Desde o último texto, Tomás nos deixou numa situação de grande suspense: se a luz não é, ela mesma, uma substância, vale dizer, um ente que existe em si mesmo, por direito próprio 9digamos assim), mas apenas um acidente, ou seja, um aspecto que existe apenas como característica de alguma outra coisa, de algum outro ente substancial, então como é que o relato da Bíblia coloca a criação da luz logo no primeiro dia, quando não havia ainda o sol, que seria o ente substancial da qual a luz seria uma qualidade acidental?

Esta é exatamente a hipótese controvertida, aqui. Parece que não seria conveniente elencar a luz como criada em primeiro lugar, já no primeiro dia do relato da criação, antes mesmo que houvesse qualquer ente substancial que pudesse exibir, acidentalmente, a qualidade de ser luminoso. Há quatro argumentos objetores neste sentido.

O primeiro argumento é exatamente este que estamos debatendo desde o início do texto: se a luz é um acidente, ela é apenas uma característica de alguma coisa, e não um ente em si mesma. Ou seja, uma qualidade é sempre uma qualidade de algo. Mas no relato da criação, antes de narrar a criação da luz em Gênesis 1, 3, não se narra a criação de nenhum ente que pudesse emitir luz. Ora, se a luz tem um ser acidental, derivado, teria que haver a criação de alguma coisa luminosa primeiro, Logo, a narrativa da criação neste primeiro capítulo do Gênesis está arrumada de uma maneira inconveniente.

O segundo argumento lembra que a separação entre a luz e as trevas implica a diferença entre a noite e o dia. Mas a noite e o dia são marcados pelo sol, cuja criação só é narrada no quarto dia, versículos 14 e seguintes. Logo, conclui o argumento, é inconveniente que a narração da criação da luz esteja no primeiro dia.

O terceiro argumento também quer lembrar que as trevas e a luz, mesmo que fossem independentes do sol, têm seu lugar na atmosfera, que é clara de dia e escura à noite. Mas a criação do firmamento somente é narrada no segundo dia, e portanto não haveria o lugar próprio para a luz. Assim, o argumento conclui que associar a criação da luz ao primeiro dia é inconveniente.

Por fim, o quarto argumento resgata a ideia, já debatida no primeiro artigo desta questão, de que o relato da criação menciona a luz, aqui, em sentido espiritual. Mesmo que admitíssemos que esta narração trata da luz em sentido espiritual (e já sabemos que não é, pelo debate do primeiro artigo), ainda assim haveria inconveniência em narrar a criação da luz no primeiro dia, defende o argumento. Para haver luz e trevas no reino espiritual, seria preciso admitir que, no início, já haveria anjos bons e anjos maus. Mas no tratado dos anjos, que já estudamos, já ficou estabelecido que todos os anjos, no início, eram bons. Logo, não haveria, ainda, as trevas espirituais que surgem da queda dos demônios, e a luz espiritual seria anterior mesmo ao primeiro dia, existindo nos anjos, em todos eles ainda, naturalmente. Por isto, não teria sentido narrar a criação da luz no primeiro dia, conclui o argumento.

O argumento sed contra afirma simplesmente que, uma vez que o próprio relato da criação divide-se em dias, e, uma vez que não há dia sem luz, seria forçoso narrar a criação da luz logo no primeiro dia, para que os próprios dias pudessem existir.

Antes de passar à resposta sintetizadora de Tomás, é conveniente lembrar que, no tempo de Tomás (e até muito tempo depois, antes da chamada “leitura histórico-crítica da Bíblia”), todos acreditavam que o autor humano dos cinco primeiros livros da Bíblia era o próprio Moisés, que teria se dado ao trabalho de redigi-los pessoalmente. Hoje, sabemos que estes livros foram formados a partir de tradições orais e escritas muito antigas, e que a pessoa de Moisés é como que o eixo em torno do qual os livros foram organizados, mas não é o seu autor material. Precisamos lembrar, sempre, que este conceito, próprio do nosso tempo, de autoria como resultado do esforço pessoal de escrever, é estranho à antiguidade; lá, quando se falava em autoria, pensava-se muito mais em termos de origem das tradições, ou de eixo de influência, do que numa pessoa que houvesse criado e escrito pessoalmente o texto e, por isto, fosse o detentor de eventuais direitos autorais. Tentar imputar este tipo de preocupação aos textos antigos é um certo anacronismo. Assim, podemos continuar falando em autoria humana dos textos bíblicos, sem nos prender demais à ideia da criação e produção intelectual que temos hoje.

Posto este esclarecimento, voltemos ao artigo.

Tomás vai iniciar sua própria resposta sintetizadora anotando que há diversas posições a respeito da criação da luz no primeiro dia. Mas há duas posições fundamentais, a daqueles que acham, como Agostinho, que o relato do Gênesis começa narrando que “no início, Deus criou o céu e a terra” porque a criação dos seres espirituais, como os anjos, (que precedeu a criação do universo material) está incluída aí. Outros, porém, como o grande São Basílio, acreditam que a narração bíblica abrange apenas a criação do universo material, e que a criação dos anjos não foi incluída nesta narrativa.

Examinaremos, com Tomás, a posição de cada um destes Padres da Igreja, que ele tanto ama e respeita, no nosso próximo texto.