1. Retomando.

Tomás colocou, no corpo de sua resposta sintetizadora, os elementos para encaminhar o debate. Agora, ele passa a examinar especificamente os argumentos objetores iniciais, respondendo-os com base nos fundamentos colocados na resposta sintetizadora. É uma complementação enriquecedora. Vamos a ela.

2. Os argumentos objetores revisitados e respondidos.

Primeiro argumento.

O primeiro argumento lembra que as plantas, como os animais, são seres vivos. Ora, prossegue, até agora o relato de criação trata das obras de estruturação do cosmos, com a distinção entre céu, terra e águas, e com a separação dos ambientes que, a princípio, eram informes e misturados. Somente na segunda parte, a partir do quarto dia é que o universo começa a ser ornamentado e fervilhar de vida, havendo, então, uma simetria no relato, entre as obras de estruturação, nos três primeiros dias, e as obras de povoamento e ornamentação, nos três últimos. Assim, a descrição da criação dos vegetais neste terceiro dia quebra esta harmonia narrativa e é inadequada, conclui o argumento.

Tomás vai responder que as plantas são, de fato, seres vivos. Mas o são num grau em que a vida, nelas, é como que oculta, dificilmente perceptível à observação. Assim, a vida vegetal é como que a transição entre as coisas inanimadas, por um lado, e as coisas vivas, por outro. Neste sentido, ao narrar a criação das plantas no mesmo dia em que a terra é estruturada em corpos d’água e solo enxuto, a narrativa, de certo modo, torna completa a narração da estruturação da terra, da qual os vegetais participam como parte da paisagem, e prepara a transição para os dias posteriores, em que a terra será povoada e ornamentada de seres vivos.

Segundo argumento.

O segundo argumento recorre a um versículo da chamada “segunda narração da criação”, no qual Deus, confrontado com o pecado dos primeiros pais, induzidos pela serpente, profere uma série de maldições sobre eles. Uma destas maldições (Gn 3, 18) é uma determinação para que a terra produza “espinhos e abrolhos”. Ora, prossegue o argumento, se esta primeira narração é uma celebração das coisas boas que Deus criou desde o início (tanto que o relato de cada dia termina com o refrão “e Deus viu que era bom”), então não há sentido narrar, neste terceiro dia (Gn 1, 11-12) a criação dos vegetais que, mais tarde, serão envolvidos na maldição da terra, e portanto não são coisas boas. E o argumento conclui que a inclusão da criação dos vegetais neste terceiro dia é inconveniente.

Em resposta, Tomás dirá simplesmente que os vegetais (aí incluídos os abrolhos e espinheiros em geral) saíram bons das mãos de Deus, e não tinham, neste momento da criação, a natureza de castigo. Como também o próprio Lúcifer saiu bom das mãos de Deus e veio a tornar-se malvado depois, em função de suas próprias escolhas. Tudo sai bom das mãos de Deus. Mas o pecado rompeu a harmonia entre as criaturas, de tal modo que aquilo que foi criado bom em sua própria ordem de ser (como as plantas espinhosas, que, segundo a ciência, têm estes espinhos em razão da adaptação para viver em climas mais quentes e com pouca disposição de água) passou a representar um castigo na ordem do pecado, não por ter espinhos, mas por vir a aflorar ali onde o trabalho do homem buscava o alimento, e no lugar das plantas alimentícias. Alguém poderia argumentar que esta explicação científica sobre a natureza dos espinhos seria inconcebível com uma narração de criação, porque pressupõe uma adaptação de algo preexistente, de tal modo que os espinhos não existiriam assim que a terra foi criada. Mas Tomás vai nos lembrar que a sua resposta sintetizadora citou a posição de Agostinho, para quem nem tudo aquilo que foi narrado no relato da criação veio a existir imediatamente; a maioria das coisas permaneceu como uma realidade apenas virtual, programada para surgir quando as condições adequadas viessem a aparecer. Assim, podemos concluir que o próprio pecado do homem, rompendo o equilíbrio entre o homem e a natureza, torna má a sua relação com aquilo que Deus criou bom. Portanto, não há nenhum inconveniente em narrar a criação das plantas como algo bom, feito por Deus neste terceiro dia.

Terceiro argumento.

O terceiro argumento diz que, se o motivo para narrar a criação das plantas neste terceiro dia fosse o fato de que elas, de algum modo, integram a própria paisagem da terra, como que fazendo parte dela, então esta narração é inadequada. Na verdade, prossegue, as montanhas, as grandes pedras e outros acidentes de natureza mineral também integram a paisagem da terra, e nem por isto a sua origem é narrada de forma destacada pelas Escrituras. Assim, o argumento conclui que esta narração é inadequada.

Tomás vai responder que as plantas têm uma natureza diferente daquela do próprio solo, o que se faz manifesto pelo modo através do qual são geradas, crescem, corrompem-se e morrem. São coisas distintas do próprio solo onde crescem. Daí a necessidade de que a sua criação fosse narrada separadamente. Mas os acidentes geográficos e formações minerais são da mesma natureza da própria terra, e por isto sua formação já está incluída na própria narração do surgimento do solo enxuto, nos versículos 9 e 10. (Tomás cita o nome de Moisés como autor intelectual do próprio texto da narração, o que a ciência bíblica do tempo dele tinha como um fato inconteste, mas hoje sabe-se que não corresponde à verdade: Moisés não escreveu pessoalmente o Pentateuco).

3. Palavras conclusivas.

Encerramos, assim, esta questão 69, na qual estudamos o relato do terceiro dia da criação. Agora que tudo está estruturado e a terra, devidamente organizada e dotada da vida vegetal, estão colocadas as condições para o seu povoamento. Antes, porém, voltaremos a outro aspecto desconcertante desta narrativa, que é a criação do sol e da lua no quarto dia. É quase como se estes dois astros não fizessem parte da estrutura do universo como fundamentos, mas quase como enfeites, talvez como decoração mesmo. Mas estamos nos adiantando.

É o que veremos nos próximos textos.