1. Relembrando o debate.

Vimos que este artigo introduz no debate a possibilidade de que haja vida extraterrestre; não, é claro, sob o enfoque moderno de que existam seres extraterrestres, organismos vivos, morando em outros planetas. Aqui, o debate é sobre o movimento que podemos enxergar no céu à noite, ou seja, o próprio movimento dos astros. Não havia, é claro, na o tempo de Tomas, a teoria da gravitação, nem a visão de que o universo fosse um grande mecanismo (visão que, hoje, volta a perder força na ciência, mas que não debateremos aqui). Assim, seria preciso imaginar uma razão pela qual os astros movem-se de modo regular e constante. Vimos que a hipótese de que eles são seres vivos fez colacionar cinco argumentos em sua defesa, e vimos o argumento sed contra de São João Damasceno. Agora veremos a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Um breve histórico das posições filosóficas e teológicas.

São muitas as especulações antigas sobre a existência de vida alienígena à terra. É claro que a noção de “vida alienígena”, aqui, envolvia perguntar se os astros mesmos não seriam dotados de vida, já que eles se moviam de um modo aparentemente sem explicação para um observador na terra, o que levou a muitas especulações na antiguidade.

A primeira posição a ser estudada é a dos antigos filósofos gregos. E, dentre eles, a primeira posição citada é a de Anaxágoras. De fato, Agostinho chegou a relatar que Anaxágoras defendia firmemente que o sol seria apenas uma rocha em chamas, e não algum tipo de divindade. Alguns atenienses, contemporâneos dele, revoltaram-se com aquilo que parecia algum tipo de desprezo a uma divindade, já que acreditavam que o sol não somente era vivo, mas era um deus.

Os platônicos, discípulos de Platão, acreditavam que os corpos celestes eram, de algum modo, seres vivos.

Dentre os antigos Padres da Igreja, diz Tomás, registra-se a posição de Orígenes, que era muito influenciado pelo pensamento platônico. Orígenes também acreditava que os corpos celestes seria de algum modo, seres vivos. E Jerônimo parece ter compartilhado esta opinião, conforme ele demonstra ao comentar o trecho de Eclesiastes 1, 6: “O vento sopra para o sul, volta para o norte, volteia e gira nos mesmos circuitos”.

Mas nem todos os grandes escritores eclesiásticos antigos eram da mesma opinião. São Basílio e São João Damasceno defendiam a ideia de que os corpos celestes são objetos inanimados. Mas o grande Santo Agostinho não se decidiu, nesta questão. Em suas obras, ele parece inclinar-se na direção de admitir que, se os corpos celestes são seres vivos, na verdade eles são animados por espíritos que parecem pertencer à categoria dos anjos.

Esta ideia, portanto, de que caberia aos anjos o papel que a nossa visão contemporânea atribui a forças físicas cegas, mecânicas ou atômicas, era muito proliferada na antiguidade. A nós parece estranho admitir que um ser com inteligência e vontade superiores às nossas, como é o caso dos anjos, fossem criados para empurrar planetas e estrelas por aí. Mas isto se dá porque nossa visão de liberdade é muito diferente daquela dos antigos. Para nós, a marca da liberdade é a imprevisibilidade, é a possibilidade de não se submeter a padrões e caminhos preestabelecidos. Mas, para os antigos, a liberdade era marcada exatamente pela responsabilidade, pela atenção aos deveres e a previsibilidade das ações. Assim, um rei tinha uma vida previsível, responsável, e deveria corresponder àquilo que suas responsabilidades determinavam, era capaz de internalizar suas obrigações e agir espontaneamente de um modo correspondente a elas. Um rei é como o sol, diziam os antigos; sabemos onde ele nasce, por onde anda e para onde vai a cada tempo. Por outro lado, um escravo é errático. Não interessa a ninguém onde ele vai, o que pensa, com quem se relaciona, contanto que se desincumba dos seus deveres ainda que por mera submissão externa à força; um escravo é como um asteroide; surge do nada, pode até iluminar a noite e a ninguém interessa o que acontece com ele. Ou seja, hoje em dia concebemos como uma vida boa e livre aquilo que, para os gregos, seria uma liberdade de escravos. Portanto, não seria nada estranho que os antigos imaginassem que seres inteligentíssimos e digníssimos fossem responsáveis por aquilo que nos parece apenas o movimento mecânico do universo.

A relação entre corpo e alma nos seres vivos.

É neste ponto que Tomás precisa voltar aos princípios. Ele vai nos dar uma verdadeira aula sobre o que é, exatamente, um ser vivo de natureza corpórea, e qual a relação que existe, nele, entre o corpo, composto de matéria, e a alma, princípio da vida. Assim, poderemos perceber qual a diferença entre, digamos, um cão, por um lado, e uma marionete, por outro. E encontrar alguma orientação neste mar de opiniões divergentes, diz Tomás.

Em todos os seres vivos corporais, existe uma composição entre a matéria, que constitui o corpo, e a forma, que, no caso dos seres vivos, é a alma, que é princípio imaterial de vida.

A pergunta que se impõe agora é a seguinte: qual é o componente mais importante, no composto de matéria e forma que estrutura os seres materiais? Tomás, sem hesitar, dirá que o mais importante é a forma, ou seja, a alma. Não é difícil imaginar isto. Pensemos num grande museu repleto de estátuas de mármore: o que lhes torna importantes não é o fato de serem de mármore (matéria), mas de retratarem este ou aquele personagem (forma). Também é assim nos seres vivos: o corpo existe em função da alma, e não o contrário.

Não imaginemos aqui que a alma é alguma realidade diversa do corpo: somente muito mais tarde é que Descartes (que viveu muitos anos depois de Tomás) defendeu a existência independente entre o corpo e a alma. Para Tomás, e para todos os que vieram antes de Descartes, corpo e alma são interdependentes, como componentes do ser vivo. Mas a alma está no comando.

Como se determina, pois, quais são os poderes e qual é a natureza das almas que compõem os seres vivos? Através do exame de suas operações. As operações são as finalidades da alma e, portanto, as finalidades do próprio ser vivo.

Dentre as operações do ser vivo, há aquelas que ocorrem apenas e tão somente por causa do corpo. Crescer, alimentar-se e reproduzir são atividades nas quais a alma depende apenas e tão somente do corpo. São atividades de manutenção, e portanto são chamadas de “atividades vegetativas”, porque até mesmo os vegetais, que são os seres vivos mais simples, realizam estas atividades. Ou seja, neles a alma existe, de certa forma, apenas para si mesma, incapaz de uma relação mais profunda com o meio ambiente, e completamente dependente do corpo. Assim também as chamadas atividades sensíveis, como ver, ouvir, cheirar, tocar. Os seres que possuem estas operações são capazes de uma relação mais profunda com o meio ambiente, reagindo a ele. Mas, ainda assim, suas operações são corporais, estritamente corporais. Estas almas não poderiam, pois, operar fora ou além dos seus corpos.

Por fim, há aquelas operações da inteligência, pelo qual os sentidos do corpo apresentam à alma o material do qual ela abstrairá o conhecimento intelectual da realidade. Uma vez que nada há na inteligência que não haja passado pelos sentidos, a alma intelectual depende ainda do corpo, das imagens sensíveis que ele obtém, para adquirir a informação sobre o meio ambiente, mas a operação de abstrair, dessa informação, o conhecimento intelectual abstrato, ultrapassa as funções corporais, embora dependa delas. Vale dizer: uma alma intelectual pode operar sem um corpo, mas não pode, sem ele, crescer, alimentar-se, reproduzir-se ou mesmo aprender.

Disto tudo se vê que a relação entre a alma e o corpo, nos seres vivos, não é algo acidental ou externo, mas estrutural mesmo. O corpo e a alma não são coisas reciprocamente externas, heterogêneas, que se misturam, mas são componentes estruturais de uma coisa só, os seres vivos.

Havendo feito esta análise, Tomás passa a examinar as informações que a ciência astronômica da época possuía sobre os astros, para ver se eles apresentam as operações próprias dos seres vivos.

Ora, se os astros possuem vida, é certo que eles não demonstram possuir as funções vegetativas. Se os astros são acabados, perfeitos e indestrutíveis (como se imaginava no tempo de Tomás), eles não têm as funções vegetativas, que são características de coisas que nascem, crescem, alimentam-se e morrem, vale dizer, daquilo que passa por um processo de geração e destruição.

Hoje sabemos mais do que Tomás sabia em seu tempo. Sabemos que os astros estão sujeitos a um processo de geração e destruição, mas não de natureza vegetativa, senão de natureza inanimada. Assim, embora examinando dados equivocados, Tomás chega à conclusão correta.

O que acontece também com as chamadas “funções sensitivas”, que são aquelas funções dos órgãos dos sentidos. Tomás, com os dados científicos do seu tempo, acredita que o céu é composto de um “quinto elemento” incorruptível, que isolaria os astros da realidade terrena e de seus quatro elementos. Ora, as funções sensitivas pressupõem uma capacidade de relacionar-se com os quatro elementos, de interagir com eles, que, segundo se acreditava então, as coisas compostas pelo quinto elemento não poderiam ter. Assim, Tomás nega a presença de operações sensíveis nos astros. Tampouco aí há sinal de que sejam vivos. E, mais uma vez, embora pelas razões científicas equivocadas que ele tinha às mãos, Tomás chega à conclusão certa.

Assim, restam duas operações próprias dos seres vivos corporais: mover-se pelos lugares e, por fim, aprender (e querer). Mas, como já vimos, Tomás nos mostra que os astros não poderiam aprender de maneira sensível, porque não possuiriam órgãos sensíveis capazes de interagir com as realidades corruptíveis. Ora, não haveria razão para que um ser corporal fosse, ao mesmo tempo, inteligente, e ao mesmo tempo, tivesse um corpo que não tem nenhuma relação com seu processo de aprendizagem! Seres corporais inteligentes são corporais porque o corpo serve à alma no processo de aprendizagem. Se o corpo celeste não pode ter nenhuma função em nenhum processo de aprendizagem, então os seres materiais celestes não podem ser inteligentes, conclui.

Resta a atividade de locomoção, que, indubitavelmente, os astros celestes têm. Mas mover-se não é necessariamente um traço que comprova que o ser material é vivo. De fato, a alma pode mover o ser vivo, mas o ser vivo pode ser movido também em razão do contato com uma força externa, que não constitui, com ele, uma unidade substancial. Basta pensar numa arma de fogo: o chumbo do projétil é movido pelo impacto da pólvora que explode, mas não forma, com o projétil, uma unidade substancial, mas apenas uma unidade acidental, na forma de munição. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, como alguém que atira uma pedra para cima, ou ainda um trator que move uma rocha.

3. Palavras de fechamento.

Como se dá o movimento dos astros? De um modo similar àquele da rocha empurrada pelo trator, ou de modo análogo àquele pelo qual um animal deambula pelo mundo?

Tomás discutirá, agora, a diferença entre o pensamento de Aristóteles e o de Platão.

É o que veremos no próximo texto.