1. Retomando.

No texto anterior, vimos instalar-se o debate a respeito do que parece ser uma descrição assimétrica do trabalho da criação, neste terceiro dia. De fato, no primeiro instante da criação, surge algo do nada. Mas este algo era, como vimos no final do texto anterior, informe e vazio. Ou seja, trata-se de algo ainda desestruturado, vago, genérico. Portanto, seria necessário que, neste terceiro dia, esta desestruturação seja superada, organizando-se a base para que o trabalho criador prossiga. A informidade, que consiste na mistura entre água e chão, é resolvida pela separação entre corpos d’água, por um lado, e solo enxuto, por outro. A nudez, ou vazio, é resolvida pelo surgimento do revestimento vegetal, como que cobrindo de decentemente o solo exposto. Este é o sentido, então, da obra de Deus no terceiro dia, como vimos então.

Trata-se, pois, agora, de justificar a escolha do escritor bíblico, ao situar a obra da criação das plantas aqui no terceiro dia.

2. A criação das plantas no terceiro dia.

A posição criacionista.

Mais uma vez, ao resgatar a história da interpretação deste texto na era patrística, Tomás vai registrar a peculiaridade das posições de Santo Agostinho, em comparação com os outros escritores eclesiais antigos.

A posição mais comum, mais difundida, é aquela que interpreta literalmente este versículo 11 do primeiro relato de criação. Para a maioria dos Padres da Igreja, Deus simplesmente fez surgir do solo um espécime de cada vegetal que existe, e, a partir daí, eles foram se reproduzindo, de tal modo que todos continuam a existir até hoje. Este fato estaria descrito no seguimento deste versículo 11 e no versículo 12, quando declaram que cada vegetal deveria dar seus frutos e sementes. Ou seja, esta é uma interpretação que conduz a uma visão fixista da criação: tudo o que havia, há ou haverá, no reino vegetal, teve um espécime neste terceiro dia, que existia de modo atual, e foi sendo perpetuado pela reprodução, até os dias de hoje. Esta é uma visão criacionista, portanto. Criacionista no sentido que exclui, como antibíblica, qualquer possibilidade de admitir uma evolução no mundo dos seres vivos. Tomás diz que esta leitura literal limita-se à superfície, ou seja, não penetra com a profundidade adequada, neste texto.

A posição de Santo Agostinho.

Mais uma vez, Santo Agostinho tem uma interpretação muito mais rica e matizada e, poderíamos dizer, muito mais moderna do que a do conjunto dos antigos intérpretes. Para Agostinho, a narrativa bíblica de criação não deve ser lida como se ensinasse que Deus, com um só gesto, fez surgir espécimes concretos e atuais de todas as espécies de vegetais que deveriam existir em todos os tempos e lugares, de tal modo que, a partir de então, houve apenas a reprodução daquilo que, desde o princípio, já existia de modo efetivo e imutável.

Segundo a leitura de Agostinho, Deus criou, aqui, a capacidade de produzir vegetais. Ou seja, não necessariamente houve, neste terceiro dia, a criação de um exemplar de cada vegetal que existiu, existe ou existirá; Deus instituiu, neste gesto, as razões de todos os vegetais que existiram, existem ou passarão a existir. Vale dizer, as espécies, as sucessões, e até mesmo o eventual encadeamento evolutivo entre as espécies, foram todas criadas neste momento. Não necessariamente, porém, Deus fez surgir um exemplar de tudo o que existiria, neste primeiro momento. Estabeleceu, porém, desde já, a capacidade para que todos os vegetais viessem a existir, ainda que demorasse milhões de anos até que as condições adequadas surgissem para que eles efetivamente aparecessem.

E Santo Agostinho recorre ao próprio texto das Escrituras para fundamentar sua interpretação. De fato, no capítulo 2, versículos 4 e 5 do Gênesis, no chamado “segundo relato da criação”, o relato prossegue, mencionando: “No tempo em que o Senhor Deus fez a terra e o céu, não existia ainda sobre a terra nenhum arbusto nos campos, e nenhuma erva havia ainda brotado nos campos, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem havia homem que a cultivasse”. Ou seja, o prosseguimento da própria narração mostra que a criação não é uma obra fixa e acabada, mas um dinamismo que, embora guarde em si, desde já, a potencialidade de tudo, as razões de tudo (por ser uma obra de inteligência), nem tudo está, desde já, dado, efetivado, concluído. Este segundo relato da criação confirma, pois, o dado científico, segundo Agostinho, e demonstra que aquilo que foi criado no terceiro dia foi a razão das coisas vegetais, suas espécies, seu modo de ser, e a capacidade do solo de fazer germinar e sustentar a vida vegetal.

Os intérpretes que aprofundaram esta linha.

Nesta mesma linha, portanto, há outros intérpretes que sustentam que Deus criou apenas as espécies, quer dizer, o universal das coisas que efetivamente existem no mundo material. O trabalho que envolve o germinar, o crescer e o reproduzir, dizem estes, já não é obra de criação, mas obra de governo do universo, ou seja, trata-se de outra faceta da relação entre Deus e as coisas criadas. Avaliando, pois, o referido versículo 5 do capítulo 2 do Gênesis, que transcrevemos no parágrafo anterior, estes intérpretes afirmam, ainda de modo mais radical do que o próprio Agostinho, que a criação consistiu apenas no estabelecimento das razões, ou seja, das ideias, das capacidades, das potências. Todos os atos, ou seja, o efetivo existir das coisas, sua reprodução, sua sucessão, e até sua eventual evolução, tudo isto estaria submetido não ao poder criador, mas ao poder gerenciador, ou seja, ao governo que Deus exerce sobre a criação. É certo que não se pode fazer uma distinção tão radical, tão platônica, entre a razão das coisas e a sua efetiva existência. Mas certamente podemos entender mais claramente a dinâmica da realidade se conseguirmos fazer uma leitura mais profunda, menos fixista, do relato da criação. E esta leitura, prossegue Tomás, pode encontrar respaldo até mesmo nestes versículos 11 e 12, quando o texto trata das sementes das plantas: sabemos que muitas plantas não produzem sementes, no sentido literal, mas propagam-se pelo caule, pela raiz ou por outra forma qualquer. Quer dizer, ao mencionar os frutos e as sementes, o relato aponta para uma obra perfeita, mas inacabada, plena de dinamismo.

3. Palavras conclusivas.

A riqueza da leitura que Tomás faz do texto, apoiando-se na tradição que parte de Agostinho e se dissemina até hoje, pode nos ajudar a evitar aquilo que o próprio Tomás chama de “leitura superficial” do texto. A leitura superficial parece representar um respeito à literalidade das palavras, mas, na verdade, consiste numa traição ao seu sentido mais profundo.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás às objeções iniciais.