1. Retomando.

Vimos, então, no texto anterior, a hipótese controvertida de que as finalidades, citadas na Bíblia, para a criação dos astros, seriam inadequadas. Vimos os cinco argumentos objetores, alguns até com um sabor bem contemporâneo para nós, e o argumento sed contra, que simplesmente reafirma a autoridade das Escrituras. Agora examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás de Aquino sobre o assunto.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás nos lembra que, na questão 65, artigo 2, ficou estabelecido que a causa final da criação de tudo o que existe é, no extremo, a bondade de Deus. Ou, dizendo mais analiticamente, cada criatura existe:

1) para atingir sua própria perfeição. Mas existe também para que:

2) o universo inteiro atinja sua perfeição final. Mas, no extremo, as criaturas (e o universo) existem para:

3) a glória de Deus, em razão de sua bondade infinita.

Ora, há portanto três níveis de causas finais para tudo o que existe na realidade criatural: a perfeição própria, a perfeição do universo e a glória de Deus.

No entanto, a redação das Escrituras (que, na época de Tomás, atribuía-se a um trabalho pessoal de Moisés) tinha por objetivo evitar qualquer tipo de idolatria ao sol e à lua que, como se sabe, eram adorados como deuses por diversos povos e culturas no mundo inteiro.

Assim, ao descrever as causas finais destes astros, o autor sagrado limitou-se a descrever aquelas relacionadas ao segundo nível de finalidade, isto é, ao bem que estes astros deveriam fazer ao universo e, em especial, aos seres humanos, exatamente para enfatizar que eles foram criados para nós, e não o contrário. Com isto, fica clara a sua natureza criatural e a posição do ser humano, como coroação da obra da criação. Afastada estaria a possibilidade de qualquer tipo de idolatria ao sol.

Sabemos, hoje, que o Pentateuco (que são os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, e são considerados pelos judeus como a “Torah”, isto é, a lei dada a eles por Deus) não foi redigido por uma única pessoa, mas teve diversas fontes originais, compiladas ao longo de muitos séculos. Este trecho que estamos estudando, que é o primeiro relato da criação (Gênesis 1, 1 a 2,4) deve ter sido elaborado num meio sacerdotal; entre outras coisas, ele traz, em si, a marca de um ritmo litúrgico de descrever o trabalho de Deus. E suas preocupações teológicas, como Tomás muito bem percebeu, envolvem encaminhar o povo à fé num único Deus criador, apresentando todas as coisas visíveis e invisíveis como simples criaturas, ou seja, tirando delas qualquer divinização indevida.

Isto se reflete ao longo do Pentateuco. Tomás vai citar, agora, Deuteronômio 4, 19: “Quando levantares os olhos para o céu, e vires o sol, a lua, as estrelas e todo o exército dos céus, guarda-te de te prostrar diante deles e de render um culto a esses astros, que o Senhor, teu Deus, deu como partilha a todos os povos que vivem debaixo do céu”.

Para que servem os astros.

Assim, exatamente com o objetivo de retratar o serviço dos astros aos seres humanos, é que a relato do Gênesis aponta, nos versículos 14 e 18 deste primeiro capítulo, as três finalidades pelas quais Deus os criou.

A primeira finalidade é iluminar a terra, quer dizer, possibilitar-nos caminhar sem tropeçar, dar-nos luz (no sentido físico) para que possamos ver e conhecer a criação e trabalhar e usufruir dela. É por isto que o versículo 18 diz que o sol e a lua servem para “iluminar a terra” com seu brilho. Muito mais do que discorrer sobre as funções científicas dos astros, o relato quer mostrar o serviço que eles nos prestam ao iluminar o mundo para nós.

O segundo fim, pelo qual os astros foram criados, é, segundo o versículo 14, o de marcar os ciclos do tempo, as estações, os dias e os anos. Isto dá dinamicidade à vida terrestre, permite que a vida não seja monótona, mas variada, com a riqueza que as estações proporcionam, inclusive quanto à alimentação, às paisagens, a toda a diversidade que não existiria se elas não se alternassem. A vida faz história, não é um ciclo monótono que nos aprisiona, mas o cenário belo e diverso que nos acolhe.

Por fim, o relato diz, no versículo 14, que eles servem de “sinais”, não num sentido mágico de revela algo oculto, mas no sentido de marcar, na passagem do tempo, os momentos favoráveis às diversas atividades humanas: os trabalhos que são próprios do dia, o repouso que é próprio da noite, a colheita que é própria de uma época e o tempo de plantar, que é próprio de outra, e assim por diante.

3. Palavras conclusivas.

Com estas lições, que nos mostram que uma leitura conscienciosa da Bíblia esclarece de fato qual a sua mensagem, Tomás conclui sua resposta sintetizadora e passa a responder às objeções iniciais. É o que veremos no próximo texto.