1. Palavras iniciais. A hipótese controvertida.

Vimos, nos últimos textos, o esforço de Tomás para preservar a afirmação bíblica de que há água no firmamento. Agora, veremos que ele debate em que sentido as Escrituras ensinam que o firmamento separa as águas inferiores das superiores.

Dada a importância das águas nas Escrituras, como símbolo do Espírito Santo e de renovação, seria muito fácil concluir que há, aqui, uma profecia dessas “águas” que simbolizam o início de uma nova vida, para o ser humano, em relação com Deus. Assim, a Arca de Noé singra as águas, Moisés e Josué atravessam as águas para a liberdade, Ezequiel vê as águas que saem do Templo para purificar o mundo e Jesus nos dá o batismo como água que faz nascer de novo (João 3, 5). Mas não

é isto que vamos debater aqui.

O que está em jogo, aqui, é a noção de que, no segundo dia da criação, Deus estabelece o firmamento como algo que separa as águas de cima das águas aqui de baixo (Gênesis 1, 7). No texto anterior, vimos a riqueza de leituras que procuram harmonizar a revelação de que há águas acima do firmamento com a visão de mundo que havia no tempo de Tomás. Aqui o problema é outro. A hipótese é a de que o firmamento não separa as águas de cima daquelas aqui debaixo.

São três os argumentos objetores iniciais. Nós os veremos a seguir.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor parte da ideia, própria da visão de universo de Aristóteles, de que as coisas têm um “lugar natural” no cosmos, de acordo com sua estrutura. Sem ter a noção de gravidade, Aristóteles (que acreditava que a Terra era o centro do universo) observava que algumas coisas tendem a subir e outras a descer. Assim, as coisas gasosas, segundo ele acreditava, tinham seu “lugar natural” no alto, longe da terra; também o fogo, para ele, tinha o lugar natural no alto. Mas as coisas líquidas e as coisas sólidas tendem a descer para a terra; logo, têm seu “lugar natural” aqui embaixo. Ora, prossegue o argumento, se isto é verdade, então não podemos admitir que a mesma coisa tenha, ao mesmo tempo, um “lugar natural” em cima e um “lugar natural” abaixo. Cada tipo de coisa tem apenas uma natureza, e portanto deve ter apenas um lugar natural. Portanto, conclui o argumento, o relato bíblico erra, ao dizer que o firmamento separa as “águas de cima” das “águas de baixo”, como se existissem águas cujo lugar natural é em cima e outras cujo lugar natural é abaixo. O argumento conclui, pois, que o relato bíblico é equivocado.

O segundo argumento objetor.

Se as águas que estão acima do firmamento são da mesma espécie daquelas que estão abaixo, aplica-se a refutação do primeiro argumento, acima, diz o argumento. Mas se elas são de outra espécie, entãonão é o firmamento que as separa, mas o próprio fato de que são coisas de espécies diferentes. Então o relato bíblico é falho, ao mencionar que estas águas diferenciam-se por estarem em posições diferentes, com relação ao firmamento, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento diz que, para que um obstáculo separe as águas, é preciso que ele seja cercado por elas; como uma parede que, construída no meio de um lago, tivesse água de um lado e água do outro. Desta parede poderíamos dizer que ela separa as águas de um lado daquelas que existem do outro lado. Mas, no caso do firmamento, ele não é um corpo que é tocado, por baixo, pelas águas aqui da terra, mesmo que fosse tocado, por cima, pelas águas celestiais. Assim, conclui o argumento, não se poderia dizer, como diz a Bíblia, que o firmamento separa as águas de cima das águas debaixo.

O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente transcreve o texto do versículo 6 deste primeiro capítulo do Gênesis, em que Deus diz: “Faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele umas das outras”. A autoridade da Bíblia, portanto, exige que acreditemos que o firmamento realmente separa águas de cima de águas debaixo, conclui o argumento.

3. A resposta sintetizadora de Tomás. Primeiro exame.

Tomás vai iniciar lembrando que, dentre tantas teorias sobre qual seria o fundamento da realidade, ou seja, o princípio que estrutura todas as coisas, alguns filósofos gregos antigos consideraram que a água era este princípio último das coisas, algo como uma “partícula fundamental” que constituiria todas as coisas. Assim, para tais filósofos antigos, a água era uma massa indeterminada (ou, como diziam os antigos, “infinita”, já que, para eles, ser infinito seria uma imperfeição, uma ausência de determinação) que estaria à disposição para a formação de todas as coisas que existem. Ora, alguns intérpretes da Bíblia foram influenciados por este pensamento, e leram a Bíblia sob este pressuposto. Estes exegetas entenderam, então, que o versículo 2, quando faz menção a um “abismo” existente na criação antes do trabalho dos seis “dias”, seria uma ilusão a esta “água indeterminada” que viria, depois, a compor o corpo de todas as coisas que foram criadas nos seis dias. Assim, com a criação do firmamento, estas águas que ficaram acima do firmamento continuaram a ter a característica da indeterminação (teriam continuado “infinitas”), enquanto as águas abaixo do céu foram formando as coisas cuja descrição está no relato do trabalho dos seis dias. E assim estes intérpretes explicavam este versículo 6, quanto à existência de águas separadas pelo firmamento.

Mas esta posição filosófica é equivocada, diz Tomás. A água não é a “partícula fundamental” do universo, mas este papel cabe à matéria-prima, esta, sim, caracterizada pela indeterminação absoluta. Mas não é este o lugar para debater metafísica.

Afastada esta interpretação, Tomás vai examinar as outras possíveis explicações. Veremos isto no próximo texto.