1. Retomando o debate.
O debate, aqui, versa sobre a interpretação correta do relato bíblico da criação, quanto ao terceiro dia. Trata-se da narração daquele momento em que Deus ajunta as águas num só lugar, fazendo aparecer o solo seco. A hipótese controvertida é a de que o relato deste terceiro dia da criação seria inadequado. Vimos os cinco argumentos neste sentido, e o argumento sed contra, que simplesmente reafirma a autoridade bíblica.
Gostaria de fazer uma pequena observação pessoal, neste ponto. Para aqueles que tendem a desprezar o relato bíblico como não científico, devemos lembrar que ele não pretende fazer ciência natural. Mas lida muito bem com os dados empíricos que os antigos tinham à sua disposição. Lembro-me especificamente de um fato ocorrido comigo, durante uma visita técnica a uma reserva ambiental no Mato Grosso, no centro-oeste brasileiro. Um técnico ambiental apanhou do chão, no meio da área de mata, um fóssil de concha marinha, perfeitamente preservado. A mais de dois mil quilômetros do limite atual do Oceano Atlântico. Ora, esta experiência de encontrar fósseis de animais marinhos a uma distância tão grande dos limites atuais dos oceanos pode ter impressionado os antigos, levando-os à convicção de que a criação não foi uma sucessão de eventos fixos, mas uma dinâmica em que as coisas existiram, foram modificadas e passaram a existir de outro modo – o que é bem compatível com a ideia contemporânea de uma formação longa das realidades terrenas, e incompatível com uma noção fixista de criação. Mas é hora de voltar ao texto do artigo.
2. A resposta sintetizadora de São Tomás.
Tomás diz que a leitura destes versículos não é tão simples. Tanto assim que há duas correntes de interpretação; a primeira é a tradição que remonta a santo Agostinho. A outra leitura congrega vários Padres da Igreja, e difere muito daquela de santo Agostinho.
A leitura de Santo Agostinho.
Santo Agostinho tem uma obra de comentário ao Gênesis, na qual ele defende uma leitura não cronológica da sequência dos dias, nesta narrativa da criação. Isto significa dizer que, para Agostinho, quando o relato de criação (que estamos estudando) fala em sete dias de criação, ele não está falando dos dias como sucessão de movimentos do sol e da lua, ou seja, não está falando de “dias” no sentido próprio, que conhecemos hoje. Para Santo Agostinho, esta sucessão de “dias”, neste relato, não quer significar propriamente a passagem do tempo, mas é uma maneira figurativa de narrar a hierarquia das coisas criadas, quanto à sua natureza e à sua origem. Assim, não seria propriamente um relato de começo, mas um relato de origem.
Assim, diz Agostinho, o relato da criação quer nos ensinar que as realidades espirituais são as mais importantes, e por isto inicia o relato dizendo que no início Deus criou o céu, para acrescentar depois: e a terra. As realidades espirituais foram criadas de modo indistinto, diz Agostinho, e depois, no primeiro dia, Deus criou a luz, isto é, formaram-se os anjos e seu mundo da inteligibilidade. Também as realidades materiais foram criadas de modo indistinto, isto é, aquilo que a Bíblia relata de “terra informe” e a água sendo sobrevoada pelo espírito de Deus. Portanto, a própria existência da corporeidade precede, logicamente, a existência das coisas corporais determinadas. Não que isto implique uma sucessão cronológica, repita-se, mas apenas a ideia de que a existência de coisas corporais determinadas pressupõe a existência da matéria fundamental, e esta pressupõe a existência da própria inteligibilidade da realidade.
Feitas, pois, estes primeiros gestos criadores, ou seja, lançadas as bases daquilo que origina tudo o mais, Agostinho ensina que Deus passa, no segundo dia, a distinguir o que está em cima daquilo que está embaixo, e por isto narra a “separação das águas” com a criação do firmamento. O que está no alto, portanto, tem prioridade lógica e ontológica sobre aquilo que está embaixo, e este é o conteúdo da narração do segundo dia.
No terceiro dia, portanto, uma parte da matéria informe, na superfície da terra, toma a forma substancial da água, formando os corpos d’água, enquanto que outra parte da matéria informe adquire a forma substancial do solo. A água tem, então, prioridade lógica e ontológica sobre o solo seco, e, junto com este, será o alicerce para toda a obra que vem logicamente depois. É, pois, neste sentido, de prioridade de origem, que Agostinho reputa muito conveniente narrar a reunião das águas e o surgimento do solo seco neste “terceiro dia” do relato da criação.
A interpretação dos outros Padres da Igreja.
Mas há diversos Padres da Igreja que não seguem esta opinião de Santo Agostinho, de que o relato não descreve um percurso no tempo. Para estes, o relato é cronológico mesmo, ainda que a alusão a “seis dias” não signifique necessariamente um “dia de 24 horas” tal como conhecemos hoje.
Como eles pensam? Como explicam estes versículos que falam do ajuntamento das águas e da formação do solo seco? É o que veremos no próximo texto.
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