1. Breve resumo do artigo.
O debate, aqui, é sobre os fins, apontados no relato da criação, para os astros, em especial o sol e a lua. De fato, trata-se de saber se estes fins são adequadamente descritos ali, ou se o relato os descreve de modo inadequado, frente ao conhecimento científico e filosófico dos corpos celestes.
Vimos a resposta sintetizadora de Tomás no último texto. Examinaremos agora as respostas específicas aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento.
O primeiro argumento contesta o fato de que o versículo 14 aponta, dentre os fins dos astros, aquele consistente em servirem de “sinais” dos tempos. O argumento lembra que o profeta Jeremias advertia ao povo (10, 2): “Não imiteis o procedimento dos pagãos; nem temais os sinais celestes, como os temem os pagãos”. Logo, ler sinais no céu, nos astros, é uma marca do paganismo, e neste ponto, diz o argumento, andou mal o relato de criação ao dizer que “ser sinal” é um dos fins pelos quais o sol e a lua foram criados, conclui.
Tomás vai responder que os astros, em especial o sol e a lua, de fato influem sobre o ambiente terreno, e de fato sinalizam alterações e acontecimentos, como as marés, as colheitas e coisas assim. Mas eles influenciam sobre o ambiente, nunca sobre aquilo que depende do livre arbítrio humano. Portanto, quando o versículo 14 fala que os astros devem ser sinais, não está falando de algo como “destino” ou “horóscopo”, mas dos ciclos naturais da terra, nos quais os astros estão envolvidos. Atribuir aos astros domínio sobre nossa vontade ou, fatidicamente, acreditar que regem, de algum modo, nossa liberdade, esta é a verdadeira marca da idolatria, mas não é disto que este versículo 14 fala.
O segundo argumento.
Em qualquer classificação lógica, a categoria dos sinais é oposta à categoria das causas. As causas são requisitos dos efeitos, ou seja, elas são pressupostas aos eventos; ou seja, os eventos vêm a existir por força de suas causas. Mas os sinais são resultados dos eventos, ou seja, são efeitos posteriores que nos marcam a existência dos eventos mesmos que elas sinalizam. Ora, o sol e a lua são causas daqueles eventos com os quais eles se relacionam, descritos nos versículos 14 e 18 deste relato de criação. Logo, prossegue o argumento, é falso dizer que eles são sinais destas coisas, quando na verdade eles são causa. E com isto o argumento conclui que o relato da criação aqui estudado é inadequado.
Tomás nega que haja oposição entre sinais e causas; ele vai nos explicar que, naqueles casos em que o efeito não é imediatamente perceptível pelos sentidos, a causa, sendo perceptível, pode ser um sinal do efeito. Para exemplificar o que Tomás está dizendo, pensemos num fazendeiro que vê um boi cruzar com uma vaca: este ato sexual é causa de uma fecundação que em si mesma é imperceptível aos olhos; mas, ao ver o ato sexual, o fazendeiro tem um sinal de que a vaca foi fertilizada. De modo análogo, o sol e a lua podem ser sinais dos seus efeitos invisíveis, por exemplo, no crescimento das plantas ou na sucessão das marés. Assim, o pescador pode não saber exatamente qual a relação causal entre a lua e as marés, mas ele observa a lua como sinal de um tempo favorável ou desfavorável à pesca.
Tomás acrescenta que o relato bíblico tem, aqui, preocupações teológicas muito claras: ela descreve os astros como sinais, e não como causas, para não levar as pessoas a imaginar que eles são, de algum modo, causas primeiras dos eventos que desencadeiam, o que poderia conduzir o povo à idolatria dos astros, imaginando-os como dotados de alguma vontade onipotente capaz de reger a vida humana.
O terceiro argumento.
O terceiro argumento objetor lembra que, desde o primeiro dia da criação, com a criação da luz, houve a sucessão dos dias, e portanto dos ciclos das estações também. Assim, o argumento conclui que o relato bíblico é contraditório, ao estabelecer, no versículo 14, que o sol e a lua foram criados para separar o dia da noite e marcar as estações e os ciclos do tempo.
Tomás responderá que, segundo o versículo 5, há apenas a descrição de uma sucessão de luz e trevas, que Deus chamou, respectivamente, de “dia” e “noite”. Mas é apenas neste versículo 14 que Deus estabelece os dias e as noites como relacionados ao ciclo dos astros, e como inseridos na sucessão de estações e climas, ou seja, com a criação dos astros, neste versículo 14, é que toda a estrutura do tempo, do clima, fica completada e passa a existir.
O quarto argumento.
O quarto argumento lembra que todo processo vai do imperfeito ao perfeito, ou seja, daquilo que é incompleto ao completo, do pior para o melhor. Ora, diz o argumento, os astros, toda a estrutura do espaço sideral, é muito mais completa, mais perfeita e mais rica do que a estrutura da terra. Logo, o relato bíblico, ao narrar que os astros do céu existem para servir às coisas da terra, narra uma relação inadequada, e se equivoca, conclui.
Há duas respostas para esta objeção, diz Tomás.
A primeira simplesmente afirma que qualquer criatura dotada de alma espiritual é dotada de muito mais perfeição, muito maior dignidade e completude do que o universo inteiro. Poderíamos, aqui, pedir licença a Tomás para citar um pensamento de Blaise Pascal (que viveu alguns séculos depois de Tomás, e portanto não pode ter sido conhecido por ele). Diz Pascal:
“O homem é apenas um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, são suficientes para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque ele sabe que morre, e conhece a vantagem que o universo tem sobre ele; e disso o universo nada sabe. Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. É a partir dele que nos devemos elevar e não do espaço e da duração, que não saberíamos ocupar.”
Mas há ainda uma outra razão que Tomás usa, para responder ao argumento: aquilo que é mais elevado, mais perfeito, mais digno, pode ser levado a servir ao inferior, não em si mesmo, mas para o bem comum do universo. Pensemos, aqui, na assistência que os Santos Anjos da Guarda prestam aos seres humanos, que lhes são inferiores em natureza. Trata-se de um serviço do superior ao inferior, em razão do governo que o próprio deus exerce sobre toda a criação e das necessidades atreladas à salvação eterna dos seres humanos. Assim, de modo análogo, não há nenhum óbice em reconhecer que os astros podem servir à terra e seu ambiente.
O quinto argumento.
Por fim, o quinto argumento afirma que é inadequado dizer que o sol e a lua existem para reger o dia e a noite. E traz o exemplo da lua nova: quando a lua está na fase que é denominada de “lua nova”, ela não rege a noite, porque, na verdade, torna-se invisível. Ocorre que o próprio calendário judaico, que é baseado nos ciclos da lua, começa a contar os tempos a partir da lua nova, a demonstrar que esta fase é considerada a fase primeira, inaugural, da lua, e portanto seu estado mais fundamental. Assim, o argumento conclui que é inadequado descrever o sol e a lua como “presidindo ao dia e à noite”, como faz o relato bíblico.
Tomás não foge à discussão científica. Ele lembra que mesmo a lua nova acompanha o ciclo na noite, ou seja, não haveria nenhum problema em afirmar que, mesmo na fase de “nova”, ela preside à noite.
Ora, diz Tomás, é claro que Deus concebe as coisas em sua plena perfeição: quando ele concebeu os vegetais, segundo o relato bíblico, ele os concebeu “dando sementes e frutos segundo as suas espécies”, vale dizer, como seres adultos, perfeitos e em plena produtividade. Assim, também a concepção da lua não pode ser, essencialmente, a da lua nova, empalidecida e quase invisível. Seria, portanto, correto dizer que Deus a concebe plena, cheia, iluminada, perfeita, e os seus ciclos são medidos exatamente pela proximidade ou distância com relação a esta fase de plenitude. Assim, não é adequado imaginar que a criação da lua tivesse na lua nova o seu parâmetro de perfeição. O parâmetro de perfeição da lua é a lua cheia. Portanto, conclui Tomás, equivoca-se o argumento.
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