Vimos que Tomás, em sua resposta sintetizadora, estabelece-nos dois princípios interessantíssimos de exegese, que devemos observar ainda hoje, especialmente quando se trata de relatos de criação.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás nos adverte para proceder com muito cuidado, nestas questões de exegese. E nos apresenta dois princípios que devem ser observados, nestas questões: 1. Prezar pela verdade das escrituras, não transigir com a Palavra de Deus; mas observando os limites da Revelação. Ela foi recebida por homens, inseridos num determinado empo e espaço, com sua própria visão de mundo e linguagem, e o seu objetivo era revelar o amor de Deus, não segredos científicos. É certo que Deus é onisciente, mas o escritor sagrado não é. E se não podemos desarraigar completamente o sentido histórico das Escrituras, para não fazer uma leitura gnóstica, espiritualizada, também não podemos desarraigar o escritor sagrado, fazendo dele um ser onisciente e incondicionado pela história e pelos seus limites humanos. 2. Na interpretação do texto, temos que ter o cuidado de não fazer leituras rígidas, fundamentalistas, mas de levar em conta o avanço científico e as visões de mundo de cada época. Se acomodarmos demais o texto a uma determinada visão de mundo, tentando fazer dele um modelo de descrição científica do mundo que compete com outros modelos, cairemos no ridículo, afastaremos as pessoas da fé e seremos ridicularizados pelos não crentes.
Tomás levará em conta estes princípios na sua resposta sintetizadora. Ele recolhe as visões que existem, então, sobre a estrutura do universo, tentando compreender a Revelação sem contradizê-las e, ao mesmo tempo, sem desmentir a Palavra revelada.
Trata-se, pois, de entender a maneira pela qual os filósofos e cientistas daquela época compreendiam a noção de “firmamento”. Ela envolve tudo aquilo que chamamos, hoje, de “céu”, no sentido de espaço aéreo atmosférico, e de “espaço sideral”, ou espaço além da atmosfera. Temos, então, a atmosfera e o espaço sideral, estudados aqui, em cotejo com os versículos bíblicos que tratam do segundo dia da criação.
Em primeiro lugar, Tomás cuida de compreender o espaço sideral, ou “firmamento no qual estão os astros”. Uma coisa que sempre chamou a atenção dos antigos é o fato de que o firmamento parece estável e permanente, enquanto a terra parece cheia de gerações e corrupções.
Tomás recorda a opinião de Empédocles, de que o espaço sideral é composto dos mesmos elementos que a terra. Mas na terra há duas forças fundamentais, o amor e o ódio, que são responsáveis pela união e destruição das coisas. No firmamento haveria apenas o amor, e é por isto que ali não se vê destruição, mas estabilidade e permanência.
Quanto a Platão, Tomás lembra que ele descreve o firmamento como formado de apenas um dos elementos, especificamente o fogo, na sua obra “Timeu”. Não havendo quatro elementos, mas apenas um, não haveria, ali, a formação de coisas novas nem a eliminação das existentes.
Já Aristóteles preferia defender que o firmamento é formado de um quinto elemento, diferente dos quatro elementos que formam as coisas da terra. Este quinto elemento teria uma característica própria: enquanto a matéria-prima dos quatro elementos da terra teriam a capacidade de transformar-se sempre em qualquer coisa aqui existente, o quinto elemento é estruturado de um jeito tal que não pode ser nada além do que ele já é, ou seja, não pode transformar-se em outra coisa. Isto explicaria, para Aristóteles, a estabilidade, verdadeira imutabilidade, dos corpos siderais.
Tomás, agora, passa a debater cada afirmação destas sobre a estrutura do espaço sideral. O objetivo de Tomás não é provar ou refutar estas teorias filosóficas ou científicas, mas testá-las contra o texto das Escrituras, para verificar se elas, de algum modo, tornam o relato da criação inconsistente ou ridículo, e mostrar que é possível fazer uma interpretação do relato de um tal modo que ele seja consistente, ainda que alguma destas teorias seja verdadeira.
De fato, diz Tomás, a visão de Empédocles não cria nenhuma dificuldade para a leitura do texto bíblico. Uma vez que se entende que a obra da criação inicia pelo estabelecimento dos pressupostos estruturais do universo, isto é, com a criação da matéria informe, nada impediria que o firmamento fosse formado neste “segundo dia”, ou segundo momento, do trabalho de Deus. É quando o trabalho criador não consiste mais em tirar as coisas do nada mas em diferenciar e ornamentar o universo já estabelecido no ser, mas ainda não completado em sua estrutura formal. E se o firmamento é composto dos mesmos elementos que a terra, não há nada no relato bíblico que contradiga a teoria de Empédocles, e vice-versa.
Já a teoria de Platão no Timeu causaria dificuldades de harmonização com o relato bíblico. De fato, se o firmamento é basicamente constituído de fogo, isto significa que ele já deveria estar formado antes do segundo dia, pela lógica do relato criacionista, diz Tomás. Na verdade, segundo a leitura de Tomás, logo no primeiro versículo o relato narra que no princípio Deus teria criado a matéria do céu e da terra, embora ainda sem sua diferenciação e ornamentação. Mas isto implicaria que os elementos fundamentais da matéria, isto é, a água, o fogo, a terra e o ar, devem ter sido criados logo no princípio. Mas se o firmamento é fundamentalmente fogo, ele teria que ter surgido logo no princípio, e não no segundo dia. Existiria, aqui, a necessidade de fazer uma releitura do texto bíblico, de modo a não torná-lo inconsistente, se a visão de mundo de Platão for verdadeira.
Por fim, diz Tomás, tampouco a visão de Aristóteles seria compatível com uma leitura simples do relato bíblico. Se a matéria do firmamento é fundamentalmente um quinto elemento, que não tem outra capacidade a não ser a de compor os corpos celestes, isto significa que a criação do firmamento não poderia ter sido uma simples obra de diferenciação e separação da matéria informe preexistente desde o início, mas envolveria a própria criação de uma matéria especificamente destinada a compor o céu. Ora, a obra de criação de matéria fundamental precede o tempo, no relato bíblico, e não está contido no relato dos dias. Por isto, se a visão de Aristóteles estiver correta, então a criação do firmamento, com a sua matéria própria, não pode ter ocorrido num “segundo dia”, ou seja, num tempo posterior àquele em que toda a matéria fundamental, do céu e da terra, teriam sido criadas. A não ser, ressalta Tomás, que entendêssemos que neste “segundo dia” houve apenas um aperfeiçoamento do firmamento, uma distinção ou ornamentação daquilo que já estava criado antes. Esta é uma interpretação que pode ser harmonizada, e que temprecedentes patrísticos: o próprio Pseudo-Dionísio defende que a estrutura fundamental do sol já estaria criada nos primeiros três dias, mas sua configuração plena só teria ocorrido no quarto dia. Este modo que Dionísio apresenta, para harmonizar a narração da criação do sol no quarto dia com a existência de luz no primeiro dia pode servir de exemplo para uma leitura que harmonize a visão de Aristóteles sobre o firmamento com o relato bíblico, pensa Tomás.
Além disso, prossegue Tomás, todas estas dificuldades ficam superadas se adotarmos a visão de Santo Agostinho, para quem a sucessão de dias no relato da criação não retrata uma sequência propriamente cronológica, mas uma hierarquização das naturezas, de modo a revelar a estrutura da hierarquia no ser que Deus tinha em mente ao criar o universo. Ou seja, trata-se de uma descrição de prioridades e de ordem no ser, e não de uma descrição temporal da criação. Se adotarmos esta leitura, diz Tomás, todas as dificuldades de harmonizar o texto bíblico com as diversas visões filosóficas ou científicas caem por terra, mesmo no caso dos sistemas de Platão e Aristóteles. O relato, ao colocar o firmamento no segundo dia, apenas está ressaltando que, segundo a visão bíblica, a terra e o firmamento são mais fundamentais, por exemplo, do que o sol e a lua, cuja criação é narrada apenas no quarto dia.
Por fim, diz Tomás, há uma outra leitura possível. Alguns Padres da igreja defendem que o relato do segundo dia não trata do “firmamento” como “espaço sideral”, mas como a atmosfera terrestre, na qual estão as nuvens e os pássaros. Assim, o espaço sideral estaria formado já desde o início, na narrativa do versículo 1, embora ainda de modo indistinto, e aqui neste segundo dia Deus formaria a atmosfera terrestre. Adotando esta leitura, diz Tomás, caem por terra as dificuldades mencionadas. E esta leitura tem, inclusive, o aval de Santo Agostinho, que a considera “digna de louvor” e não contrária à fé.
Esta é, pois, a lição de Tomás: não façam uma leitura fundamentalista do texto. Considerem que há diversas leituras possíveis, que preservam a fé e tornam o relato não conflituoso com as visões filosóficas e científicas que se multiplicam. Esta é uma lição muito válida para nós, hoje, já que, por um lado, o relato evolucionista radical é contraposto a uma leitura fundamentalista, criacionista da Bíblia, que torna a fé contraposta à razão, e por outro lado há uma grande tentação a simplesmente harmonizar o relato de criação com o Big Bang, como se os dois tivessem o mesmo fundamento e o mesmo objetivo. Mas não têm. O modo como Tomás lidou com estes conflitos no tempo dele continua a ser uma lição para nós, portanto.
Vale lembrar, agora, os três argumentos objetores iniciais, porque Tomás vai respondê-los de uma vez só. O primeiro diz que há uma contradição, neste relato bíblico do primeiro capítulo do Gênesis, entre o versículo 1, que diz que no princípio Deus criou o céu e a terra, e o versículo 8, que diz que Deus criou o firmamento no segundo dia e o chamou de “céu”. Ora, conclui o argumento, se o céu já estava criado desde o princípio, não seria conveniente narrar sua criação novamente no segundo dia.
O segundo argumento vai no mesmo sentido, e dia que, se a água e a terra estão criados desde o princípio, e o firmamento é logicamente anterior a eles, não poderia sua criação ser narrada apenas no segundo dia. O terceiro argumento usa a ideia aristotélica de que o firmamento é estruturado com uma matéria fundamental diferente daquela da terra; ora, diz o argumento, se a obra da criação da matéria fundamental é narrada antes dos “dias” e o firmamento é criado de uma matéria diversa daquela preexistente para a terra, sua criação não poderia ser narrada nos “dias”, que tratam da diferenciação e ornamentação da criação, mas antes de todos os tempos, ou seja, no princípio, conclui o terceiro argumento.
Tomás vai fazer uma longa resposta ao primeiro argumento objetor, na qual responderá de uma vez todos os três. Ele resgata várias interpretações bíblicas feitas pelos santos Padres da Igreja, para fundamentar sua resposta.
O primeiro é São João Crisóstomo. Segundo este Padre grego, o primeiro versículo da Bíblia não significa que Deus criou o céu e a terra num primeiro momento, e depois saiu diferenciando e ornamentando. Ele seria uma espécie de “síntese inicial”, como se alguém dissesse assim: no princípio, este construtor fez a sua casa. E depois fosse especificando: ele colocou os alicerces, ergueu as paredes, colocou o teto, etc. Assim, não haveria nenhuma contradição entre o primeiro versículo, em que se diz sinteticamente que Deus criou céus e terra no princípio, e os demais versículos, que retomam a narrativa para explicá-la analiticamente. Não há, pois, conflito, segundo esta interpretação, entre o versículo 1 e o versículo 8.
Mas é possível defender, também, com recurso aos Padres da Igreja, que o versículo 1 faz menção à criação do “céu” num sentido diferente daquele mencionado no versículo 8. Ou seja, mesmo que não apliquemos esta leitura de Crisóstomo, ainda é possível defender o relato bíblico como coerente. Tomás passa a elencar diversas interpretações:
– Segundo Santo Agostinho, a menção a “céu” no primeiro versículo apenas significa que Deus iniciou sua criação pelas realidades espirituais, criando o mundo dos anjos, embora ainda sem distinções entre eles. A menção no versículo 8 seria ao firmamento do universo material.
– Segundo São Beda e Estrabão (este, um grego que teve acesso apenas ao Antigo Testamento), a menção, no primeiro versículo, é ao chamado “céu empíreo”, ou seja, ao paraíso que se destina às almas dos santos e aos santos anjos, enquanto a menção no versículo 8 é ao espaço sideral.
– São João Damasceno lia esta passagem do primeiro versículo como fazendo referência ao céu no qual se move o sol, que marca o dia, enquanto no versículo 8 ele vê uma referência ao espaço sideral no qual estão os outros astros e as estrelas.
Tomás ainda resgata uma outra interpretação, que Agostinho menciona, na qual a primeira menção se entende como se referindo ao céu no sentido de espaço sideral, e a segunda, à atmosfera terrestre. Para marcar o fato de que está usando uma mesma palavra para designar duas coisas completamente diferentes é que o relato especifica, na segunda vez, que Deus “Chamou ao firmamento ‘céu’”, como ele chama a luz de “dia”, no versículo 5, embora o sol, que preside o dia, só seja criado no quarto dia, conforme o versículo 16.
Como se vê, Tomás nos ensina a fugir do fundamentalismo, a buscar toda a largura da interpretação patrística e a respeitar a ciência em seus próprios domínios. Lições que continuam válidas hoje.
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