1. Relembrando.
Vimos como Tomás estabeleceu os parâmetros para a sua resposta, ao considerar os diversos modelos de universo que a ciência do seu tempo conhecia, harmonizando-os com a leitura bíblica, de modo a preservar o que ele percebia como sendo o seu sentido fundamental. Postos estes fundamentos, vamos examinar o modo pelo qual ele responde diretamente aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento.
Como vimos, o primeiro argumento é científico, e constata que, uma vez que a água tem peso, ela tende a ser atraída para baixo. Logo, ela não ficaria retida acima do firmamento, mas tenderia a voltar para a terra, e o texto bíblico que declara haver água sobre o firmamento está equivocado, afirma o argumento.
Tomás responde dizendo que seria tentador afirmar que, se a revelação nos garante que há água sobre o firmamento, Deus é poderoso o suficiente para mantê-las ali mesmo contra as leis da natureza. Mas esta resposta seria inadequada.
De fato, como Tomás lembra, Santo Agostinho já nos ensinou que o relato da criação quer ensinar a maneira pela qual Deus instituiu a natureza, não a maneira pela qual ele interfere nelas miraculosamente para manifestar seu poder. Esta é uma característica judaico-cristã: o relato da criação não é um relato de uma instituição arbitrária da realidade por uma manifestação unilateral de poder divino, mas a narração de como Deus criou um universo bom e cheio de sentido. Portanto, é péssima ideia apelar para o simples poder de Deus quando se quer interpretar o relato das Escrituras quanto à criação.
Assim, diz Tomás, é muito mais adequado adotar uma das leituras explicadas na resposta sintetizadora e estudadas por nós no último texto. Quer dizer, podemos defender que a menção à separação das águas relaciona-se à separação da matéria terrestre informe, que seria como a “água” que ficou na terra, daquela matéria informe que geraria o quinto elemento, do qual o firmamento é composto. Ou ainda que a interposição destes corpos, o terrestre e o sideral, separam as águas umas das outras.
O segundo argumento.
A segunda objeção toma aquela ideia, corrente ao tempo da Suma, de que o firmamento é uma grande abóbada espacial, para afirmar que ela não poderia reter água. A água é fluida, e não ficaria sobre o teto abobadado do firmamento. Logo, conclui, o relato bíblico não é consistente.
Tomás registra duas opiniões de São Basílio sobre o assunto:
1. De fato, que alguma coisa nos pareça uma abóbada, vista por baixo como nós vemos, não implica que ela seja, de fato, uma abóbada, se conseguíssemos ver por cima. Assim, não sabemos ao certo qual é o formato do firmamento visto por cima, de tal modo que não é impossível que ele possa reter água sobre ele.
2. Pode ser que as águas que estão sobre o firmamento não estejam no estado líquido, mas no estado sólido. Ora, alguns antigos chamavam o firmamento de “céu cristalino”; não está descartado, portanto, que a água que o firmamento retém seja, simplesmente, gelo.
Vê-se, pois, a diferença entre a postura de tantos que querem usar a ciência para desqualificar as Escrituras, e aqueles, como Tomás, que são capazes de valorizar e desenvolver a ciência, mas sempre estão dispostos a respeitar a integridade da revelação bíblica sem transigir com a razão humana.
O terceiro argumento.
Por fim, o terceiro argumento também parte da ciência daquele tempo. A água, como se acreditava então, seria um dos elementos que compunham todas as coisas que existem, junto com o fogo, a terra e o ar. Ora, prossegue o argumento, as coisas que são geradas com estes elementos, bem como as que são destruídas, estão todas na terra, uma vez que, como se acreditava então, no firmamento todas as coisas eram perfeitas e indestrutíveis. Logo, o argumento conclui que não haveria sentido em imaginar a existência de águas acima do firmamento, onde nada é gerado.
Qual a razão, então, ou seja, qual a causa final da existência de águas no firmamento? É isto que Tomás vai especular, agora, com base nas hipóteses que ele colecionou em sua resposta sintetizadora.
Tomás responde que há três opiniões sobre a existência de água no firmamento. A terceira e última, que ele cita na sua resposta sintetizadora, é a que entende esta referência à atmosfera, e a água seria simplesmente o vapor que se condensa nas nuvens. Neste caso, diz Tomás, a causa final da existência desta água no firmamento é o próprio ciclo das chuvas.
A segunda opinião é aquela que entende que a menção às “águas” no firmamento se dá por analogia, uma vez que as esferas acima das estrelas seriam translúcidas como a água. Esta esfera, para os que têm esta visão, funcionaria como primeiro motor de tudo o que está abaixo dela, e portanto é responsável, em última análise, por todas as transformações que, em cadeia, ocorrem nas esferas inferiores e, por via de consequência, na terra. Esta segunda opinião decorre, pois, de uma daquelas visões de mundo gregas que hoje avaliamos como anacrônicas e ultrapassadas, mas eram correntes no tempo de Tomás.
Por fim, aqueles que entendem como Empédocles, ou seja, que no firmamento há os mesmos elementos que na terra, que é a primeira opinião examinada na resposta sintetizadora acima, a razão pela qual a água está no espaço sideral poderia ser, por exemplo, o controle da temperatura dos corpos celestes. É por isto, diz Tomás, que alguns opinam que Saturno é um astro frio. É que, para estes, há muita água em seu entorno.
3. Palavras conclusivas.
Já vimos, num texto anterior, que a Constituição Apostólica Dei Verbum nos aconselha a considerar, na leitura bíblica, o sentido pretendido pelo autor divino, que respeita sempre os limites culturais e históricos do autor humano. Tomás viveu, é claro, numa era muito anterior à chamada abordagem histórico-crítica da Bíblia. Mas, em suas respostas, ele intui que a leitura bíblica deve harmonizar o sentido do texto com as descobertas da razão humana, e faz isto na prática, em sua exegese. Neste sentido, a sua forma de ler continua sendo inspiradora para nós; embora muito mais pela orientação do que pelos modelos que usa, que nos parecem anacrônicos. Precisamos lembrar, no entanto, que talvez os nossos, de hoje, parecerão anacrônicos a alguém que os leia daqui a oitocentos anos.
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