1. Breves palavras introdutórias.

É sempre curioso notar que o relato bíblico da criação, quer dizer, este primeiro relato (que estamos estudando) relega a criação do sol e da lua ao quarto dia, quando a luz já fora criada desde o primeiro dia e, com ela, a sucessão de dias e noites.

Há muitas culturas que adoram o sol e a lua como deuses. Muitos povos, dentre aqueles que cercavam os antigos hebreus, tinham crenças assim. Não é difícil imaginar, pois, que a intenção do relato, ao atrasar tanto esta narração, tenha um fundo teológico: como se o narrador quisesse deixar muito claro que o sol e a lua não somente não são deuses, mas sequer são parte da estrutura fundamental, inicial, da criação. Ainda que o relato narre que eles devem reger o dia e a noite, presidindo-os, o relato dá a nítida impressão de uma redução de importância; estes astros são descritos quase que como parte da decoração, muito mais do que como eixos de estruturação.

O debate deste artigo enfocará exatamente a dificuldade resultante da tentativa de ler um relato fundamentalmente teológico sob olhos críticos, a partir de critérios e intenções alheias ao texto.

2. A hipótese controvertida.

De fato, este primeiro relato da criação narra que o sol e a lua foram criados no quarto dia. A hipótese controvertida, que se propõe a introduzir o debate, levanta a ideia de que a narrativa é inconveniente. Parece que estes astros não deveriam ser criados no quarto dia, diz a hipótese. São cinco os argumentos iniciais, no sentido desta hipótese controvertida.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento parte daquela concepção aristotélica de que os corpos celestes não são feitos com a mesma matéria-prima que as coisas da terra. Haveria uma matéria-prima diferente, própria para eles, cuja característica é não ser capaz de compor outras coisas senão aquele corpo celeste a que está destinada. Assim, as coisas que há no espaço sideral seriam feitas dessa matéria-prima que não está sujeita a alteração e degradação, porque foi criada para ser apenas a matéria daqueles corpos. Por exemplo, a matéria-prima do sol só pode ser sol, a matéria-prima da lua só pode ser lua e assim por diante. Com esta concepção em mente, o argumento sugere que esta matéria especial foi criada antes de iniciar-se a sequência dos seis dias da criação, logo no princípio. Mas esta matéria não poderia subsistir sem formar os corpos a que ela estaria destinada a compor, porque ela não existe sob nenhuma outra forma. Portanto, o argumento conclui que os corpos celestes necessariamente existem antes da sequência dos “seis dias”, e esta narração que os coloca como surgindo apenas no quarto dia seria inconveniente, conclui.

O segundo argumento afirma que o sol e a lua são como que “vasos de luz”, ou, diríamos hoje, como que lâmpadas que iluminam o céu. Fontes de luz. Mas a luz, que ilumina o céu e a terra, foi criada no primeiro dia. Não haveria sentido, pois, que existisse a luz antes que existissem suas fontes. Logo, conclui o argumento, a narrativa é errônea e contraditória, ao colocar a criação do sol e da lua no quarto dia.

O terceiro argumento faz uma analogia com a criação das plantas. As plantas são um acessório da terra, e sua criação é narrada no terceiro dia, junto com o surgimento do solo enxuto, no qual elas se fixam. Ora, prossegue o argumento, os astros (o sol e a lua) são como que acessórios do firmamento, no qual eles estão fixos (como se acreditava no tempo de Tomás). Assim, se a criação do solo enxuto levou à descrição da criação das plantas, a descrição da criação do firmamento deveria levar à descrição da criação do sol e da lua, conclui o argumento.

O quarto argumento lembra que a vida dos vegetais está profundamente relacionada ao ciclo dos astros, especialmente do sol e da lua, sem os quais elas não poderiam sobreviver. A luz do sol é uma verdadeira causa da existência e da vida dos vegetais. Ora, sabe-se que as causas vêm necessariamente antes dos efeitos. Mas a criação dos vegetais é descrita como obra do terceiro dia, enquanto a criação do sol e da lua somente é mencionada como obra do quarto dia. Portanto, o argumento conclui que o sol e a lua deveriam ser criados antes que os vegetais, e portanto a ordem descrita no relato da criação é equivocada.

O quinto argumento traz um dado científico que já era conhecido desde o tempo de Tomás. De fato, diz o argumento, muitos astrônomos afirmam que algumas das estrelas são maiores e mais luminosas do que o sol e a lua. Mas o relato bíblico descreve o sol e a lua como “os dois grandes luzeiros” que presidem o dia e a noite. Ora, se há astros que são maiores e mais luminosos do que estes, e disto certamente Deus tem conhecimento, não haveria sentido, prossegue o argumento, em admitir que a narração bíblica estivesse correta ao descrever o sol e a lua como os “dois grandes luzeiros” que presidem o dia e a noite. Assim, o argumento conclui que a narrativa bíblica é equivocada.

3. O argumento sed contra.

O argumento sed contra é simples. Ele lembra que há uma narrativa bíblica de criação, que descreve a obra do quarto dia como aquela obra que faz surgir o sol e a lua. Logo, conclui, assim deve haver ocorrido. O que é, convenhamos, uma razão muito fraca. Que Tomás enriquecerá em sua resposta sintetizadora.

Que veremos no próximo texto.