1. Retomando o assunto.

Vimos, no final do texto anterior, que Tomás registra a divergência de posição entre São João Crisóstomo, por um lado, e São Basílio (e São João Damasceno), por outro. São Crisóstomo defendia que havia apenas uma realidade que poderia receber o nome de “céu”, abrangendo tudo aquilo que pudesse existir acima do nível do chão. Ele atribuía a menção aos “céus dos céus” (salmo 148, 4) a uma peculiaridade da língua hebraica, na qual as Escrituras foram originalmente escritas, e que usa a repetição e o plural apenas para fins de ênfase (como no livro bíblico do “Cântico dos Cânticos”, por exemplo). Já São Basílio (seguido por São João Damasceno) afirmava que, genericamente, poderíamos de fato chamar de “céu” o conjunto de tudo o que existe acima do nível do chão, mas que este conjunto de realidades apresenta tantas e tais distinções, tantas e tais propriedades diversas entre os vários níveis e dimensões que possui, que podemos, segundo eles, falar adequadamente que há “céus”, no plural.

Até aí tínhamos caminhado no último texto.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

O tríplice sentido da palavra “céu” no relato bíblico da criação.

São Tomás nos explicará que a palavra “céu” é usada, ordinariamente, de três modos, ou com três grupos de significação.

Por onde, para se conhecer a distinção dos céus, deve-se considerar que céu, como substantivo que descreve a estrutura cósmica, toma-se em tríplice acepção, conforme a visão de universo que se tinha antigamente, e que Tomás relaciona assim:

1) No primeiro uso, ou primeiro modo de ver o céu, conforme o modo que alguns antigos imaginavam a estruturação do universo criado, a palavra céu significa uma esfera sublime e luminosa (ainda que esta luminosidade não seja absoluta e constante, como no caso da alternância entre a noite e o dia), de natureza corporal (e portanto parte integral do universo material) e que não estaria sujeito à geração e corrupção própria das coisas terrestres. Para os que viam assim o universo, haveria uma primeira esfera, externa, permanentemente iluminada, que seria o “céu empíreo”, que seria o lugar de repouso dos santos. Uma segunda camada seria translúcida como a água (e portanto estaria incluída naquela passagem bíblica de Gênesis 1, 6, que narra que o firmamento separa as águas terrenas das celestes) e seria chamada de “céu aquoso” ou “céu cristalino”. Uma terceira e última camada conteria em si todos os astros e estrelas, que estariam presos em oito esferas giratórias responsáveis pelo movimento dos corpos celestes (astros e estrelas). Por isto seriam chamados de “oito céus”, compondo o espaço sideral. Teríamos, então, uma camada externa brilhante como o fogo, uma camada intermediária translúcida como a água e uma camada final, dividida em oito esferas, contendo os astros e estrelas que vemos à moite, além do próprio sol.

2) Na segunda visão, céu é tudo aquilo que, de algum modo, participa das qualidades das coisas celestiais, cuja natureza é serem sublimes, ou seja, perfeitas e incorruptíveis, e luminosas. É claro que a luminosidade pode ser atual ou potencial, isto é, a alternância entre o dia e a noite é parte da realidade que esta segunda designação entende por céu. Pra os que veem assim, haveria três esferas acima do chão: a atmosfera (que, para estes, iria até a lua), o espaço sideral, no qual estão os astros e estrelas, e o céu superior, de puro fogo, que seria o “terceiro céu” ao qual São Paulo relata que foi arrebatado, segundo a passagem da 2ª Carta aos Coríntios, 12, 2. Assim, haveria, segundo a visão de São João Damasceno, três céus na criação material. Mas, para complicar ainda mais esta segunda forma de ver o universo, o monge Rábano Mauro, citado neste ponto por São Beda, diz que este “terceiro céu” é composto de ar e fogo, e se divide em quatro camadas, a de fogo inferior, a de fogo superior, a de ar inferior e a de ar superior, de tal modo que seriam sete céus ao todo.

Estas duas visões refletem-se nas obras literárias da época, em especial na Divina Comédia de Dante.

3) Num terceiro sentido, falamos de “céu”, metaforicamente, para designar aquela presença que é, em si mesma, pura luz e pura perfeição: a presença absoluta da Santíssima Trindade. É usando este sentido metafórico que a Bíblia relata que o Diabo teria ambicionado “subir ao céu” (Isaías 14, 13), no sentido de ambicionar igualar-se a Deus mesmo. Assim, usando este sentido metafórico, diz-se que os bens espirituais, isto é, a recompensa dos santos após a morte (que é a própria presença de Deus) é chamada de “céu”. Ou ainda, neste sentido metafórico, chamamos de céu aqueles êxtases em que os grandes místicos podem intuir a presença de Deus, seja pela sensibilidade corpórea (pensemos em Santa Teresa D’Àvila e seu coração transpassado), seja pela imaginação (pensemos aqui nos grandes escritores espirituais e sua poesia), ou intelectualmente mesmo, como foi o caso da experiência mística de São Paulo citada em 2 Coríntios 12, 2, já mencionada acima. Neste caso, a experiência mística seria descrita como “três céus” (o gozo físico, o imaginário ou poético e o intelectual), e São Paulo teria atingido este terceiro céu.

Vemos, pois, uma riqueza de visão do homem medieval, em cujo patrimônio intelectual havia também a antiguidade clássica. Tudo isto nos parece um tanto ultrapassado cientificamente, é certo. Mas talvez nós, daqui a oitocentos anos, vamos parecer ultrapassados também, em nossa ciência. O certo é que conhecer esta visão nos permite penetrar mais profundamente nas Escrituras e em toda a tradição patrística e escolástica. Para perceber, inclusive, quão equivocada é o chamado “terraplanismo”, que não tem origem na idade média, mas nos equívocos do nosso próprio tempo.

3. Resposta aos argumentos objetores iniciais.

Havendo, pois, explorado a riqueza da significação do nome “céu” em seu tempo, Tomás passa a responder diretamente aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento diz que “céu” é o oposto de terra. Ora, diz ele, cada coisa só pode ter um oposto, em sentido absoluto. Logo, se há apenas uma terra, deve haver apenas um céu, conclui.

Não é assim, diz Tomás. Sendo fiel à visão científica do Seu tempo, Tomás diz que o universo tem a terra como uma esfera fixa em seu centro. Assim, nada impede que ela seja cercada por diversos níveis de esferas, acima, a que podemos chamar de “céu’. Diversas esferas, com diâmetros diferentes, podem ter o mesmo centro. Por isto, nada impede que haja vários céus.

É claro que esta visão está ultrapassada pelos novos conhecimentos astronômicos a partir de Copérnico e Galileo, dentre outros. Mas vale a pena acompanhar a simplicidade da resposta de Tomás.

O segundo argumento.

O segundo argumento é o da “totalidade da matéria”. Aquilo que usa a toralidade da matéria de alguma coisa tem que ser necessariamente único. Imaginemos um bolo que use toda a farinha de trigo de uma casa: haverá apenas um bolo, porque não haverá mais farinha para outro. Ora, diz o argumento, o céu, segundo Aristóteles, usa completamente a matéria disponível para ele. Logo, conclui, deve haver apenas um céu.

Tomás nos responde que, se usamos a palavra “céu” como significando “o conjunto das criaturas materiais que não estão na terra”, então, de fato, há apenas um céu. Mas as Escrituras tratam de outras dimensões, que não são materiais, e que também são chamadas de “céu”, como vimos na resposta acima e nos artigos anteriores.

O terceiro argumento.

A palavra “céu”, diz o argumento, pode ser utilizada em sentido unívoco ou em sentido equívoco. Em sentido unívoco é quando nomeamos várias realidades que se unificam sob a mesma razão. Quando chamamos, por exemplo, os gatos e os leões de “felinos”, estamos usando “felino”, aqui, em sentido unívoco. Mas se chamamos um animal de “gato” e depois usamos a palavra “gato” para designar uma instalação elétrica clandestina, estamos usando a palavra “gato” em sentido equívoco, porque nas duas nomeações não há a mesma razão. Ora, não podemos imaginar que pudéssemos nomear de céu, univocamente, várias realidades, porque não há várias realidades diferentes que compartilhem de uma mesma razão celeste, como há vários animais que compartilham o ser do gênero dos felinos. Assim, conclui o argumento, no sentido unívoco há apenas um céu.

Tomás responde que há uma razão comum entre as diversas realidades que chamamos de “céu”: todas são sublimes, ou seja, perfeitas e esteticamente aprazíveis, e todas são luminosas de algum modo. Assim, diz ele, podem chamar-se legitimamente de céu. Por isto, diz Tomás, é adequado dizer que Deus criou vários céus. Talvez pudéssemos dizer que estas várias realidades compartilham o nome de “Céu” não de modo unívoco, mas apenas de modo análogo, porque as razões pelas quais as chamamos de céu não são idênticas em cada uma destas realidades, mas, certamente, proporcionadas entre si. Do mesmo jeito que chamamos de “militar” ao general, ao seu veículo, às suas armas e à sua habitação, por analogia, podemos chamar de “céu”, por analogia, a vastidão da atmosfera, a beleza maravilhosa do cosmos e ao gozo sem fim da presença divina pelos santos.