1. Palavras introdutórias.
Eis um tema interessante; o substantivo “céu” não é unívoco. De fato, designa mais de uma realidade. Tanto falamos em “céu” para denominar a parte da atmosfera que está distante do chão, quanto para designar o espaço sideral como para mencionar aquela realidade na qual repousam os santos que já morreram. Afinal, a qual realidade o relato da criação alude, nesta passagem? Afinal, quantos céus existem? E por que tais realidades são chamadas pelo mesmo nome, isto é, existindo mais de uma realidade que se poderia chamar de “céu”, elas seriam denominadas assim em sentido unívoco, equívoco ou análogo?
Este debate é interessantíssimo. No fundo, ele esconde uma premissa materialista: não haveria nenhuma realidade espiritual, transcendente, que se pudesse chamar de “céu”, mas apenas aquilo que vemos. Em inglês, há duas palavras para designar estas realidades: “sky” designa o céu que está acima de nossas cabeças, enquanto “heaven” designa a realidade transcendente na qual estão os santos. Um eco deste pensamento poderia ser visto naquela canção de John Lennon, chamada “Imagine”, em que ele propõe que nós concebamos a inexistência de um paraíso, mas que acreditemos que há apenas um céu material sobre nossas cabeças. Em português, como em latim, há apenas uma palavra para as duas realidades. Então o debate que resta é o de saber se há apenas este céu material, ou se há aquilo que os antigos chamavam de “céu empíreo”, ou céu transcendente, no qual se encontram os santos que já faleceram.
É claro que está em jogo, aqui, uma visão do universo fisicamente ultrapassada, na qual a terra, embora esférica, era vista como o centro do universo. E isto se reflete na resposta de Tomás, que respeitava e conhecida a ciência do seu tempo. Mas a sua resposta continua interessante para nós, embora cientificamente ultrapassada. É que ele vai defender a existência desta realidade espiritual, transcendente, que chamamos de céu, e para onde, acreditamos, somos chamados a ir, se nos santificarmos.
A hipótese controvertida.
Vamos ao artigo. A hipótese controvertida, aqui, é a de que há apenas uma realidade criada que se pode chamar propriamente de “céu”; há três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese.
2. Os argumentos objetores e o argumento sed contra.
O primeiro argumento tenta estabelecer a ideia de que apenas uma realidade chamada “céu” foi criada por Deus, segundo este relato de criação. Segundo este argumento, “céu” e “terra” são realidades opostas, na criação. O relato começa narrando que “no princípio, Deus criou o céu e a terra”, conforme o primeiro versículo do capítulo 1 do Gênesis. Mas, para cada realidade que é singular, há apenas um oposto, que também é singular; isto é, se a terra é apenas uma, e o céu é o oposto dela, ele deve ser forçosamente apenas um, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor inicia dizendo que, se uma coisa consiste na soma completa da massa que a constitui, ela deve ser apenas uma. É fácil imaginar visualmente isto: imagine que estamos batendo massa de bolo. Se colocarmos toda a massa de bolo numa mesma assadeira, haverá apenas um bolo. Para haver mais bolo, seria necessário que houvesse sobrado alguma massa de bolo na batedeira. Ora, o argumento então traz uma citação retirada do livro “Sobre o Céu”, de Aristóteles (a quem, como sabemos, Tomás chama simplesmente de “o” Filósofo), no qual ele assegura que o céu contém em si toda a matéria celeste. Assim, o argumento conclui que só pode haver um, e somente um, céu.
O terceiro argumento é linguístico: as palavras podem nomear várias coisas diferentes. Ora, elas podem fazer isto univocamente, quando as coisas têm a mesma razão de ser. Assim, por exemplo, todos os gatos do mundo são chamados univocamente de “gatos” porque são todos da mesma espécie, ou seja, são igualmente felinos. Mas a palavra “gato” também designa uma ligação clandestina de eletricidade, e portanto designa uma coisa que não é um felino. Neste caso, a palavra “gato” tem um uso equívoco, ao designar coisas que têm o mesmo nome mas não têm a mesma razão de ser. Assim, se houver, na mesma sala, um felino e uma ligação elétrica clandestina, eu não poderia dizer que há muitos “gatos”, porque não podemos somar coisas heterogêneas. Ora, se há várias realidades que são chamadas igualmente de “céu”, então eles recebem esta designação por alguma razão em comum, e neste caso a palavra céu está sendo usada univocamente, ou sem que haja razão em comum, caso em que está sendo usada de modo equívoco. Univocamente não é, diz o argumento, porque não podemos apontar uma razão em comum para que a atmosfera, o espaço sideral e o lugar de repouso dos santos sejam denominados com a mesma palavra. Se o uso da palavra “céu” é equívoco, então não podemos somar estas realidades para dizer que há muitos “céus”, porque não se podem somar coisas heterogêneas. Logo, conclui o argumento, não podemos dizer que há muitos céus.
O argumento sed contra vai resgatar uma citação bíblica (salmo 148, 4): “Louvai-o, céus dos céus!”. Ora, se a própria Bíblia menciona, com um plural enfático, esta realidade, então há vários céus, conclui o argumento.
3. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás começa resgatando, neste assunto, a divergência entre os intérpretes vinculados ao pensamento de São João Crisóstomo. Este Padre da Igreja acreditava que havia apenas uma realidade que se podia chamar de “céu”, e que abrangia tudo o que existe acima do chão e do nível das águas. É por isto que as aves, dizia Crisóstomo, são chamadas de “aves do céu”. Crisóstomo chega a afirmar que, no hebraico, há palavras que, embora sejam singulares, são registradas no plural, em razão de ênfase. Assim, diz ele, é normal que as Escrituras, escritas em hebraico, registrem a expressão “céu dos céus”, embora refiram-se a uma realidade que é só.
Outra corrente, representada por São Basílio e São Damasceno, entre outros, defende que esta realidade toda, ou seja, tudo o que não é superfície da terra, mas está acima dela, de fato apresenta várias distinções e propriedades diversas, de tal modo que, embora possa ser vista como uma única realidade, merece ser chamada no plural, como “céus”, para exprimir esta riqueza.
E como Tomás se posiciona? É o que veremos no próximo texto.
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