1. Breves palavras introdutórias.

No começo dos nossos debates, costumávamos lembrar daquelas velhas metáforas, que comparavam a Suma Teológica a uma daquelas magníficas catedrais medievais, que buscavam reunir o cosmos dentro de si, de modo a louvar de modo integral a Deus, princípio e fim de todo o universo. Caminhando nesta catedral que é a Suma, sempre de um modo muito atento aos detalhes, como temos feito desde então, podemos nos deparar, às vezes, com recantos ou detalhes que nos parecem, hoje, insólitos, embora parecessem naturais e até muito importantes para aqueles que viviam naquele tempo. Um destes detalhes é a discussão que agora encontramos: trata-se de discutir se os astros do céu são ou não seres vivos. Parece-nos, hoje, uma discussão sem sentido, porque sabemos que são corpos inanimados, similares ao sol e aos planetas do nosso próprio sistema solar, e estes, por sua vez, são homogêneos com a terra. Mas, naquele tempo, esta não era uma informação disponível. Assim, vale a pena examinar este recanto peculiar do nosso passeio turístico, para ver e aprender com o modo com que tais assuntos eram debatidos então.

Trata-se, também, de um artigo muito peculiar, porque não é um debate bíblico, nem sequer teológico. Trata-se de um debate científico, mesmo; embora haja uma influência do relato bíblico sobre este debate, como veremos logo no primeiro argumento objetor, que compara os astros, como ornamentação do céu, aos animais que ornamentam a terra e o mar, na essência é um debate científico mesmo.

Parece muito anacrônico? Digamos que ainda hoje encontramos ecos deste debate, nos caminhos da ciência. De fato, já não debatemos se os próprios astros são seres vivos; mas debatemos ardentemente se a vida é uma realidade exclusivamente terrestre, ou se há vida (e vida inteligente) em outros recantos do universo. Que os próprios astros não são seres vivos, isto já o sabemos. Mas, como veremos, a maior parte deste artigo poderia facilmente transformar-se num debate sobre a existência de vida em outros planetas. O que é um debate muito atual.

Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida.

Parece que os astros do céu são seres vivos, é a hipótese proposta para fomentar o debate. Parece que há vida em outros recantos do universo, afirmaríamos hoje. São cinco os argumentos objetores, que tentarão comprová-la.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor lembra que o céu, em toda sua extensão e complexidade, é muito mais perfeito do que a terra. Se a terra, com sua limitação, é ornada de vida com tal diversidade, que ocupa todos os seus extratos (atmosfera, solo enxuto e corpos d’água), muito mais razão haveria para esperar que esta vida se manifestasse também no espaço sideral. Assim, o argumento conclui que os astros celestes são seres vivos. Hoje, concluiríamos: deve haver vida em algum outro ponto do universo, além da terra.

O segundo argumento também quer comparar a nobreza do céu com a simplicidade da terra. Se os astros do céu são mais nobres do que tudo o que há na terra, isto significa que a sua estrutura metafísica também deve ser mais nobre que a estrutura das coisas terrenas. Mas as coisas terrenas mais nobres são as que têm vida, porque a forma das coisas vivas é a alma, e esta é, segundo Agostinho, a forma mais nobre. Ele chega a dizer que qualquer coisa viva é superior, em nobreza e perfeição, a qualquer coisa inanimada. Ora, se é assim, seria de esperar-se que no céu, em seus astros mesmos, houvesse vida, conclui o argumento.

O terceiro argumento parte da ideia da geração espontânea, que era admitida pelos cientistas de então, e foi refutada apenas por Louis Pasteur, muitos séculos depois de Tomás. Ora, diz o argumento, se algo é causa, deve ser mais perfeito e mais abrangente do que o respectivo efeito. Mas a geração espontânea (que se acreditava, então, como um dado científico certo e seguro) é resultado da ação do sol, da lua e das estrelas sobre a matéria em putrefação. Ora, se os astros são capazes de produzir a vida apenas agindo sobre matéria terrena, com muito mais razão poderíamos imaginar que eles próprios são seres vivos (ou que, ao menos, exista vida neles); se são causa de surgimento de vida por aqui, devem ter vida por lá, conclui o argumento.

O quarto argumento lida com os movimentos no céu, num tempo em que a ciência ainda não tinha a ideia de força da gravidade. Ele lembra que os corpos celestes movem-se de um lugar para o outro, no céu. E não o fazem por serem empurrados ou puxados, mas têm em si mesmos, naturalmente, a causa do seu movimento. Portanto, eles têm em si mesmos a causa do seu movimento, e movem-se, segundo diz Aristóteles no seu livro sobre o céu, de uma maneira análoga àquela pela qual, aqui na terra um ser vivo é movido por aquilo que ele percebe como desejável. Se um ser vivo vê algo desejável, ele tende a ser atraído e mover-se em direção àquilo, e é este o motivo, segundo Aristóteles, pelo qual os astros se movem. Mas, se é assim, é preciso que os astros tenham, em si mesmos, capacidade de perceber e de desejar, o que são características próprias dos seres vivos. Logo, o argumento conclui que eles são seres vivos.

O quinto e último argumento objetor também parte da noção aristotélica de que o universo sensível é formado por esferas móveis que recebem seu empuxo a partir do motor imóvel. Mas, na concepção aristotélica, este movimento não se dá de modo mecânico, como se Deus empurrasse as esferas para que se movessem. O motor imóvel seria uma causa final, que moveria as esferas por atração. Ora, prossegue o argumento, aquilo que é descrito como primeiro, em qualquer classificação, deve ser mais nobre do que o que vem depois. Assim, o primeiro móvel deve mover-se a si mesmo. Mas aquilo que move a si mesmo é considerado como um ser vivo, pelo próprio Aristóteles. Logo, o argumento conclui que os astros são seres vivos.

4. O argumento sed contra.

Por fim, o argumento sed contra cita São João Damasceno, que adverte, na sua obra sobre a fé ortodoxa, contra a ideia de que os astros estão vivos. Ele diz: “Que ninguém imagine que os céus ou os astros luminosos são seres vivos; eles não têm vida nem sensibilidade de qualquer espécie”. É claro que este argumento deixa em aberto a questão a respeito da existência de vida nos astros celestes, mesmo porque não se sabia, então, das similaridades entre a terra e eles. A resposta, portanto, não afasta a possibilidade de que exista vida extraterrestre, mas apenas a ideia de que os próprios astros do céu sejam seres vivos.

Veremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.