1. Breves palavras introdutórias.
O terceiro dia, no relato bíblico da criação, é um longo dia. Além de distinguir os corpos d’água do solo enxuto, Deus cria os vegetais. E é este, exatamente, o centro de debate aqui. Setá que foi conveniente trazer esta informação para o terceiro dia?
A hipótese controvertida.
Para provocar o debate, o artigo traz a seguinte hipótese controvertida: parece que não é adequado ler que Deus criou as plantas neste terceiro dia da criação. De fato, estávamos tratando, até agora, da estruturação de um universo ainda informe; subitamente, no mesmo dia em que esta estruturação é concluída, surge um relato de criação dos seres vivos. O leitor se espanta com o salto.
Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
2. Os argumentos objetores.
O primeiro argumento.
O primeiro argumento objetor quer comprovar que a introdução da criação das plantas neste ponto é inadequada, lembrando exatamente que elas são seres vivos. De fato, elas pressupõem uma estrutura inanimada para existir, e estes primeiros três dias narram exatamente esta estruturação. Os antigos intérpretes, com base na chamada “versão septuaginta” do Antigo Testamento (a tradução do hebraico para o grego, feita um ou dois séculos antes de Jesus) distinguiam, na criação, as obras de distinção, quando Deus estrutura o universo, das obras de ornamentação, na qual ele povoa de vida o universo já estruturado. Ora, as plantas, como os animais, são seres vivos, diz o argumento. Assim, não são parte da obra de distinção, que é estrutural, mas de ornamentação, que é de povoamento. Logo, conclui o argumento, esta narração da criação dos seres vegetais no terceiro dia é inconveniente.
O segundo argumento.
O segundo argumento lembra que o relato da criação, aqui debatido, é marcado pela observação de que as obras de Deus são boas. Ora, aquilo que não é bom não deveria, portanto, incluir-se nesta narração. E, de fato, mais adiante, quando houver a queda dos primeiros pais, as Escrituras declararão que parte da maldição imputada à criação, pelo pecado original, é que a terra produzirá algumas espécies vegetais maléficas, como espinhos e abrolhos (Gn 3, 18). Logo, nem todos os vegetais e plantas são bons. Alguns são malditos. Portanto, narrar a criação de coisas boas misturadas com coisas malditas é muito inconveniente neste terceiro dia, conclui o argumento.
O terceiro argumento.
As plantas são acessórios da terra, e estão presas, fixas, ao solo que lhes suporta. Mas também as pedras, as grandes formações rochosas e outros afloramentos minerais estão presas à terra e adornam a paisagem. Mas o relato bíblico não faz menção expressa a eles no relato da criação. Logo, não deveria fazer menção à criação das plantas, também.
O argumento sed contra.
O argumento sed contra simplesmente transcreve o versículo 12 deste capítulo 1 do Gênesis, que narra a criação da vegetação e encerra o terceiro dia, dizendo que houve uma tarde e uma manhã. Ora, este fato não estaria narrado na Bíblia se não fosse conveniente. Assim, com base na própria autoridade das Escrituras, o argumento conclui que a narração é adequada e conveniente.
3. A resposta sintetizadora de Tomás.
Primeiro exame.
Tomás nos lembra que, segundo o relato bíblico, toda a obra de estruturação do universo, quanto à ordem de distinção do céu e da terra, está pronta neste terceiro dia do relato.
Ora, esta estruturação pressupõe que, no início do trabalho de criação, tudo estivesse desestruturado. E, de fato, o versículo 2 narra esta desestruturação primordial, em dois níveis:
1. O versículo diz que a terra era informe, quer dizer, não tinha a devida ordem, não se constituía em espaços enxutos e corpos d’água. A água e a terra estavam como que misturados, e não apareciam como tais, ou ao menos a terra enxuta não era manifestada sobre as águas.
2. O mesmo versículo diz que a terra era vazia (ou desordenada, em algumas traduções). Tomás diz que esta expressão representa como que uma nudez, um estado de deserto original, uma exposição da terra que seria, analogicamente falando, quase indecorosa.
Assim, diz ele, neste terceiro dia estes dois níveis de desestruturação são resolvidos por Deus. A informidade, que consiste na mistura entre água e chão, é resolvida pela separação entre corpos d’água, por um lado, e solo enxuto, por outro. A nudez, ou vazio, é resolvida pelo surgimento do revestimento vegetal, como que cobrindo de decentemente o solo exposto. Este é o sentido, então, da obra de Deus no terceiro dia.
4. Conclusão.
A resposta de Tomás, aqui, é muito rica. Depende de uma avaliação mais detalhada, especialmente porque ele nos trará, a seguir, a contribuição da interpretação de Santo Agostinho. Veremos isto no próximo texto.
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