. Portanto, embora o movimento do céu seja natural, ele não é um movimento interno à própria coisa que se move, e portanto não é um movimento de coisa viva, conclui Tomás.

3. Breves palavras conclusivas.

Quem caminha numa velha catedral corre o risco de encontrar algumas coisas obsoletas por aí. O mais interessante é ver como, embora obsoleto no seu material, estes artigos mostram uma capacidade de diálogo e um enorme respeito pela ciência, que deveria nos servir de estímulo e exemplo, ainda hoje.

Quem chegou até aqui, por favor, curte os textos no blog! Vamos impulsionar Tomás pelo mundo.