Não é fácil, como já vimos, tentar harmonizar o relato bíblico da criação com os modelos científicos que vão sendo sucedidos no tempo. Na verdade, temos hoje um modelo científico, chamado de Big Bang”, que aparenta ser, inclusive, mais fácil de harmonizar do que o modelo aristotélico, do tempo de Tomás. Mas a longa história da exegese deste trecho mostra os riscos de fazer o relato “caber” na visão científica do seu tempo: superado o modelo científico, fica a sensação de que a própria Bíblia ficou superada. Foi assim com o fim do geocentrismo, com a biologia evolucionista e poderia não ser diferente com o Big Bang. Devemos, pois, aprender a não amarrar a exegese em modelos científicos. Aprender, com Tomás, a usar a ciência quando é necessário, mas com todos os cuidados.
No texto passado, Tomás lançou os fundamentos para resolver este debate. Agora ele vai revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento é aquele que coloca logo a maior dificuldade a ser enfrentada neste artigo; se a luz é uma qualidade, então ela não existe por si mesma, mas é sempre um acidente relacionado a alguma substância preexistente. É sempre a luz de alguma coisa. Mas no primeiro dia ainda não existe nenhum ente substancial, e o relato bíblico já narra a criação da luz. Logo, conclui, o relato é inconvenientemente ordenado.
É preciso lembrar, diz Tomás, que a criação da luz não é o primeiro ato criador de Deus, no relato bíblico. Neste ponto, diz Tomás, precisamos lembrar daqueles Padres da Igreja que, em sua exegese, nos ensinaram que a matéria foi criada indistinta, mas as formas substanciais já estavam presente6, mesmo de modo indiferenciado, na matéria indistinta da qual trata o versículo 2 do primeiro capítulo do Gênesis. Assim, a obra de diferenciação inicia-se, neste relato, pela criação da luz, que é a primeira e mais fundamental característica acidental no trabalho de diferenciação das coisas materiais.
O segundo argumento alega que a criação da luz não pode ser convenientemente narrada no primeiro dia, porque o sol só foi criado no quarto dia e a luz é aquela característica do sol pela qual se distingue o dia da noite. Logo, o relato bíblico estaria equivocado, conclui.
Tomás diz que diversos intérpretes tentaram explicar esta existência da luz no primeiro dia através de vários artifícios.
Alguns exegetas afirmavam que essa luz era como uma grande nuvem luminosa que, após a criação do sol, deixou de existir, reincorporando-se à matéria preexistente. Mas isto não é uma boa interpretação, diz Tomás. O relato da criação narra a instituição das coisas tais como são. Não há nenhuma indicação de que Deus tenha criado alguma estrutura provisória que viesse a desaparecer num momento posterior da criação; seria uma gambiarra, um “puxadinho”, ou seja, uma espécie de tapa-buracos destinado a deixar de existir num momento posterior. Mas isto não se coaduna com o espírito do próprio relato bíblico, que narra a criação das coisas tais como elas são e faz questão de registrar que são “boas”. Vale dizer, não há gambiarras, nem “estruturas provisórias”, na criação. As naturezas que Deus cria não são tentativas. São entes destinados a ser o que são.
Para tentar escapar dessa ideia de que Deus criou uma “estrutura luminosa provisória” destinada a deixar de existir quando o sol surgisse, alguns outros intérpretes propuseram que essa “nuvem luminosa” veio a unir-se ao sol, ou mesmo a formar o próprio sol, no quarto dia. Mas todas estas são soluções igualmente artificiosas, diz Tomás. Não escapam da ideia de que são uma leitura acomodatícia da Bíblia, um verdadeiro “jeitinho” para encaixar o relato bíblico no relato filosófico-científico. Ademais, Tomás expressamente rejeita a ideia de que alguma “nuvem” possa ter sido juntada ao sol, porque, na visão de mundo dele, o sol é feito de um elemento diferente daqueles que formam as coisas da terra, e por isto não está sujeito a modificações. Enfim, Tomás não cede à tentação de imaginar entes que não estão no relato nem se harmonizam com ele, para solucionar uma dificuldade de interpretação.
Tomás, enfim, vai adotar a solução do Pseudo-Dionísio, para quem a luz já era, desde o primeiro dia, a luz do sol, embora o sol ainda não estivesse ainda separado, devidamente formado, mas já era substancialmente existente, embora indistinto. Na verdade, diz Tomás, era a luz do sol mesmo, desde o primeiro momento, que é mencionada como criada aqui, e que depois será associada ao sol, no quarto dia, quando ele for devidamente conformado. Mas, acima de tudo, o objetivo do relato bíblico não é estabelecer princípios físicos nem narrar observações científicas, mas estabelecer a distinção entre o que é luz, e portanto capaz de ser visto, de integrar-se, de ser percebido e inteligido, daquilo que é trevas, ou seja, obscuridade, caos, falta de integração. E esta distinção entre luz e trevas, prossegue Tomás, dá-se em três níveis:
1. A distinção ontológica. A luz é da natureza do sol, vale dizer, é celeste, enquanto as coisas terrestres são opacas, dependem da luminosidade do céu para serem clareadas.
2. A distinção espacial. Há luz e há trevas, em partes distintas do cosmos, e não se confundem. O que está nas trevas está em outro lugar, relativamente ao que está na luz.
3. A distinção temporal, isto é, a sucessão da luz que ilumina as trevas, e das trevas que sucedem à luz, marcando a própria sucessão da história na sequência dos dias e das noites. É por isto que o versículo 5 deste mesmo capítulo registra que Deus “chamou à luz dia, e às trevas, noite”.
O terceiro argumento pondera que a alternância enre o dia e a noite, que se relacionam com a antítese luz-trevas, depende da órbita dos astros. Mas o firmamento do céu só foi criado no segundo dia, segundo o relato bíblico. Assim, não haveria consistência em narrar a separação entre a luz e as trevas no primeiro dia e a criação do firmamento somente no segundo dia, conclui o argumento.
Em sua resposta, Tomás cita Agostinho e Basílio, no particular, tentando conciliar a ciência que conheciam com este relato bíblico.
São Basílio tenta explicar esta separação entre as trevas e a luz, no primeiro dia, como um efeito da emissão e contração da luz, causando a claridade e a escuridão. Mas Santo Agostinho critica esta posição, dizendo que este fenômeno de emissão e contração da luz, causando claridade e trevas, seria inócuo, visto que não haveria animais nem seres humanos para enxergar a luz ou envolver-se de trevas. Além disso, diz Agostinho, essa “contração da luz” sem que haja a alteração de sua fonte seria algo milagroso, ou seja, sem explicação natural. De fato, a luz se expande quando a fonte de luz está presente, e se retrai quando ela se ausenta. Portanto, a alternância entre luz e trevas por algum fenômeno de “contração e expansão da luz’ não teria causas naturais, e portanto seria miraculoso. Ora, diz Agostinho, o que está sendo narrado é a criação da natureza, e não a instituição de milagres. Assim, não teria sentido que o relato da criação da natureza já se iniciasse com a narração de um fenômeno antinatural. A explicação para a narração da separação entre luz e trevas no primeiro dia da criação deve ter, portanto, outro sentido, conclui Tomás.
Tomás, então, arrisca-se a fazer sua própria leitura acomodatícia; ele opina que, uma vez que, no princípio, Deus criou o céu e a terra (versículo 1), neste primeiro dia já haveria o céu e a terra. Logo, haveria, desde logo, esta alternância entre dia e noite, porque o céu e a terra já têm o dinamismo que caracteriza sua relação. Isto é, já há a rotação do céu em volta da terra. Mas ainda não há a diferença entre estações ou meses, que são marcados pela posição relativa dos astros no céu, e os astros ainda não existem no primeiro dia. No quarto dia, porém, criados os astros, teríamos, além da alternância entre dia e noite que caracterizam este primeiro momento, também toda a riqueza da alternância dos meses com as fases da lua, das estações com o movimento dos astros e mesmo de toda a diversidade de clima, influenciada pela riqueza do universo com relação à terra.
É interessante notar que para nós, no século XXI, seria ainda mais tentador fazer uma leitura acomodatícia deste versículo 3 do primeiro capítulo do Gênesis, já que a teoria do Big Bang seria muito mais fácil de acomodar com o texto bíblico do que o modelo astronômico da Grécia antiga, sob Aristóteles e Ptolomeu. Mas, vendo o quanto os modelos acomodatícios de leitura bíblica antigos soam artificiais para nós, melhor mesmo é perceber que o objetivo do escritor sagrado não era narrar uma descrição científica da criação, mas estabelecer o próprio fato teológico da criação, com todas as suas consequências na relação das criaturas com Deus. Neste sentido, é interessante que a divisão entre luz e trevas seja o primeiro gesto criador: de fato, trata-se de estabelecer este limite de inteligibilidade, ou mesmo de densidade existencial do universo criado, narrando que, antes de mais nada, Deus torna iluminada a sua criação, isto é, torna-a visível, inteligível, clara, embora as trevas ainda permaneçam nela, justamente porque ela não é divina. Mas isto é apenas uma digressão teológica meio atrevida, da minha parte. Peço desculpa aos leitores.
Por fim, o quarto argumento diz que não foi nada conveniente que a criação da luz fosse narrada como obra do primeiro dia; mesmo que se interpretasse que a menção, aí, seria a uma luz espiritual, e não material. Isto porque, no início da criação, mesmo os anjos maus ainda não haviam caído, e não havia, portanto, as trevas. Logo, a inclusão da criação da luz neste lugar é inconveniente, conclui o argumento.
Tomás responderá lembrando que o argumento recorre à ideia de Santo Agostinho de que Gênesis 1, 3 refere-se à separação entre a luz e as trevas no plano espiritual, isto é, no mundo angelical. Mas, como Tomás lembra, a narração que Agostinho faz da criação dos anjos, da sua tomada de consciência e da sua opção pela graça não envolve o tempo; todos estes eventos são fora do tempo. Assim, seria possível imaginar que, mesmo que a interpretação deste versículo 3 remeta à realidade espiritual dos anjos, seria possível defender que ela não se refere à própria criação indistinta da realidade angélica, mas à posterior especificação individual dos anjos, quando todos eles foram individualizados e iluminados pela graça, saindo, portanto, da indistinção. Ou então refere-se ao momento seguinte, em que, havendo recebido a graça, os santos anjos optaram pela salvação e os demônios, pela perdição eterna, caso em que os demônios, havendo sido criados bons, escolheram as trevas. Ora, diz Tomás, esta interpretação seria perfeitamente defensável, já que, embora os demônios tenham sido criados bons por Deus, ele já previa a queda, e, no primeiro dia, poderia ter separado a luz (os que foram para a glória) das trevas (os que o rejeitaram, segundo sua previsão, e foram para a perdição). A leitura espiritual, portanto, não é uma leitura absurda, conclui Tomás.
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