1. Palavras introdutórias.

Os antigos hebreus, no tempo em que foi escrito o relato do Gênesis, possuíam sua própria visão do universo, no seu modo tradicional de ver o mundo. Parece claro para nós, hoje, que a revelação divina, que envolveu o relato da criação, tinha os seus objetivos. Principalmente revelar Deus, o seu amor pelo mundo criado, a sua alteridade, a bondade das criaturas e a onipotência divina, capaz de tirar, sem esforço, tudo do nada. Mas, dentre os objetivos do relato revelado, não estava o de ensinar ciência natural. Portanto, a relação entre Deus, que se revela, e o escritor sagrado, não faz deste último, que é humano e continua a sê-lo, alguém onisciente, nem lhe revela a estrutura interior do universo. Onisciente é Deus, não o hagiógrafo que escreveu o relato. Há muito já sabemos que a inspiração que levou à escrita da revelação bíblica não é um ditado, mas de fato uma cooperação entre Deus que se revela e o ser humano, que recebe esta revelação.

Tomás está ciente disto. Mas também está ciente de que o relato bíblico sofre constantes ataques em diversos níveis. Em especial, ele sofre ataques de pessoas estranhas à fé, e que querem desmentir a Bíblia através de uma comparação do texto bíblico com suas próprias filosofias e visões científicas, tentando ridicularizá-la e evidenciar suas contradições, a fim de desacreditar sua origem divina. E é exatamente isto o que está acontecendo agora, no estudo que fazemos desta questão da Suma: Tomás registra estes ataques e nos mostra, serenamente, como ele os responde.

2. A hipótese controvertida.

Este artigo, pois, encontra-se nesta situação: segundo a antiga visão de mundo hebraica, acima da abóbada celeste havia água; não é por outro motivo que, no relato bíblico da saga de Elias (1 reis 17), diz-se que Deus fechou as comportas do céu, para significar o longo período de estiagem que houve então.

Mas, segundo a visão dos filósofos gregos e, em geral, da ciência que se conhecia no tempo de Tomás, o firmamento era composto de esferas que prendiam os astros e estrelas. Isto era suficiente para que os sábios reclamassem do relato bíblico, construído sobre a visão hebraica, e o denunciassem como falso. Segundo sua própria visão, uma vez que não há águas no firmamento, e o relato narra que elas existem, então o relato é falso. E é exatamente esta hipótese que Tomás quer testar agora. Parece que não há águas sobre o firmamento, diz a hipótese controvertida. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial, e um argumento sed contra, que examinaremos a seguir.

3. Os Argumentos Objetores e o argumento sed contra.

O primeiro argumento objetor, no sentido da hipótese controvertida, é um argumento físico, mesmo. A água é um elemento pesado, que, pela ação da gravidade, tende a estar embaixo. Logo, diz o argumento, não faz sentido imaginar que possa haver águas acima do firmamento, de modo estável e líquido. Logo, o relato bíblico é inconsistente, conclui o argumento.

O segundo argumento também é uma objeção de natureza científica, considerando a ciência que existia no tempo de Tomás. A água, em seu estado mais comum, é naturalmente fluida; se o firmamento é constituído de abóbadas no céu, de tal modo que os astros nelas se deslocam, é impossível que estas abóbadas pudessem reter a água, que escorreria de volta à terra. Assim, o argumento conclui que o relato bíblico é inconsistente.

O terceiro argumento também parte da ciência do tempo de Tomás. Ali, não existia algo como a nossa “tabela periódica dos elementos químicos”; acreditava-se que todas as coisas eram formadas de água, ar, terra e fogo. Assim diz o argumento, a água é um dos elementos que se destina à formação das coisas materiais, compondo-as. Mas, ainda segundo a ciência daquele tempo, no espaço sideral não ocorre a destruição de coisas, nem a formação de novas coisas. Tudo o que há no firmamento é estável e não está sujeito a deterioração ou geração. Ora, se é assim, prossegue o argumento, não faria sentido que existisse, no espaço sideral, um elemento que entra na composição de outras coisas, se ali não há formação de coisas novas. Admitir isto seria admitir que Deus fez coisas sem sentido, sem razão de ser, o que seria impensável. Logo, conclui o argumento, não pode haver água acima do firmamento.

Por fim, o argumento sed contra apela simplesmente à autoridade das Escrituras. Lá, no versículo 7 do capítulo 1 do Gênesis diz-se com todas as letras que “Deus separou as águas que estavam por baixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento”. Logo, conclui o argumento, devem existir águas por cima do firmamento.

4. Breves palavras de fechamento.

Como sabemos, esta discussão mostra um conflito entre a ciência que tinham os contemporâneos de Tomás a respeito da estrutura do universo, fortemente marcada pela influência grega, por um lado, e a antiga visão de mundo semita, que está sob a redação do relato bíblico da criação, tal como está na Bíblia, em especial o relato do primeiro capítulo do Gênesis. É o velho conflito entre fé e razão. O certo é que não se pode esperar que a revelação sagrada torne os respectivos autores oniscientes, de súbito, em matéria de ciência. As escrituras são, de fato, inerrantes, naquilo que interessa à nossa salvação; mas não naquilo que diz respeito ao conhecimento científico de uma época. Como diz a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, § 11 “como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras”. Mas, na interpretação da Bíblia, não se pode esquecer que devemos procurar “o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu servindo-se dos gêneros literários então usados” (Dei Verbum, § 12). Vale dizer, a inerrância das Escrituras em matéria de fé e moral, para a nossa salvação, não implica a canonização da visão de mundo e da ciência que tinham aqueles povos.

Além disso, nesta busca de sentido, não podemos deixar de registrar quão interessante é, sob a visão da analogia da fé, imaginar que a menção a estas “águas” que estão “acima do firmamento” pode ser uma belíssima profecia sobre o batismo. A água batismal, de fato, dá-nos a vida do alto, como diz Jesus em João 3, 5: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus”. Eis as águas que estão acima do firmamento: as águas batismais.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.