Vimos, no último texto, os argumentos a respeito de uma possível contradição existente entre defender que a luz é uma qualidade, ou seja, um aspecto acidental de alguma outra coisa, e, ao mesmo tempo, descobrir que ela é algo que Deus cria logo no primeiro dia, antes que qualquer coisa exista, ou seja, entre a letra do relato bíblico da criação e a filosofia natural fundamentada na metafísica aristotélica.
Neste aspecto, acreditamos que sempre foi (e sempre será) uma tarefa difícil tentar harmonizar o relato bíblico com a ciência do respectivo tempo do exegeta. O relato bíblico tem seu próprio contexto de surgimento, suas circunstâncias, seus objetivos teológicos e está imerso em sua própria cultura. Não podemos simplesmente transportar sua letra e imergi-la em outra cultura, sem entender adequadamente seus próprios limites e objetivos. É este o caminho que Tomás nos está ensinando. Mais do que chegar às mesmas conclusões que ele chegou, ou defendê-las ferozmente contra descobertas científicas que Tomás não conheceu (e nem poderia),
Como vimos no final do último texto, Tomás vai iniciar sua própria resposta sintetizadora anotando que há diversas posições a respeito da criação da luz no primeiro dia. Mas há duas posições fundamentais: 1) a posição daqueles que acham, como Agostinho, que o relato do Gênesis começa narrando que “no início, Deus criou o céu e a terra” porque a criação dos seres espirituais, como os anjos, (que precedeu a criação do universo material) está incluída aí. 2) Outros, porém, como o grande São Basílio, acreditam que a narração bíblica abrange apenas a criação do universo material, e que a criação dos anjos não foi incluída nesta narrativa. Assim, a narração do gênesis, para estes, não é exatamente a partir do início da criação, mas apenas do início da criação do universo material.
Tomás lembra que, em seu comentário sobre o Gênesis, Santo Agostinho considera que não seria conveniente que Moisés tivesse omitido a criação dos anjos, em seu relato. Assim, Agostinho considera que o primeiro versículo da Bíblia (Gn 1, 1), ao dizer que no princípio Deus criou o céu e a Terra, refere-se à criação indefinida das criaturas espirituais, por um lado, e à criação também ainda indefinida, ainda informe, da matéria fundamental do universo material. Assim, Agostinho entende que a referência à luz no versículo 3º (Deus disse: “luz”, e a luz se fez) narra, em verdade, a definição dos anjos, ou seja, o estabelecimento pleno do mundo espiritual em sua completude. Uma vez, diz ele, que o universo angélico é mais digno do que o universo material, sua organização é referida, pela Bíblia, como o “fazer-se a luz” referida neste versículo. A plenificação da criatura espiritual consistiria, assim, em receber a luz da graça para aderir ao Verbo, segundo Agostinho. Mas já vimos, no artigo 1º desta questão, que Tomás não adere à ideia de que esta menção à luz, aqui no versículo 3º, seja uma referência à luz em sentido espiritual. Tomás prefere a ideia de que a menção, aqui, é à luz em seu sentido material, concreto.
Mas há outros Padres da Igreja que entendem, diferentemente de Agostinho, que o relato da Bíblia omite a criação dos anjos, e o faz de modo intencional. Mas eles dão razões diferentes para isto.
Tomás lembra, aqui, a posição de São Basílio. Para ele, a narração mosaica tem a intenção de descrever a criação do nosso universo, o das coisas corporais, e parte de um ponto em que o universo das coisas espirituais já havia sido criado. Assim, para Basílio, a Bíblia inicia seu relato quando a criação espiritual já estava concluída. Trata-se, pois, apenas de uma opção narrativa, para ele.
Mas São João Crisóstomo dá oura razão para esta “opção narrativa” de Moisés no Livro do Gênesis, de iniciar a narrar apenas quando da criação do universo material. É que a narrativa foi elaborada tendo como destinatário um povo simples, rude mesmo, que precisava ser conduzido para fora da idolatria. Assim, se o relato fosse iniciado com a criação de seres espirituais, invisíveis e superiores às inteligências humanas, seria uma ocasião para que as pessoas justificassem eventual adoração aos anjos, como se fossem deuses. De fato, aquele povo estava cercado por culturas que já adoravam até corpos celestes como o sol e a lua, pelo que Moisés (supostamente o autor material do Gênesis) optara deliberadamente por omitir a narração da criação dos anjos, para não promover uma idolatria que a própria Bíblia proibia.
Neste trecho, diz Tomás, o relato já nos introduzia a uma criação iniciada, mas ainda não aperfeiçoada, e portanto disforme e indistinta. De fato, o versículo 2º deste relato informa que a que, após desencadear o processo de criação das coisas materiais, a terra (quer dizer, o cosmos) ainda estava “informe e vazia”, e “as trevas cobriam a face do abismo”, enquanto o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Assim, diz Tomás, era conveniente que, diante desse caos, o relato prosseguisse para a criação da luz, ou seja, da organização que torna inteligível, visível, a criação. E isto, diz Tomás, por duas razões:
1. A luz, para Tomás, é uma qualidade relacionada ao primeiro corpo, que é o sol. Conveniente, portanto, que, no trabalho de organização da criação, ela inaugurasse a estruturação do mundo.
2. A luz cria a comunidade dos seres, entre todas as coisas do universo. Ela possibilta que os entes vejam-se, relacionem-se, comuniquem-se, e torna os de baixo capazes de enxergar os mais altos e vice-versa. Ora, se a criação caracteriza-se por uma sucessão de aperfeiçoamentos (primeiro o que é inanimado, depois os vegetais, depois os animais, depois os humanos), nada mais conveniente que aquilo que é mais fundamental para que todas as coisas possam relacionar-se seja também a primeira coisa a ser criada.
Mas haveria uma terceira razão, acrescentada por São Basílio. É que, após narrar um universo obscuro e caótico, é a luz que torna a criação manifesta. Assim, criando a luz, Deus como que publiciza, torna evidente, seu labor.
Por fim, diz Tomás, poderíamos considerar que uma das objeções acima colocadas traz uma quarta razão pela qual seria conveniente narrar a criação da luz assim: se o dia é uma unidade de medida tão fundamental no relato da criação, e se não pode haver dia sem luz, é muito conveniente narrar a criação da luz logo no primeiro dia.
No próximo texto veremos as respostas específicas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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