Mais uma vez, vemos aqui o peso da superação de visões de mundo. Uma era a visão de mundo do mundo hebraico, quando o relato de criação do Gênesis capítulo 1 foi escrito. Outra era a visão no tempo de Tomás, e, finalmente, outra é a nossa. Cada época faz a leitura do texto que parece corresponder à sua própria visão, e isto torna muito interessante a nossa releitura sobre a visão de Tomás. Não só perceber como a sucessão de visões de mundo tornam anacrônica a visão anterior, mas que a nossa própria visão parecerá irremediavelmente anacrônica daqui a alguns séculos.
O debate aqui é se é adequado descrever a criação do firmamento no segundo dia da criação, como fazem os versículos 6 a 8 deste texto bíblico. A hipótese controvertida é a de que esta narrativa é inadequada, porque, apesar de narrada aqui, não se pode aceitar que o firmamento tenha sido criado no segundo dia da criação.
O primeiro argumento é uma crítica textual. O argumento lembra que logo no primeiro versículo deste capítulo já se narrou a criação do céu e da terra: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”, diz o primeiro versículo da Bíblia. Não seria, portanto, adequado voltar a narrar essa mesma criação no versículo 6 e seguintes.
O segundo argumento objetor também é uma crítica textual. Se a narrativa deste capítulo 1 cita a existência de terra e de água ainda no versículo 2 (“A terra estava informe e vazia, e o espírito de Deus pairava sobre as águas”), e se a existência da terra e da água pressupõem a existência de estruturas terrestres e aéreas, há que se presumir que o chão e o firmamento já estavam formados logo no início, antes mesmo da luz, formada no primeiro dia. Logo, a narração da sua criação no segundo dia seria inconveniente, conclui o argumento.
O terceiro argumento é aquele que tenta conciliar a visão bíblica com a ciência de então. A ciência medieval, de matriz aristotélica, defendia que os corpos celestes, ou supra-lunares, não seriam compostos pelo mesmo tipo de matéria-prima que os corpos terrestres, ou infra-lunares. J´discutimos isto alguns artigos atrás. Os corpos supra-lunares, como se acreditava então, seriam incorruptíveis, indestrutíveis, não sujeitos a mudanças, enquanto os entes corpóreos terrestres seriam corruptíveis e mutáveis. Ora, diz o argumento, todas as coisas cuja criação é narrada, neste relato dos seis dias, são feitas com a matéria que havia sido criada logo no princípio, conforme versículo 2. Mas o firmamento, conforme a física aristotélica, não é formado desta mesma matéria, mas de outro tipo diverso de matéria. Então seria inadequado, conclui o argumento, incluir sua criação aqui, neste segundo dia.
Por fim, o argumento sed contra cita as Escrituras (versículos 6 a 8: “Deus disse: Faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele umas das outras”. Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento daquelas que estavam por cima. E assim se fez. Deus chamou ao firmamento céu. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o segundo dia”) para concluir que o relato é suficiente para nos fazer acreditar que as coisas aconteceram exatamente como estão ali.
Em sua resposta sintetizadora, Tomás nos adverte para proceder com muito cuidado, nestas questões de exegese. E nos apresenta dois princípios que devem ser observados, nestas questões:
1. Devemos sempre prezar pela verdade das Escrituras. E não apenas em seu sentido geral, espiritual, abstrato, fazendo uma leitura totalmente “espiritual” do seu sentido; mas aprofundando o seu sentido verdadeiro, isto é, aquilo que o autor bíblico quis expressar como verdade revelada, a partir de seus próprios meios e dos limites de sua própria linguagem e de sua ciência.
2. Mas devemos ter cuidado com a interpretação, para não fazer algum tipo de acomodação restritiva a algum ponto de vista, de modo muito rígido, lembrando sempre que há várias possibilidades de leitura do mesmo texto. Assim, quando restringimos demais a leitura, vinculando-a a algum ponto de vista muito unilateral ou muito rígido, sem levar em conta a possibilidade de fazer outras leituras, outras acomodações ou mesmo chegar a uma mensagem mais profunda, corre-se o risco de tornar as Escrituras ridículas para os não-crentes, que, demonstrando a falsidade da visão de mundo à qual amarramos as Escrituras, poderiam não somente excluir-se da fé, mas levar muitos crentes a considerá-la falsa e abandoná-la.
São dois princípios que devem ser obedecidos ainda hoje. De fato, uma leitura fundamentalista, rígida, deste relato, já foi causa de muitos conflitos entre a fé e a razão, em nossos tempos modernos, e já afastou a muitos da fé. A advertência de Tomás é, portanto, muito atual. Não podemos nos apegar a uma leitura estreita da Bíblia, e devemos estar prontos a reler o texto, buscando um novo sentido, sempre que alguma descoberta científica demonstrar que a leitura anterior não se sustenta.
E ele vai aplicar estes princípios em sua resposta, examinando diversas visões gregas e patrísticas sobre a estrutura do universo, em especial sobre aquilo que eles chamavam de “firmamento”, ou seja, o espaço acima de nossas cabeças, incluído, aí, o espaço sideral.
Veremos no próximo texto.
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