1. Retomando.
Vimos, no texto anterior, que Santo Agostinho entende o relato bíblico da criação como um relato não cronológico, mas que simplesmente estabelece uma ordem de origem para as coisas. Assim, não é simplesmente um relato de algo que ocorreu há muito tempo, e que deu início ao universo, mas é uma descrição da importância que as coisas têm com relação às outras, ou seja, quais coisas são fundamento mais relevante da criação. É por isto que o relato se inicia com a afirmação de que o céu vem antes da terra na criação, e em seguida vai relacionando as coisas que foram criadas e qual a importância relativa delas com relação à criação toda. Assim, após criar o céu, e em seguida a terra, fez-se a luz no primeiro dia e o firmamento no segundo. Neste terceiro dia, a face da terra é organizada, com a separação entre os corpos de água, por um lado, e o chão seco, por outro. Isto pressupõe o trabalho dos dias anteriores e dá fundamento ao trabalho dos dias seguintes, sem que o relato signifique que tudo isto ocorreu dentro do tempo.
2. A interpretação dos outros Padres da Igreja.
Mas muitos outros Padres da Igreja compreendiam este relato de modo cronológico mesmo, embora a designação da divisão do tempo em “dias” não signifique necessariamente a duração que um dia tem hoje, ou seja, o espaço de 24 horas. Mas eles liam o texto como se revelasse de fato uma cronologia, isto é, uma sequência de criação em que os eventos posteriores realmente sucederam os anteriores no tempo.
Para estes intérpretes, a criação iniciou-se pela matéria informe, quer dizer, eles compreendem a afirmação bíblica de Gênesis 1, 2 (a terra estava informe e vazia) como uma época em que, embora já houvesse criado tudo do nada, as coisas ainda não eram distintas e formadas. E mesmo a formação das coisas, sua distinção posterior, não foi simultânea e imediata, mas houve uma sucessão de formas no tempo, de tal modo que as formas mais simples e mais genéricas precederam as formas mais complexas e mais perfeitas.
Mas isto não significa, prossegue Tomás, que houve um momento em que havia algo como uma matéria-prima em estado puramente potencial. Isto nunca existiu. A matéria informe do princípio não apresentava a indeterminação absoluta da matéria-prima. Ela era situada no tempo e espaço, e já apresentava alguma estrutura. Esta primeira estrutura, informe mas já determinada, é representada, no relato da criação, por três palavras que estão logo no início: o céu, a água e a terra. Ou seja, é um princípio em que o céu, a água e a terra apresentam-se como uma grande massa ainda indistinta, carente de toda a organização posterior, de uma ordem que se vai progressivamente impondo à criação na atividade dos seis dias.
As três oposições fundamentais
Por isto, diz Tomás, os primeiros versículos relatam a existência do céu, da terra e da água, antes mesmo de começar o relato dos dias. Mas criam um jogo de oposições para significar a indistinção, a informidade destas três estruturas fundamentais. São elas:
1) A primeira oposição é entre as trevas e a luz, e diz respeito ao céu. No primeiro versículo, Deus cria o céu. Quer dizer, as coisas do alto. Mas, opondo-se à ordem do céu, que será significada pela luz na obra do primeiro dia, o relato fala, no versículo 2, em trevas. Ou seja, o céu existia, mas de modo desordenado, em trevas.
2) A segunda distinção é entre abismo e concentração ordenada das águas, quanto às águas. De fato, o versículo 2 fala que as trevas “cobriam os abismos” e o espírito de Deus pairava sobre as águas. Mais tarde, no versículo 9, Deus reúne as águas num só lugar, ordenando-as.
3) A terceira distinção envolve a terra, que estava informe e vazia no versículo 2, e apresenta-se enxuta e ordenada no versículo 9.
Esta tríplice oposição explica, portanto, o relato da criação quanto ao trabalho de Deus nos três primeiros dias.
No primeiro dia, ordenou-se o céu, separando-se as trevas da luz. Formou-se, aí, o próprio tempo, elemento de inteligibilidade necessário para tornar compreensível o próprio trabalho sucessivo de Deus nos dias e noites que seguem. Sem a distinção entre luz e trevas não haveria sentido falar em dias e noites.
No segundo dia, organizaram-se as águas, que antes submergiam a terra no abismo. Elas organizaram-se em águas acima do firmamento (cujo sentido já foi discutido na questão anterior) e águas abaixo do firmamento. Vale dizer, o segundo dia organiza as águas, elemento intermediário entre o céu e a terra. É muito interessante perceber que, na economia bíblica da salvação, as águas sempre significarão esta ligação entre o céu e a terra, tanto na travessia libertadora do Mar Vermelho, para a aliança de Moisés, quanto, mais tarde, no batismo instituído por Jesus.
No terceiro dia, que é o que está sendo debatido agora, finalmente organiza-se a terra, que é a terceira dimensão mencionada aqui. Ajuntadas, enfim, as águas, aparecem, diz o relato, os solos enxutos, que serão fundamento para a criação dos seres vivos, que virá a seguir. A terra seca surge, já que, até então, as águas cobriam todas as coisas, porque estavam caoticamente espalhadas.
3. Palavras de fechamento.
Vê-se, pois, que o relato tem uma grande coerência interna, desde que não se queira impor a ele, desde fora, aquilo que ele não objetiva esclarecer, quer dizer, conhecimentos científicos sobre a natureza.
Vê-se também que há uma grande abertura em Tomás, de modo a compreender profundamente o texto sem fechar as portas a uma leitura que é, ao mesmo tempo, respeitosa e livre à razão.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
Deixe um comentário