1. Retomando o debate.
Vimos, no último texto, que o debate, aqui, envolve o sentido que pode haver na ideia de que o firmamento separa as águas superiores das inferiores, expressa no versículo 6 do capítulo 1 do Gênesis. Vimos, também, que seria muito fácil interpretar este versículo se tomássemos como base aquela ideia, presente em alguns filósofos gregos antigos, de que a água é o princípio da natureza, que ela é, por si mesma, indeterminada (infinita, diriam eles) e que todos os seres corporais seriam apenas a água depois de determinada, Assim, a criação do firmamento separaria as águas inferiores (cuja determinação dá origem à realidade terrena, conforme os seis dias do relato da criação) das águas superiores, ou seja, daquela água que permaneceria indeterminada, acima das abóbadas celestes. Mas o próprio Tomás afasta esta ideia, simplesmente porque esta filosofia é falsa. É a matéria-prima, não a água, que apresenta esta característica de substrato material indeterminado de todas as coisas. Por isto, esta filosofia não pode servir para interpretar a Bíblia.
2. O princípio da “condescendência de Moisés”.
Neste ponto, Tomás vai introduzir um princípio de interpretação bíblica que era muito forte, no tempo dele; tempos de uma leitura menos crítica da Bíblia. Naquele tempo, imaginava-se que Moisés havia escrito pessoalmente os cinco primeiros livros da Bíblia, o chamado “Pentateuco”. E que ele haveria recebido de Deus uma revelação muito profunda, que incluiria também uma ciência perfeita das coisas criadas. Seria necessário explicar, pois, como é que, tendo recebido de Deus a revelação, a Bíblia parece ser um tanto, digamos, desatualizada em termos de ciência. Este é um problema que já se punha no tempo de Tomás, e hoje ainda mais.
Os intérpretes antigos, dentre eles o próprio Tomás, apelavam, então, para a ideia de que Moisés teve que adaptar a Revelação divina à natureza ignorante e rude dos hebreus do seu tempo. Ou seja, embora Moisés tivesse acesso à ciência divina, ele adaptou os conhecimentos que recebeu, de tal modo a se fazer compreendido por um povo atrasado e dado à idolatria. Afastou, pois, tudo o que poderia dar margem à idolatria, por um lado, e tudo o que o povo não poderia compreender por falta de profundidade filosófica e científica, do outro.
Isto explicaria, por exemplo, a razão pela qual este relato da criação faz menção expressa à terra e à água, mas omite o ar, que, na visão de Tomás, é um elemento com igual dignidade. É que o ar é menos evidente aos sentidos, de tal forma que é fácil perceber que a água e a terra são realidades materiais, mas é mais difícil chegar à ideia de que o ar também o é. E, de fato, mesmo entre os filósofos gregos, nem todos chegaram a desenvolver esta percepção.
Assim, diz Tomás, Moisés omite o ar, no seu primeiro relato de criação, para não confundir a cabeça do povo. Mas deixa espaço para que se interprete indiretamente a presença do ar na criação, ao fazer menção às trevas que cobriam os “abismos”; de fato, diz Tomás, fazendo uma breve digressão, o ar é o lugar da presença da luz e, portanto, das trevas.
O ar e o espaço vazio como “água”.
Mas, voltando para o que interessa, Tomás diz que, com a omissão do elemento “ar”, podemos entender que, na criação, a referência à água sempre envolve uma referência a todas as realidades que são translúcidas, como a atmosfera ou mesmo o éter sideral. Qualquer esfera que permita a passagem da luz pode ser englobado, então, na noção de “água” que as Escrituras trazem, nesta passagem.
Assim, tanto faz entender, aqui, que o “firmamento” mencionado pelo relato da criação é a atmosfera, ou entender que é o espaço sideral. Em ambos os casos, diz Tomás, a expressão do versículo 6, que relata que o firmamento separou as águas de cima das inferiores significa simplesmente que o firmamento criou espaços translúcidos acima e abaixo de si. Assim, nas esferas celestes, os grandes espaços siderais vazios são translúcidos, e podem ser considerados como “águas superiores”, enquanto na atmosfera o próprio ar teria este papel, e pode ser considerado como se fosse denominado, nesta passagem bíblica, como as “águas inferiores”. E assim a interpretação bíblica pode preservar tanto o dado da razão quanto a integridade do texto revelado.
É interessante notar que, embora nossa visão a respeito da revelação não mais presuma que ela transmita uma onisciência ao autor bíblico, de tal modo que ele tenha que ocultar, de certa forma, a inteireza do dado revelado para torná-lo adaptado ao seu leitor, ou que ele o omita ou reinterprete para preservar o povo da idolatria, a Constituição Dei Verbum, de certo modo, ainda está atenta aos princípios interpretativos que Tomás menciona. Ela diz que “Para descobrir a intenção dos escritores sagrados, devem ser tidos também em conta, entre outras coisas, os «gêneros literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos diversos, segundo se trata de gêneros históricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa, além disso, que o intérprete busque o sentido que o escritor, em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de fato exprimiu, servindo-se dos gêneros literários então usados. Com efeito, para entender retamente o que autor sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos em que escreveu, quer àqueles que costumavam empregar-se frequentemente nas relações entre os homens de então”.
3. Enfrentando os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento diz que cada tipo de coisa tem um “lugar natural” na criação. Ora, se a água é um tipo de coisa, ela não pode ter dois lugares naturais, um sob o firmamento e outro acima dele. Logo, conclui, não é justo dizer que o firmamento separa “águas superiores” das “águas inferiores”.
Mas Tomás diz que há, aqui, duas interpretações possíveis para a menção bíblica a “águas superiores” e “águas inferiores” divididas pelo firmamento. No primeiro caso, se entendemos o “firmamento” como o espaço sideral, o que se chama de “águas superiores” não teria a mesma natureza das inferiores. Haveria apenas uma analogia entre aquilo que é translúcido aqui na terra e aquilo que é translúcido no espaço sideral. Mas se compreendermos o “firmamento” como a parte elevada da atmosfera, então as “águas inferiores” têm a mesma natureza das “superiores”, mas a razão pela qual existe água no alto é diferente daquela pela qual existe água aqui embaixo. A explicação é o ciclo natural das chuvas. Ali, no alto, ela está em razão da evaporação e da condensação, aqui embaixo ela existe nas formas líquida e sólida. Assim, não há contradição em existir água em dois lugares naturais diferentes.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor prossegue o raciocínio do primeiro. Se as águas superiores são de um tipo diferente daquele das águas inferiores, então elas são coisas diferentes entre si. Ora, prossegue o argumento, as coisas diferentes distinguem-se por serem de espécies diferentes, não por estarem em lugares diferentes, ou separadas por alguma coisa. Assim, se as águas superiores são diferentes das inferiores, é isto que as distingue, ou seja, a diferença de espécie, e não o fato de existir o firmamento separando umas das outras.
Tomás responderá simplesmente que, mesmo que alguém admita que o texto bíblico, ao mencionar “águas inferiores” e “superiores” ao firmamento, está falando apenas por analogia, mas fala de realidades diferentes (ou seja, as águas que possam existir acima do firmamento seriam diferentes das que existem aqui na terra), ainda assim, quando o texto bíblico diz que elas são separadas entre si pelo firmamento, não quer significar que é o firmamento que as torna diversas, mas apenas que o firmamento estabelece um limite geográfico entre elas.
O terceiro argumento.
O terceiro argumento diz que, para que um obstáculo físico possa separar águas, ele tem que estar no meio destas águas, isto é, ser tocado pelas águas pelos dois lados. Como, por exemplo, uma parede erguida no meio de um rio. Mas a observação demonstra que as águas inferiores não tocam o firmamento, mas ficam no chão. Assim, o argumento conclui que o relato bíblico é inconveniente.
Mas Tomás nos adverte, simplesmente, que não podemos ler a Bíblia de modo tão literal, fundamentalista mesmo. Quando o relato fala de águas, aqui, ele simplesmente registra que o céu está separado da terra por corpos translúcidos, como o ar; estes corpos estão delimitados pelo firmamento. Assim, o relato bíblico deve ser lido de tal modo que seu sentido não seja distorcido por uma acomodação inadequada a uma visão de mundo que o escritor bíblico não tinha e não podia ter.
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