1. Palavras iniciais. A hipótese controvertida.

A interpretação do relato bíblico caminha, agora, para a formação dos oceanos e lagos, ou seja, a ornamentação da face da terra em lugares secos e corpos de água. Trata-se de estudar o terceiro dia do primeiro relato bíblico da criação, ou seja, os versículos 9 e 10 do capítulo 1 do Gênesis. Na mesma linha de provocar o debate, de colocar como problemático o dado que se quer estudar, para enriquecer dialeticamente a sua compreensão, a hipótese controvertida inicial, aqui, é a de que estes versículos bíblicos são inadequados, porque não haveria sentido em narrar, neste terceiro dia, uma eventual reunião das águas num determinado lugar, formando os oceanos e corpos d’água em oposição com a terra seca. Portanto, a hipótese controvertida propõe que parece inadequado afirmar que as águas foram reunidas num mesmo lugar, no terceiro dia, e teria aparecido, então, o solo enxuto.

São cinco os argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese controvertida.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor lembra que, no relato do primeiro e do segundo dias, a narrativa sempre se inicia com a ordem divina consubstanciada no imperativo “faça-se”. No primeiro dia, ele ordenou: “faça-se a luz”. No segundo dia, ordenou: “faça-se o firmamento”. Ora, diz o argumento, era de se esperar que, neste terceiro dia, Deus desse uma ordem similar: “faça-se”, e não simplesmente uma determinação para que as águas se ajuntassem aqui e acolá.

O segundo argumento lembra que, no início do relato da criação, fica claro que as águas cobriam a face da terra, sobre a qual pairava o espírito de Deus; de fato, o solo era um abismo indeterminado, coberto pelas chamadas águas inferiores, como se vê nos versículos 2 e 6. Ora, se era assim, a face da terra não dispunha de um lugar no qual as águas pudessem reunir-se (já que elas estavam em toda parte). Portanto, o próprio relato, ao narrar a reunião das águas no terceiro dia, parece contraditório e inadequado, conclui este segundo argumento.

O terceiro argumento lembra que, para que consideremos que as coisas estão no mesmo lugar, é preciso que elas formem um corpo contínuo de matéria. Assim, podemos dizer que todas as águas de uma determinada lagoa estão no mesmo lugar. Mas os corpos de água que existem pelo mundo afora não formam um corpo contínuo de matéria: a água do Oceano Atlântico não tem contato com a água, digamos, do Lago Titicaca, ou do Mar de Tiberíades. Assim, este versículo 9, que narra o terceiro dia da criação, ao relatar que Deus “juntou todas as águas no mesmo lugar”, parece estar equivocado, conclui o argumento.

O quarto argumento aduz que ajuntar-se é uma expressão de designa um movimento local, ou seja, um deslocamento no espaço, do lugar “a” ao lugar “b”. Mas, prossegue o argumento, as águas fazem este tipo de movimento de modo natural: é próprio das águas fluírem de um lugar para outro, ajuntando-se num determinado ponto. Portanto, se isto é uma característica natural das águas, parece desnecessário pleitear uma ordem direta de Deus para que elas tivessem feito isto no terceiro dia da criação.

Por fim, o quinto argumento objetor diz que, logo no início do relato da criação, no primeiro versículo do Gênesis, já se havia narrado que Deus criou a terra. Ali, se diz que no princípio Deus criou o céu e a terra. Ora, se a terra já estava criada, parece redundante que, agora, o versículo 9 venha a relatar que Deus chamou o solo seco de “terra”, conclui este argumento.

3. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai recorrer, simplesmente, à autoridade das Escrituras, ou seja, ao fato de que os versículos 9 e 10 deste capítulo 1º do Gênesis narram que Deus ajuntou as águas num só lugar e fez surgir o solo seco, para reafirmar que isto deve ter sido mesmo assim.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.